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Antes do Primeiro Amanhecer

Um quarto para dois

Antes do Primeiro Amanhecer

Um quarto para dois

Capítulo 2 · 12 min de leituraClassificação +13

Ren descobriu, no fim daquele primeiro dia, que a academia era muito maior do que parecia. Não que tivesse prestado muita atenção nisso durante a manhã, na verdade, desde que entrara naquela sala, havia uma coisa que tinha roubado sua atenção muito mais do que qualquer corredor, professor ou explicação sobre a academia, o garoto sentado perto da janela. Ren ainda não sabia seu nome e, na verdade, era até engraçado pensar nisso, ele tinha passado praticamente o dia inteiro ao lado daquele garoto, tinham assistido às mesmas aulas, ouvido os mesmos professores, feito as mesmas atividades, em alguns momentos, chegaram até a conversar, e mesmo assim, Ren não fazia ideia de como ele se chamava. Era culpa dele e ele sabia muito bem.

Ren nunca fora bom em guardar nomes, podia ouvir um professor apresentar dez alunos e, poucos minutos depois, já ter esquecido metade deles. Às vezes, precisava ouvir o nome de alguém várias vezes até conseguir associá-lo ao rosto, ele só realmente guardava o nome de uma pessoa quando aquela pessoa conseguia ocupar algum espaço importante em sua cabeça, e até aquele momento, ninguém na academia tinha conseguido isso, ou talvez... Talvez alguém estivesse começando a conseguir, ele não entendia exatamente por quê, desde que entrara naquela sala pela primeira vez, seu olhar havia sido atraído para aquele garoto de uma maneira quase involuntária, como imãs que se atraem, havia vários lugares vazios, mesmo assim, seus pés simplesmente o levaram até a cadeira ao lado dele como se tivesse escolhido antes mesmo de pensar e então havia aquela imagem, o garoto sentado perto da janela, com a luz do sol tocando seu rosto e Ren tinha achado aquilo bonito, muito bonito. Havia algo estranho naquela cena, o garoto parecia tão reservado, tão distante de todo mundo, mas, ao mesmo tempo, parecia completamente à vontade sob a luz do sol, Ren sentiu algo quente mais com uma pontinha de frio dentro do seu coração e tinha ficado curioso imediatamente, depois descobrira que ele possuía poderes relacionados às sombras, durante uma das aulas, vira uma pequena manifestação surgir perto dele, uma sombra que se moveu de maneira diferente da sombra normal de qualquer pessoa, Ren não sabia o que aquilo significava, não sabia exatamente o que aquelas sombras eram capazes de fazer, não sabia até onde chegava o poder daquele garoto, mas queria descobrir e queria muito. Durante o intervalo, porém, não tivera oportunidade de descobrir nada, assim que saiu da sala, vários alunos se aproximaram, o aluno novo, o garoto cujos poderes haviam acabado de despertar, todo mundo queria saber alguma coisa, de onde ele vinha, como tinha despertado, qual era seu poder, se já conhecia alguém, Ren respondeu às perguntas, riu, conversou e acabou passando o intervalo inteiro cercado de pessoas e foi divertido, ele gostava daquele tipo de atenção, mas em algum momento seus olhos procuraram automaticamente pela figura que estava sempre perto da janela, não encontrou, parecia realmente que ele preferiria ficar sozinho, Ren não sabia disso com certeza, só sabia que, quando olhou para os corredores mais vazios, viu o garoto algumas vezes distante dos outros, seguindo seu próprio caminho. Durante o treinamento, também não tiveram muito contato, os professores estavam concentrados em Ren, como seu poder havia despertado recentemente, ele precisou demonstrar suas habilidades diversas vezes, tentaram descobrir seus limites, testaram sua capacidade de controle, fizeram perguntas, deram exercícios, Ren passou praticamente o treinamento inteiro mostrando aos professores o que conseguia fazer, e o outro garoto estava lá, Ren o viu algumas vezes, mas não chegaram a treinar juntos, mesmo assim, bastava avistá-lo para aquela mesma curiosidade retornar. Rem estava cansado, muito cansado, as ainda estava tentando entender o funcionamento daquela parte da academia, até que finalmente encontrou a secretaria, entrou e se aproximou do balcão.

_Com licença. Eu vim descobrir qual é o meu dormitório.

A responsável levantou os olhos.

_Você é Ren , certo?

_Sou eu.

Ela procurou seu nome entre alguns documentos, depois passou os olhos por outra folha e sua expressão mudou levemente.

_Houve um problema com a sua acomodação.

Ren franziu a testa.

_Problema?

_O dormitório para o qual você foi designado apresentou um problema técnico. Alguns quartos daquele bloco precisaram ser temporariamente interditados.

Ren olhou para a própria mochila.

_E o meu quarto está entre eles?

_ Infelizmente, sim.

_Então onde eu vou ficar?

A mulher pegou outra ficha.

_Nós conseguimos resolver a situação, há um quarto com uma cama disponível em outro bloco, mas você vai precisar dividir o dormitório com outro aluno.

Ren não pareceu se importar, na verdade, estava até aliviado.

_Tudo bem. Eu não me importo em dividir.

_Ótimo. Aqui está sua nova chave.

Ela colocou uma pequena chave sobre o balcão e Ren a pegou.

_Quarto 307.

Ele guardou a chave na mão.

_E quem é meu colega?

A mulher conferiu a ficha.

_Outro aluno da sua turma.

Ren ergueu as sobrancelhas.

_Da minha turma?

_Sim, vocês tiveram aula juntos hoje.

Ren pensou por alguns segundos, mas não conseguiu lembrar de ninguém em particular a não ser "ele" é claro.

_Acho que vai ser tranquilo, então.

A responsável sorriu.

_ É no terceiro andar, boa sorte e bem vindo.

Ren agradeceu e saiu, enquanto caminhava pelos corredores, ficou pensando naquilo, um colega da própria turma, talvez alguém que ele já tivesse visto durante o dia, talvez alguém com quem tivesse conversado, mas não fazia ideia de quem seria. Mas algo la no fundo, torcia para ser ele, mesmo que a probabilidade não estivesse a seu favor.

Subiu as escadas, um andar, depois outro, quando finalmente chegou ao terceiro, procurou o número do quarto.

307.

Parou, olhou para a chave em sua mão, depois para a porta, por algum motivo, sentiu uma pequena expectativa, não sabia quem estaria do outro lado, então bateu.

Esperou.

Nada.

Ren bateu novamente.

Dessa vez, ouviu passos lentos aproximando-se.

A maçaneta se moveu e a porta se abriu.

E Ren parou.

Por um instante, seu cérebro pareceu simplesmente se recusar a processar o que estava vendo.

Era ele, o garoto da janela.

O garoto que tinha chamado sua atenção desde o primeiro minuto daquela manhã, o garoto das sombras, com quem Ren conversou durante a aula e quem Ren havia procurado com os olhos durante o intervalo sem perceber e ele estava ali, na porta.

Os dois ficaram em silêncio, Kael também parecia surpreso, seus olhos foram da mochila de Ren para a chave em sua mão, depois voltaram para o rosto dele, demorando-se ali um segundo a mais do que seria necessário.

Ren foi o primeiro a reagir, um sorriso apareceu lentamente em seu rosto.

_Então é você.

O garoto franziu levemente a testa.

_Sim, e você está aqui também... Na minha porta.

Ren olhou para dentro do quarto e depois novamente para ele.

Kael não se afastou de imediato. Ficou com a mão na maçaneta, o corpo ocupando parte da passagem, como se ainda estivesse decidindo se devia deixá-lo entrar ou apenas prolongar aquele instante.

_Disseram que eu teria que dividir o quarto com outro aluno. Eu não fazia ideia de quem seria.

_Eu também não sabia que seria você.

Ren soltou uma pequena risada.

_Isso está ficando cada vez mais engraçado.

Kael abriu um pouco mais a porta. Ren ao passar pela porta, teve uma sensação estranha, não era desconforto, muito pelo contrário, ele gostou, gostou mais do que deveria. Aquele era apenas o primeiro dia e eles mal se conheciam, ainda assim, saber que aquele garoto estaria ali todas as noites, no mesmo quarto, fez Ren sentir uma satisfação difícil de esconder e alivio por um motivo que ele não sabia nomear. Ren sentiu o ombro roçar de leve no de Kael. Foi um contato breve, quase acidental, mas Kael ficou imóvel por uma fração de segundo, e Ren percebeu. Nenhum dos dois comentou, mas sentiu o olhar de Kael sobre ele.

_Parece que vamos ser colegas de quarto.

Ele colocou a mochila sobre a cama que estavam suas malas e olhou ao redor.

Duas camas, duas escrivaninhas, dois armários, uma grande janela e o garoto da janela.

Ren voltou os olhos para ele que ainda estava próximo da porta aberta, a luz do corredor desenhava uma linha pálida em seu rosto, enquanto o interior do quarto permanecia mergulhado em sombras suaves. Por um instante, pareceu que ele pertencia aos dois lugares ao mesmo tempo. Então Ren percebeu uma coisa.

_Espera.

Kael olhou para ele.

_O que foi?

_ Qual seu nome?

Kael pareceu confuso.

_Meu nome?

_É.

Ren apontou discretamente para ele.

Kael ficou olhando para ele.

_Você passou o dia inteiro sentado ao meu lado e não sabia meu nome?

Ren deu uma risada sem graça.

_Não me julgue. Eu sou péssimo com nomes.

_Isso é bastante curioso.

_Eu sei. Mas não é porque eu não presto atenção nas pessoas.

Ren parou por um instante, olhou para Kael.

_É justamente o contrário. Às vezes eu presto atenção demais nas coisas que me interessam e esqueço todo o resto.

Kael permaneceu em silêncio.

Seus dedos apertaram de leve a maçaneta antes de soltá-la. O olhar dele não se desviou, mas algo em sua expressão se fechou e se abriu quase ao mesmo tempo, como uma sombra passando sobre água.

_Kael.

_Certo, Kael .

Ren gostou de pronunciar o nome de Kael e estendeu a mão.

_Eu sou Ren, embora você provavelmente já saiba.

Kael olhou para a mão dele por um instante antes de apertá-la.

_Eu sei.

O toque foi rápido, mas Ren sentiu algo estranho, uma pequena sensação percorreu sua mão, como calor encontrando o frio, durou apenas um instante, mas ele não soube explicar porque aquilo foi tão reconfortante, como se algo tivesse finalmente voltado ao seu devido lugar.

Kael também pareceu perceber alguma coisa, porque seus olhos baixaram brevemente para as mãos dos dois antes de se afastarem. A sombra junto aos pés dele se moveu, estreitando-se como se tivesse reagido ao contato, Ren fingiu que não percebeu.

_Então, finalmente nos apresentamos direito.

_Depois de passarmos o dia inteiro juntos.

_Tecnicamente, sim.

Ren se sentou na cama, Kael se afastou da porta e foi até sua própria escrivaninha, mas não se sentou, permaneceu de pé, apoiando uma das mãos na madeira, perto o bastante para que Ren notasse a tensão discreta em seus ombros.

_Embora eu ainda saiba muito pouco sobre você.

Kael ergueu os olhos.

_Você também não perguntou muita coisa.

_Estou perguntando agora.

_ Isso significa que você é curioso?

Ren apoiou as mãos atrás do corpo.

_Muito.

Kael olhou para ele e dessa vez, não desviou imediatamente, o silêncio entre os dois se estendeu por mais tempo do que a pergunta exigia. Ren percebeu que, se dissesse qualquer coisa, quebraria algo que ainda não sabia nomear.

_Percebi.

Ren sorriu.

_Então me conta alguma coisa sobre você Kael.

_O que exatamente você quer saber?

Ren pensou, havia tantas perguntas, queria saber por que Kael gostava tanto de ficar perto das janelas, queria saber por que parecia tão confortável sozinho, queria saber como funcionavam aquelas sombras, queria saber por que aquele olhar parecia tão distante às vezes e percebeu que queria saber praticamente tudo sobre ele. Mas decidiu começar pelo mais simples.

_Você está na academia desde quando?

-Desde os 8 anos.

_Uau bastante tempo, e seus poderes despertaram naquela época?

Kael assentiu.

_Sim. Foi por isso que entrei na academia.

Ren ficou interessado.

_Então você já deve controlar muito bem seus poderes.

Kael deu de ombros.

_Seria preocupante se eu ainda não conseguisse.

Ren riu.

_ Você realmente gosta de responder desse jeito, não é?

_Desse jeito como?

_Como se estivesse sempre tentando parecer mais indiferente do que realmente é.

Kael ficou quieto e Ren sorriu, talvez tivesse acertado.

Kael desviou o olhar para a janela, a luz do fim do dia já havia desaparecido quase por completo, e as sombras no chão se alongavam entre os dois, tocando a ponta da cama de Ren.

_E você? _Kael perguntou. _Seu poder despertou quando?

_Despertou recentemente. Mas hoje foi o primeiro dia em que tive que usar de verdade e mostrar tudo para os professores.

_Parece que eles ficaram bastante interessados.

_Acho que meu poder é um pouco diferente do que eles esperavam... Talvez mais forte também.

Ren ficou em silêncio pensativo.

_Você não vai me contar o que ele faz?

Ren sorriu.

_Você quer saber?

_Estou apenas perguntando.

_ Então talvez eu conte.

Kael o encarou por alguns segundos.

_Talvez?

_Quero dizer, nós vamos dividir o quarto agora. Acho que temos bastante tempo para descobrir essas coisas.

Kael desviou o olhar, mas não antes de Ren notar a curva quase imperceptível em sua boca.

Ren voltou a observá-lo e percebeu que estava sorrindo novamente, não sabia explicar o que havia naquele garoto, desde o primeiro instante, algo nele tinha prendido seu olhar, Ren lembrava perfeitamente de ter entrado na sala naquela manhã e de ter ido quase inconscientemente até aquele garoto, como se alguma coisa tivesse decidido por ele e agora, no fim do dia, a mesma sensação voltava, só que mais forte e Ren gostava de estar ali.

Gostava da ideia de que, a partir daquela noite, teria alguém como Kael por perto, queria conhecê-lo, queria descobrir mais sobre ele, queria entender aquelas sombras, queria saber por que alguém tão reservado conseguia despertar tanta curiosidade nele, queria descobrir por que Kael parecia sempre prestes a dizer alguma coisa e, no último instante, escolhia o silêncio.

E, principalmente, queria saber por que tinha sentido desde o primeiro momento, que havia alguma coisa diferente naquele garoto. Ren ainda não sabia o que era, mas não tinha pressa, pela primeira vez desde que chegara à academia, ele sentia que talvez tivesse encontrado alguém que realmente queria conhecer.

E, para Ren, aquilo já significava muito. Muito mais do que ele próprio conseguia compreender.

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Por enquanto é só. Os próximos capítulos aparecem na página da obra assim que forem publicados.

Comentários2

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K
K
Ketchuphá 4 horas

nem te conto 👀

K
K
Ketchupanteontem

fofo 🥰