Pular para o conteúdo

A Teoria do Caos Aplicada à Paternidade (SatoSugu)

O Princípio da Incerteza Doméstica.

A Teoria do Caos Aplicada à Paternidade (SatoSugu)

O Princípio da Incerteza Doméstica.

Capítulo 2 · 19 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Naquela manhã, o despertador não tocou. Não houve o som estridente e odiado do alarme atravessando o quarto às seis e trinta da manhã, nem o momento habitual em que Suguru esticava a mão para silenciá-lo antes que acordasse Satoru, nem o breve instante de paz em que ele ficava deitado no escuro, reunindo forças para enfrentar mais um dia. Foi o cheiro que o arrancou do sono, não um cheiro sutil ou ambíguo, mas uma presença física, densa, que parecia ter invadido o quarto enquanto ele dormia e agora se acomodava confortavelmente em seus pulmões como um hóspede indesejado que se recusa a ir embora. Suguru emergiu da inconsciência de forma gradual e relutante, como alguém sendo arrastado para a superfície de um poço profundo por uma corda áspera, e cada camada de sono que se desfazia trazia consigo uma consciência maior daquele odor ácido e oleoso que ardia levemente em suas narinas e deixava um gosto amargo no fundo da garganta, como se ele tivesse engolido fumaça enquanto dormia.

Ele abriu os olhos com dificuldade, as pálpebras pesadas como se estivessem coladas, e por um longo momento ficou parado no escuro do quarto, piscando para o teto enquanto sua mente confusa tentava processar o que estava acontecendo. O quarto estava silencioso demais, e havia uma qualidade estranha na luz cinzenta que filtrava pelas cortinas fechadas — uma luz suja e turva, como se o próprio amanhecer tivesse sido contaminado por algo. Suguru virou a cabeça no travesseiro, e foi então que percebeu: o lado esquerdo da cama estava vazio. Não apenas vazio, mas frio, os lençóis sem o menor vestígio de calor, o que significava que Satoru Gojo havia se levantado há tempo suficiente para que qualquer resquício de sua presença corporal tivesse se dissipado completamente. Suguru passou a mão pela superfície do lençol, confirmando o que seus instintos já sabiam, e sentiu uma pontada de algo que não era exatamente preocupação, mas sim uma forma muito específica de apreensão que ele havia aprendido a associar àquelas raras ocasiões em que Satoru Gojo decidia tomar iniciativa em algo doméstico.

Ele resmungou algo ininteligível, esfregando as mãos no rosto para tentar afastar a névoa do sono que ainda embotava seus sentidos, e forçou-se a sentar na cama. O movimento fez seu corpo protestar, os ombros rígidos da semana inteira de trabalho, as costas doloridas de dormir em posições que seu fisioterapeuta certamente desaprovaria, a leve dor de cabeça latejando atrás dos olhos que parecia ser um companheiro permanente nos últimos tempos. Ele olhou para o despertador na mesa de cabeceira e sentiu uma onda de confusão: seis e quarenta e cinco, mais cedo do que ele normalmente acordava, o que significava que Satoru — Satoru, que precisava de três alarmes, um copo de água na cara e ameaças de divórcio para sair da cama antes das nove em um dia de folga — havia acordado antes dele. Isso, por si só, já era motivo suficiente para Suguru considerar seriamente a possibilidade de estar vivendo em uma realidade alternativa.

A escada rangeu sob seus pés descalços enquanto ele descia, cada degrau trazendo o cheiro mais forte, concreto e alarmante, e junto com ele vinha um som que o ômega não conseguia identificar completamente, algo entre um chiado agudo e um estalo irregular, como se alguém estivesse tentando fritar água em uma panela quente, o que, considerando o histórico culinário de Satoru, não era uma possibilidade completamente descartada. A camiseta transformada em pijama pendia torta em seu ombro, o tecido fino e desbotado que ele usava há anos e se recusava a jogar fora porque era confortável demais para abandonar, e seus cabelos negros estavam presos em um coque desfeito que deixava mechas soltas caindo na frente de seus olhos e colando em sua testa com o suor leve do sono. Ele não havia calçado nada, os pés descalços encontrando o chão frio do corredor, e essa sensação de despreparo físico, sem sapatos e sem a mínima ideia do que o esperava, só aumentava a sensação de vulnerabilidade que ele sentia enquanto se aproximava da origem de todo aquele caos.

O cenário que se revelou diante dele quando finalmente chegou à porta da cozinha era algo que Suguru sabia que jamais conseguiria esquecer, por mais que tentasse. Era como se alguém tivesse pegado o conceito abstrato de "caos doméstico" e o tivesse materializado em escala industrial, cada centímetro da cozinha contando uma história diferente de desastre e má decisão. Farinha cobria todas as superfícies disponíveis, a bancada de mármore que Suguru havia escolhido com tanto cuidado quando se mudaram, o fogão, o chão de porcelanato, e de alguma forma inexplicável até a parede atrás da pia, onde uma camada branca e fina se acumulava em padrões que lembravam ondas do mar ou talvez o resultado de uma explosão de neve artificial. Cascas de ovo formavam pequenas ilhas no chão, algumas inteiras, outras esmagadas em fragmentos que pareciam ter sido pisoteados, e havia uma poça de leite, pelo menos ele esperava que fosse leite, se espalhando lentamente perto da geladeira, a borda já começando a secar em um anel amarelado que Suguru sabia que seria um pesadelo para limpar depois. Uma colher de pau estava enfiada verticalmente dentro do pote de açúcar aberto, com o cabo apontando para o teto como uma bandeira de rendição, e ao lado dele, uma tigela de vidro continha o que parecia ser uma mistura de massa crua e algo que Suguru preferia não identificar.

E no centro de tudo isso, como o maestro de uma orquestra de destruição que havia ensaiado cada movimento errado, estava Satoru Gojo. O alfa usava uma camisa social azul-clara que Suguru reconheceu imediatamente como sendo uma das boas, uma daquelas que ele reservava para reuniões com clientes importantes, que exigiam um visual impecável e uma postura profissional que Satoru conseguia manter quando realmente se esforçava. A camisa agora estava decorada com uma mancha escura de manteiga no punho esquerdo, uma faixa marrom de algo que parecia ser chocolate derretido na barra, e uma fina camada de farinha nos ombros que fazia parecer que ele havia passado por uma nevasca seletiva que decidiu afetar apenas ele. Os óculos escuros que ele usava mesmo dentro de casa por razões que Suguru nunca havia compreendido completamente estavam pendurados tortos no colarinho, uma das lentes arranhada de forma que Suguru não se lembrava de ter visto antes, e havia um pedaço de massa crua grudado em uma mecha rebelde do cabelo branco que ele claramente não havia notado, a gosma pálida contrastando com a brancura do cabelo de uma forma que seria cômica se não fosse tão trágica. Na mão direita, Satoru segurava uma frigideira da qual escapava uma fumaça preta e espessa que subia em espiral em direção ao teto, e na esquerda, uma espátula que ele agitava no ar como se fosse uma varinha mágica, como se acreditasse genuinamente que aquele gesto pudesse de alguma forma resolver a situação.

— Bom dia, meu amor! — exclamou Satoru, girando nos calcanhares com uma energia que parecia completamente desconectada da realidade ao seu redor. Seu sorriso era largo, brilhante, e absolutamente desprovido de qualquer noção do desastre que ele havia criado, como se a cozinha não estivesse coberta de farinha e fumaça e o alfa não tivesse uma sobrancelha ligeiramente chamuscada que ele parecia não ter notado — Eu acordei cedo, tomei banho, me arrumei, e decidi que ia fazer o café da manhã para você!

Suguru ficou parado no batente da porta, os braços caídos ao redor do corpo, os olhos percorrendo lentamente cada detalhe da cozinha como se estivesse catalogando evidências de um crime que ele seria forçado a investigar. Ele abriu a boca, fechou, abriu de novo, nada saiu. Ele piscou, uma vez, duas vezes, como se esperasse que a cena diante dele fosse se revelar um truque de luz ou uma alucinação causada pela falta de café, mas a cozinha permaneceu exatamente como estava: um campo de batalha culinário onde a única vítima era a sanidade de Suguru.

— Porque você merece — continuou o alfa, aparentemente alheio ao fato de que seu marido estava à beira de um colapso nervoso, ou talvez simplesmente escolhendo ignorar os sinais que eram bastante óbvios para qualquer pessoa que não fosse Satoru Gojo. Ele deu um passo à frente, a espátula ainda na mão, e Suguru notou que havia algo diferente em seus olhos naquela manhã — uma determinação quase febril, uma intensidade que ele conhecia bem demais e que geralmente precedia alguma declaração absurda — E também porque eu decidi que hoje é o primeiro dia do resto da minha vida como um alfa digno de ser pai. Eu vou te mostrar, Suguru. Eu vou te mostrar que consigo cuidar de uma casa, de um bebê, de tudo. Começando com o café da manhã mais importante da história do nosso relacionamento. Eu tô pronto para a paternidade. Eu sinto isso aqui dentro — Ele bateu no peito com a mão fechada, e uma nuvem de farinha se desprendeu da camisa, pairando no ar por um momento antes de assentar lentamente sobre a poça de leite no chão.

Suguru fechou os olhos, contou até dez, depois até vinte, só por garantia. Quando os abriu novamente, Satoru ainda estava lá, sorrindo, coberto de farinha, com uma algo incomestível queimado na frigideira e uma confiança inabalável de que aquele desastre culinário era, de alguma forma, uma prova de sua competência como futuro pai.

— Toru — disse ele, finalmente, com a voz rouca de sono e algo que poderia ser desespero contido, cada palavra saindo de sua boca com o peso de uma paciência que ele estava começando a suspeitar ser infinita, ou talvez apenas estúpida — O que exatamente você está fazendo nessa frigideira?

Satoru olhou para a frigideira como se só agora estivesse percebendo que ela existia, como se a fumaça preta que subia dela fosse um detalhe que ele havia esquecido completamente de notar. Ele a virou de cabeça para baixo sobre um prato que já estava na bancada, um prato que Suguru reconheceu como sendo parte do conjunto que eles ganharam de casamento, aquele com a borda dourada que ele sempre dizia ser bonito demais para o uso diário, e o que caiu, ou melhor, o que se arrastou para fora da frigideira, não podia ser chamado de café da manhã em nenhum universo conhecido. Era preto nas bordas, queimado até virar carvão, completamente cru no centro, e a massa tinha uma consistência que Suguru só poderia descrever como "pegajosa de forma ameaçadora". Parecia algo que um biólogo marinho encontraria nas profundezas do oceano, algo que teria seu próprio ecossistema e talvez até uma forma primitiva de consciência, não algo que se serviria no café da manhã para o marido que você supostamente ama.

— É uma panqueca de chocolate com morango! — anunciou Satoru, com um entusiasmo que desafiava toda lógica e toda decência culinária — Sua favorita! Eu segui a receita do vídeo, mas acho que o fogo estava alto demais, ou a massa estava líquida demais, ou o universo simplesmente conspirou contra mim. Mas o importante é que eu tentei, amor. E isso conta pontos, né? Um pai que tenta é um pai que se esforça, e um pai que se esforça é um pai que vai ser amado pelos filhos. É psicologia infantil básica.

— Toru, isso não é psicologia infantil, isso é uma panqueca que viola os direitos humanos — Suguru pegou um garfo da pilha de louças sujas, examinou-o brevemente e decidiu que estava "limpo o suficiente", e cortou um pedaço daquela coisa. A massa se esticou como uma gosma pegajosa, resistindo ao corte como se tivesse vontade própria, e ele levou o pedaço à boca com uma coragem que só um homem muito cansado, ou muito apaixonado, ou muito estúpido, poderia ter. Mastigou devagar, engoliu com esforço, mantendo uma expressão neutra que exigiu um autocontrole sobre-humano — Está... interessante.

— Interessante é bom! — exclamou Satoru, e Suguru podia jurar que havia lágrimas de alegria nos olhos do alfa — Interessante é melhor que horrível. Eu tô no caminho certo. E quando eu dominar a panqueca, eu vou aprender a fazer outras coisas. Shogayaki, yakimeshi, gyudon... eu vou ser um pai que cozinha para os filhos, um pai que prepara lancheira. Um pai que corta as frutas em formato de estrelinha porque criança gosta de comer coisas bonitas, eu li isso em algum lugar. Você sabia que criança come melhor quando a comida é divertida? Eu vou fazer carinhas sorridentes com ketchup no prato. Eu vou...

— Toru — A voz de Suguru cortou o monólogo do alfa como uma lâmina — você está me dizendo que quer ser pai enquanto me serve uma panqueca que parece ter sido resgatada de um sítio arqueológico. Você percebe a ironia disso?

Satoru olhou para o prato, depois para o ômega, depois de volta para o prato, como se estivesse processando aquela informação pela primeira vez. Ele abriu a boca para responder, fechou, e então deu de ombros com uma naturalidade que beirava o absurdo.

— A primeira tentativa nunca é perfeita. — disse ele, como se aquilo fosse uma filosofia de vida válida — Ninguém acerta na primeira vez. Você lembra da sua primeira vez? Não foi perfeita também, foi? — Ele pausou, e um sorriso malicioso se formou em seus lábios — Espera, não responde. Eu não quero saber da sua primeira vez antes de mim.

Suguru arregalou os olhos, sentindo o calor subir ao rosto de forma completamente inapropriada para uma discussão sobre panquecas queimadas.

— Satoru, esse é o tipo de comentário que não tem nada a ver com o que a gente tá falando.

— Eu sei, mas te fez corar — Satoru deu um passo à frente, a espátula ainda na mão, e Suguru notou que a faca de cortar carne estava dentro do liquidificador, o cabo se projetando para fora como uma antena — E se eu te faço corar, significa que eu ainda tenho chance. É lógica de alfa casado.

— Lógica de alfa casado não é uma coisa real.

— É real se eu acreditar o suficiente — Satoru apontou a espátula para Suguru como se fosse um microfone de entrevista — Agora me responde uma coisa, e responde com sinceridade: você prefere nomes de bebê tradicionais ou modernos? Porque eu tava pensando, se for menina, algo como...

— Satoru — A voz de Suguru saiu mais alta do que ele pretendia, e ele apontou para o liquidificador — você tentou liquidificar uma faca. Você percebe isso? Você pegou uma faca de cortar carne, colocou dentro do liquidificador, e provavelmente apertou o botão. Eu não tô inventando isso, eu tô vendo a prova do crime agora mesmo.

Satoru olhou para o liquidificador, e pela primeira vez desde que Suguru havia descido, uma expressão de dúvida genuína cruzou seu rosto.

— Isso... não foi intencional — admitiu ele, coçando a nuca — Eu estava distraído pensando em nomes. Você prefere algo tipo Kaito ou algo tipo... espera, eu já perguntei isso. Você ainda não respondeu, por sinal.

— Porque eu não vou responder. Nós não estamos escolhendo nomes de bebê — Suguru apontou para a cozinha ao redor, o gesto abrangendo a farinha na bancada, a poça de leite no chão, as cascas de ovo espalhadas e o fio de fumaça que ainda subia da frigideira — Por que está tudo um caos?

Satoru virou a cabeça para olhar, os olhos percorrendo a cozinha como se estivesse vendo pela primeira vez. A parede atrás da pia estava coberta de farinha, em um padrão que lembrava uma explosão de neve. Ele coçou a nuca, deixando mais farinha no cabelo.

— Ah, isso — disse ele, com um aceno dismissivo. — O saco de farinha caiu. Mas não se preocupe, eu limpo depois!

— Você vai limpar depois — repetiu Suguru, sem inflexão na voz.

— Depois do café da manhã — confirmou Satoru, assentindo vigorosamente — Porque eu também fiz suco de laranja! Natural! Com as laranjas de verdade! Um pai que faz suco natural para os filhos é um pai saudável, né? Eu li num artigo que criança que consome vitamina C tem melhor desempenho escolar. Então eu já tô investindo na educação do nosso filhote.

Suguru esfregou as têmporas, sentindo uma dor de cabeça que ele sabia que não era da falta de café, mas sim da conversa.

— Satoru, você acabou de dizer "nosso filhote". Nós não temos um bebê. E, sinceramente, a ideia de ter um bebê neste apartamento enquanto você ainda está na fase de tentar liquidificar facas me dá arrepios.

Satoru piscou, o sorriso vacilando por um instante, e Suguru viu algo passar por aqueles olhos azuis, uma sombra de mágoa e insegurança, que fez seu coração apertar mesmo quando ele sabia que estava certo.

— Mas eu tô tentando — disse o alfa, com uma voz menor agora, quase infantil — Eu sei que eu sou um desastre, Suguru. Eu sei que eu esqueço as coisas, que eu deixo tudo fora do lugar, que eu quase incendeio a cozinha quando tento fazer qualquer coisa. Mas eu quero ser melhor. Eu quero ser o tipo de alfa que você olha e pensa "esse homem pode ser pai dos meus filhos". Eu quero... eu quero um bebê com você, amor. Eu quero ver uma criança com o seu cabelo e o seu sorriso correndo por esse apartamento. Quero acordar de manhã e ter alguém para quem fazer panquecas. E eu sei que eu não sou perfeito, mas eu tô disposto a aprender. Eu tô disposto a mudar. Só... só me dá uma chance de provar.

Suguru suspirou, sentindo uma pontada de algo que ele não queria admitir, algo que se parecia com culpa e ternura, com a consciência de que por trás de toda aquela palhaçada havia um homem que genuinamente queria ser melhor, que se importava, e que amava Suguru de uma forma que fazia todas as frustrações valerem a pena, ou quase. Ele afastou as mãos do rosto de Satoru lentamente, os polegares traçando um último carinho nas maçãs do rosto do alfa antes de se afastarem completamente.

— Toru, eu não tô dizendo que você nunca vai ser um bom pai — disse ele, com a voz mais suave agora, escolhendo cada palavra com cuidado — Eu tô dizendo que você precisa me provar isso. Uma panqueca queimada não é prova de nada, a não ser que você não sabe fritar uma panqueca. Se você quer um bebê, você precisa me mostrar que consegue cuidar de si mesmo primeiro. Que consegue manter uma casa minimamente funcional, que consegue não deixar facas dentro de liquidificadores. Porque um bebê não vai esperar você aprender a ser responsável, um bebê vai chorar às três da manhã, vai precisar de comida, de fralda, de atenção constante, e eu não vou estar aqui o tempo todo para consertar os seus erros. Eu trabalho demais, amor. Eu tô exausto. Eu não posso ser o único adulto funcional nessa relação. E, sinceramente? A ideia de você segurando um recém-nascido com essas mesmas mãos que tentaram liquidificar uma faca me deixa com um medo profundo.

Satoru olhou para as próprias mãos, como se estivesse vendo-as pela primeira vez, e Suguru podia jurar que havia algo de genuinamente magoado naquele gesto.

— Eu não tentaria liquidificar um bebê — murmurou o alfa, e a voz saiu tão pequena que Suguru quase se sentiu culpado.

— Eu sei que você não tentaria, Toru. Mas o ponto é que você não pensa antes de agir. Você não mede consequências. Você age primeiro e só depois, se lembrar, pensa. E geralmente não lembra. Um bebê não é um experimento, amor. Um bebê é uma vida, e eu preciso saber que você entende a diferença entre tentar fazer uma panqueca e tentar ser pai.

Satoru assentiu, e havia algo de solene naquele gesto, algo que fez Suguru acreditar, mesmo contra seu melhor julgamento, que talvez o alfa realmente estivesse ouvindo.

— Me dá uma chance — disse Satoru, com uma voz firme que Suguru raramente ouvia — Não uma semana, não um mês, não um prazo estúpido que a gente vai ficar contando os dias. Só... me deixa tentar. De verdade. Eu vou limpar essa cozinha agora, vou tirar o lixo, vou lavar a louça, e amanhã eu vou tentar de novo, e no dia seguinte também. E se eu falhar, você me avisa. Se eu deixar algo fora do lugar, você me avisa. Se eu fizer alguma besteira, me avisa. Mas não desiste de mim antes de eu ter a chance de mostrar que eu consigo, tá?

Suguru olhou para o marido, para a farinha no cabelo branco, para a mancha de manteiga na camisa social, para a massa crua que ainda estava grudada na frigideira, e sentiu algo se mexer em seu peito. Algo que não era exatamente esperança, mas que se parecia com a disposição de dar uma chance. Uma chance pequena, minúscula, quase invisível, mas uma chance.

— Tá — disse Suguru, finalmente — Mas se eu encontrar farinha em algum lugar que não seja a comida, eu vou te usar como pano de chão.

Satoru abriu um sorriso tão radiante que quase ofuscou a fumaça que ainda pairava no ar.

— Justo — disse ele, e então avançou para Suguru, envolvendo-o em um abraço apertado que cobriu o ômega de farinha e deixou uma mancha de massa crua em seu pijama. Suguru o deixou fazer isso, permitindo-se por um momento o luxo de fechar os olhos e simplesmente sentir.

— Toru — murmurou ele contra o ombro do marido.

— Hm?

— A panqueca ainda está queimando na frigideira.

Satoru girou nos calcanhares com um grito de alarme, quase tropeçando no próprio pé ao correr de volta para o fogão, e Suguru ficou parado no meio da cozinha destruída, observando o marido tentar salvar o que restava do café da manhã. A fumaça subia em espirais cada vez mais densas, Satoru agitava a espátula como um maestro enlouquecido, e em algum momento ele derrubou o pote de açúcar no chão, o que arrancou dele um palavrão que Suguru fingiu não ouvir.

Ele suspirou, pegou um pano de prato que estava milagrosamente limpo, e começou a limpar a bancada. Não porque ele achasse que Satoru merecia ajuda, mas porque ele precisava de café, e o caminho até a cafeteira estava bloqueado por uma parede de farinha e boas intenções.

Enquanto esfregava o mármore, Suguru pensou que talvez, só talvez, aquela fosse a mais longa de todas as semanas que estavam por vir. Mas, olhando de soslaio para Satoru, que agora tentava apagar um início de incêndio na frigideira com o próprio pano de prato, ele pensou que talvez valesse a pena. Talvez valesse a pena dar aquele voto de confiança, mesmo que tudo em sua experiência dissesse o contrário. Só um pouco. Mas, por enquanto, isso era suficiente.

Você chegou ao último capítulo

Por enquanto é só. Os próximos capítulos aparecem na página da obra assim que forem publicados.

Para ler a seguir

Ver tudo

Comentários

Entre para comentar neste capítulo.
Ninguém comentou ainda
Seja a primeira pessoa a dizer o que achou.