A Teoria do Caos Aplicada à Paternidade (SatoSugu)
A Hipótese do Bebê.
Capítulo 1 · 7 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
O cheiro do apartamento era uma mistura confusa de café requentado, amaciante de roupa barata e o feromônio denso e adocicado de um alfa que passou o dia inteiro trancado em casa, e Suguru Geto sentiu aquele aroma familiar bater contra o seu rosto assim que girou a chave na fechadura, trazendo consigo o cansaço pesado de um dia de trabalho que parecia não ter fim. Ele jogou a pasta de couro sobre o aparador da entrada, suspirando fundo enquanto tirava os sapatos apertados, e seus olhos, inchados pela luz azul do computador, percorreram a sala de estar que parecia ter sido atingida por um furacão categoria cinco. Havia um par de meias jogado no meio do corredor, uma pilha de pratos sujos equilibrando-se perigosamente na beirada da pia, e o controle remoto da televisão estava milagrosamente dentro da geladeira entreaberta, uma obra de arte moderna que só Satoru Gojo seria capaz de conceber, e Suguru sentiu o início de uma dor de cabeça latejar em suas têmporas.
Ele caminhou até a cozinha arrastando os pés, abrindo a geladeira para pegar uma garrafa de água, e foi nesse momento que ouviu o barulho de passos rápidos e pesados descendo as escadas, seguidos por um vulto enorme de cabelos brancos que quase tropeçou no próprio pé ao tentar parar na frente dele. Satoru estava usando uma camiseta velha e furada que deixava uma parte da barriga dele à mostra, os óculos escuros pendurados de forma torta no colarinho da camisa, e ele tinha aquela expressão de quem estava prestes a cometer uma travessura ou pedir algo completamente absurdo, o que, para o desespero de Suguru, eram praticamente a mesma coisa.
— Meu lindo, meu amor, meu príncipe, minha razão de viver — começou o alfa, abrindo os braços como se fosse dar um abraço, mas sendo bloqueado pela garrafa de água que Suguru segurava como um escudo — Eu tenho uma proposta irrecusável para você.
O ômega bebeu um gole longo de água, sentindo o líquido gelado descer pela garganta e aliviar um pouco do estresse, e encostou o quadril na bancada da cozinha enquanto encarava o marido com a paciência infinita de quem já viu de tudo naquela relação.
— Satoru, se essa proposta envolve comprar mais algum boneco de colecionador que vai ficar juntando poeira na estante, ou adotar um daqueles gatos de rua que você viu no Instagram, a resposta é não — disse ele, com a voz arrastada pelo cansaço — Eu acabei de voltar de uma reunião de doze horas onde o meu chefe passou metade do tempo gritando com a equipe e a outra metade reclamando que o café da copa estava frio, então, por favor, me poupe.
Satoru deu um passo à frente, ignorando completamente o escudo de plástico, e envolveu a cintura de Suguru com os braços, puxando-o para perto com uma força que fez o ômega tropeçar levemente e derramar um pouco da água na própria camisa. Ele enterrou o rosto no pescoço de Suguru, inalando o cheiro dele, e Suguru sentiu o arrepio inevitável subir pela espinha, porque, por mais que ele estivesse exausto e irritado, o cheiro dos feromônios de Satoru sempre conseguia amolecer alguma coisa dentro dele.
— Não é boneco, nem gato — murmurou contra a pele de Suguru, com a voz abafada e um tom de quem estava tentando ser muito sério, mas falhando miseravelmente — Eu quero um bebê.
O silêncio que se seguiu na cozinha foi tão absoluto que dava para ouvir o barulho da geladeira trabalhando e o gotejar da torneira mal fechada. Suguru ficou parado por um instante, com a garrafa de água ainda suspensa no ar, processando as palavras que acabara de ouvir, e então ele soltou uma risada curta, seca, que não tinha nada de humor, mas sim de puro e absoluto desespero.
— Você quer o quê? — perguntou ele, afastando o alfa com a mão livre para poder olhar no rosto dele, verificando se ele estava com febre ou se tinha batido a cabeça em algum lugar — Satoru, você esqueceu de tirar o lixo hoje, deixou o controle remoto na geladeira e eu aposto trezentos e seis ienes que você não faz mínima ideia de onde está a sua carteira de motorista. E você quer um bebê?
Satoru fez um bico enorme, cruzando os braços sobre o peito e projetando o queixo para frente, uma expressão que ele sabia perfeitamente que fazia o moreno querer rir e estrangulá-lo ao mesmo tempo. O alfa era um gigante de quase dois metros, com uma presença imponente e uma confiança que beirava a arrogância, mas na frente do seu ômega ele se transformava em uma criança manhosa que precisava de atenção constante.
— Eu sou um ótimo alfa! — protestou Satoru, gesticulando com as mãos de forma exagerada — Eu sou forte, eu sou bonito, eu tenho um emprego estável e eu te amo mais do que qualquer coisa nesse mundo. A gente tem um apartamento, tem comida na mesa, mais ou menos, e eu tô disposto a mudar, amor. Eu juro que eu tiro o lixo, eu juro que eu não deixo mais o controle na geladeira, eu até prometo tentar não queimar a torrada de novo.
Suguru ergueu uma sobrancelha, claramente não convencido, e colocou a garrafa de água na bancada para cruzar os braços, espelhando a pose do marido, embora com muito mais cansaço e muito menos dramaticidade.
— Toru, você tentou fazer um miojo semana passada e quase incendiou o microondas porque esqueceu de colocar água no pote — lembrou ele, com a paciência de um santo — Você acha, de verdade, que eu vou colocar uma criança nesse caos? A gente mal consegue dar conta de nós mesmos, imagina de um ser humano que vai depender da gente para absolutamente tudo. Eu não quero criar uma criança que vai aprender a andar tropeçando nas suas meias sujas.
Satoru deu um passo à frente novamente, pegando as mãos de Suguru entre as suas, e seus olhos azuis, que brilhavam com uma intensidade quase infantil, ficaram sérios por um breve momento, mostrando que, por baixo de toda aquela palhaçada, havia uma sinceridade que fazia o coração de Suguru apertar.
— Amor, eu sei que eu sou um desastre — admitiu o alfa, apertando os dedos do ômega com carinho — Eu sei que a nossa vida é uma bagunça, que eu esqueço as coisas e que você trabalha demais. Mas eu olho para você e eu penso que a gente seria capaz de fazer algo incrível juntos, entende? Eu quero ver uma criança com o seu cabelo e o seu sorriso, correndo por esse apartamento, mesmo que a gente tenha que trocar o controle remoto de lugar.
O moreno suspirou, sentindo uma pontada de algo que ele não queria admitir, e desviou o olhar para a pilha de louças na pia, porque olhar diretamente para aquele rosto suplicante do Satoru era uma batalha perdida. Ele estava exausto, seus ombros doíam e a ideia de ter um filhote era tão assustadora quanto a ideia de deixar Satoru sozinho na cozinha, mas o problema era que Satoru, com toda a sua irresponsabilidade, tinha um dom de fazer com que as coisas mais absurdas parecessem possíveis.
— Toru, eu não tô dizendo que nunca vamos ter um filhote — disse Suguru, finalmente, puxando as mãos de volta e esfregando os olhos com força — Eu tô dizendo que não vai ser agora. A gente precisa de uma casa minimamente organizada, de uma rotina que não me faça querer dormir por três dias seguidos, e de um alfa que saiba a diferença entre um pano de prato e uma toalha de banho. Quando você conseguir passar uma semana inteira sem fazer nenhuma besteira, a gente conversa.
Satoru abriu um sorriso enorme, como se tivesse acabado de ganhar na loteria, e deu um beijo estalado na bochecha de Suguru antes de sair correndo em direção à sala, gritando algo sobre como ele ia provar que podia ser o melhor pai do mundo, e Suguru ficou parado na cozinha, olhando para o rastro de caos que o marido deixava por onde passava, com a leve suspeita de que ele acabaria se arrependendo profundamente daquela promessa.
Ele olhou para a geladeira, lembrando do controle remoto lá dentro, e pensou que, se Satoru realmente conseguisse mudar, talvez, só talvez, a ideia de um bebê não fosse tão assustadora assim, desde que eles conseguissem sobreviver ao caos que viria antes.