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"Minha Tempestade"

One shot

"Minha Tempestade"

One shot

Capítulo 1 · 12 min de leitura

11 de março de 2014, 05:10am

As luzes vermelhas não facilitavam a visão, com aqueles corredores infinitos, girando e girando, no final dele havia uma figura de cabelos castanhos com olhos fundos, a largura dos seus fios pareciam mudar quanto mais o quarto se movia abaixo de seus pés, ela quase vomitou tentando se manter de pé enquanto tudo mudava ao seu redor.

“Max? Você tá aí?”

“Chloe…”

“Rachel? Não… Não pode ser…” Ela se repele, tentando se afastar, mas cada passo criava a sensação de que seus pés não lhe obedeciam mais.

Por quê? Não reconhece a sua melhor amiga, C?” O apelido ecoou pelas paredes cada vez mais estreitas, a criatura levantava os braços de forma convidativa, fazendo as luzes pararem de piscar em vermelho e preto, revelando uma forma fria e pálida semelhante a um corpo.

Ao corpo de Rachel Amber.

Ela acorda sem fôlego, o peito subindo e descendo com o ar que saia ríspido como se tivesse sido salva de um afogamento, colocando a mão trêmula na testa em que as pontas azuis de seu cabelo grudam com suor, seus dedos seguem um caminho desajeitado até seus lábios, procurando algo concreto que pudesse se agarrar. Os olhos vazios, quase brancos do corpo da Rachel pareciam queimar buracos em seu crânio, mesmo cinco meses já tendo se passado, esses pesadelos persistem.

Cinco meses.

Cinco meses desde que Arcadia Bay afundou em um mar de destroços e corpos, cinco meses desde que ela assistiu todas as pessoas que amava morrerem sem poder fazer nada, cinco meses desde que começou a viver em um tipo de realidade paralela, coisa que não parecia tão absurda de dizer agora. Seus pensamentos são brevemente interrompidos quando os cabelos castanhos deitados ao seu lado se mexem, Max, ainda dormindo, vira seu rosto pacífico em direção a Chloe, desfrutando de um sono muito mais agradável do que ambas conseguiram ter nos últimos tempos.

Ela passa seus dedos delicadamente pelo rosto pálido da sua companheira de viagem, tirando uma mecha de cabelo que caía em seus lábios, suas olheiras pareciam maiores desde que partiram de sua cidade natal e se instalaram em Portland, dormir não vinha sendo uma tarefa fácil quando tanto sangue inocente parecia manchar suas mãos permanentemente. Não falaram muito sobre tudo que deixaram para trás, mas sabia que Max havia parado de usar os próprios poderes, se os tivesse perdido também não se interessou em saber, além de não ter falado nada sobre voltar para Seattle e encontrar os pais, as poucas ligações que ela viu Max trocar com eles foi para avisar de sua sobrevivência após a tempestade.

Agora Chloe realizava vários sonhos ao mesmo tempo, deixou sua vida antiga para trás, morando com sua melhor amiga e desfrutando de tudo que a cidade grande tem a oferecer, sobrevivendo de empregos de meio período e da poupança que Max havia guardado para estudar em Blackwell, mas aquela realidade estava longe de ser o que ela esperava…

Rachel continuava sendo o fantasma que nasceu quando ela desapareceu em abril do ano passado, exceto que dessa vez, não haviam centenas de pessoas para dizer seu nome, todo o efeito que Rachel teve naquela cidade agora pendia nos ombros de Chloe como uma cruz impossível de carregar, parecia errado ser a única pessoa no mundo que conheceu Rachel Amber.

Olhando para seu lado esquerdo, o relógio eletrônico era a única coisa que provia luz para o pequeno quarto de motel, o pequeno feixe de luz vermelho indicando o horário de 05:12am, então não demoraria para o sol nascer. Chloe suspira, levantando o mais silenciosamente possível, pegando um pacote de cigarros em cima da cômoda antes de deixar Max sozinha, levando seu corpo em passos frustrados até a sacada em frente ao quarto delas.

A sacada não agraciava Chloe com qualquer visão bonita, pelo contrário, estava só no segundo andar de um motel barato observando o estacionamento com sua caminhonete e mais dois carros igualmente velhos, além disso, era final de inverno e a primavera estava apenas dando seus primeiros resquícios de nascimento, sua camiseta de banda e shorts de dormir não eram nem um pouco ideais para lidar com o clima e a falta de estrelas causada pela nuvens. O vento leve que corria conseguia refrescar seu corpo suado mas atrapalhou suas primeiras duas tentativas de acender seu cigarro, quando não conseguiu jogou o isqueiro de forma frustrada pelo outro lado do estacionamento, caindo em uma moita que ela não se lembraria de procurar depois.

— Ugh… Porra. — Disse rangendo os dentes, apoiando os cotovelos nas grades da sacada e atravessando o cabelo com os dedos, bagunçando ainda mais seus fios azuis, rosa e agora levemente loiros. Não estava pensando sobre sua aparência no momento, as únicas pessoas que a veriam era Max e alguns clientes insuportáveis quando fosse trabalhar no turno da noite no posto de gasolina.

Parecia surreal o quanto o rosto de Rachel estava marcado em suas retinas, a garota que morreu de forma trágica não abalava só seus sonhos mas também seu temperamento, suas escolhas, sua vida inteira.

Durante boa parte de sua adolescência Chloe havia acreditado que ela jamais faria falta se simplesmente desaparecesse, que sua morte poderia trazer uma tristeza momentânea mas traria paz para o coração de todos que tinham que lidar com ela… Mas dentre toda essa incerteza Max escolheu ela em meio a uma cidade inteira, como ela deveria se sentir sobre isso afinal de contas?

A frustração em seu peito lhe fez até esquecer que havia jogado seu isqueiro fora, tentando tragar de um cigarro não aceso, compilando em outro grunhido de agonia.

Arqueou as costas surpresa ao ouvir o som da porta atrás de si abrindo em um alto rangido, ao olhar para trás se deparou com Max, com suas mãos pequenas tocando a moldura da porta, naquele momento parecia perfeitamente aceitável reparar na sua namorada de uma forma que ela não tinha reparado em meses: Com seus cabelos que estavam bem maiores desde que elas se viram pela primeira vez, tocando seus ombros, seu rosto deslocado para o lado com um olhar de curiosidade lembrando Chloe das sardas que costuma beijar com gosto, e a camiseta larga do Mötley Crüe que Max roubou e agora pendia até o início de suas coxas desnudas.

— Um pouquinho cedo, não acha? — Max comenta, retirando Chloe de seus devaneios enquanto cruzava os braços à frente do seu corpo, por um momento Chloe tentou dar outra tragada infrutífera ao ver sua parceira daquele jeito.

Ela balançou a cabeça, aquela distração não tinha sido suficiente para que o efeito do pesadelo passasse, a fazendo olhar para o céu de novo enquanto se recostava nas grades da varanda. — Você diz isso como se dormir não fosse uma merda… — Ela responde cansada.

O sorriso da fotógrafa se esvai, revelando um rosto sonolento escondido por uma bravata de normalidade, mesmo que o que elas vivessem estava longe de ser normal. Max então se aproxima, se apoiando ao lado de Chloe e imitando sua pose, seus olhos azuis quase acinzentados fixam na paisagem antes de pousar nos cabelos azuis ao seu lado.

— Como eles são? Sabe, os pesadelos… — A pergunta descansa no ar sem resposta imediata, aquele era um assunto que elas haviam concordado silenciosamente de evitar fazia certo tempo, com esperança de que as memórias ruins só desaparecessem como poeira levada pelo vento.

Chloe fecha seus olhos e franze o cenho da mesma forma que faz quando está bêbada, tentando relaxar seu corpo de uma sensação ruim, mas ela suspira, infelizmente estava sóbria demais para ter essa conversa. — Eu vejo a Rachel. — Disse rapidamente, como se fossem palavras proibidas.

— Viva? — Ela pergunta como se já soubesse a resposta, aquilo fez o sangue da garota punk ferver.

— Morta, porra. — A agressividade de suas palavras fez Max virar o rosto com um sentimento de culpa, o rubor nas bochechas sardentas dela fez Chloe se sensibilizar, mas não o suficiente para se desculpar.

Eram nesses momentos em que ela sabia que Max não estava usando seus poderes, e se estava, usava raramente, deixando uma situação constrangedora como aquela passar, não se permitindo ser apenas aquilo que todos querem que ela seja, cometendo erros.

Outro suspiro escapou de seus lábios, — … Quase morta, vejo o corpo dela falar comigo, é bizarro.

— E quanto aos outros...?

— Eu penso neles, na minha mãe, naqueles skatistas babacas e até os idiotas do clube Vortex, eu só não sonho com eles, pfff… — Ela solta uma risada fraca, uma leve expressão de dor amolece seu peito. — Engraçado, não é? Eu deveria ter um luto maior por eles, afinal, a culpa deles terem morrido é minha.

— Chloe! — Max fala alto, diferente do seu habitual, em um tom ofendido enquanto arqueia suas costas para deixar de recostar nas grades.

— Tá bom, tá bom, não tá aqui quem falou… — Ela levanta as mãos pra cima em rendimento, respondendo com uma grosseria característica de sua frustração.

A fotógrafa balança a cabeça em um suspiro denso, o sono parecia que foi levado de seu corpo com uma simples frase — Se você precisa tanto culpar alguém… — Seu dedo mindinho roça na mão de Chloe como forma de afeto — … Não precisa ser você, sabe disso.

— E culpar a pessoa que salvou minha vida dezenas de vezes? Eu não sou tão ingrata assim. — Ela responde, um sorriso pequeno e auto depreciativo se estende em seu rosto. — Só preciso de um tempo, eu não poderia ter salvo uma cidade de um tornado mas acho que poderia ter salvo minha melhor amiga de um babaca nojento…

— Você não tinha como saber, mas você fez o que pode… Mesmo que por um momento, a Rachel teve justiça. — Ela diz, sua mão agora sobrepondo a de Chloe, que pouco sabia sobre como em uma linha do tempo diferente, Mark Jefferson apodrecia em uma cela e não acompanhava os inocentes soterrados por Arcadia Bay.

Um ar escapou pelo nariz de Chloe, e um sorriso calmo esperava em seus lábios, aquela conversa havia de chegar ao fim de qualquer forma, e aquele parecia o momento ideal para encerrá-la, com um sentimento de que existiram momentos de vitória até mesmo em uma tempestade. Max fez um som de surpresa quando de repente foi puxada pela cintura, a garota de cabelos azuis teve tempo de pendurar o cigarro frio nos próprios lábios e amassar seu corpo contra o dela, tirando uma risada genuína de ambas.

— Você consegue ser bem esquisita quando quer — Disse, colocando suas mãos na lateral dos ombros de Chloe.

— Aprendi com uma hipster que sai por aí tirando foto dos outros sem permissão, qual era o nome dela mesmo? — Ela respondeu, depositando beijos rápidos no pescoço de Max de forma que quase fazia ela cambalear com as cócegas que aquilo causava.

Algumas risadas espalhafatosas foi o suficiente para ela afastar a namorada grudenta de si. — Você quase me fez mijar nas calças, babaca! — disse e a empurrou levemente, ainda com a sensação dos lábios no pescoço. Nesse momento de mais calmaria Max pisca, se lembrando de algo importante.

— Vou pegar um isqueiro, você tá quase usando esse cigarro de chupeta. — Ela diz, segurando o rosto de Chloe com uma mão e levando um beijo delicado à sua boca antes de entrar de volta no apartamento.

— Eu posso largar a chupeta se você me amamentar. — O comentário sexual foi recebido com um revirar de olhos, Chloe ri alto, mas não se importa.

(...)

O sol começou a nascer, o chão de concreto começa a ser iluminado com o tom alaranjado do começo da manhã enquanto as árvores recebiam um novo tom de verde, era o tipo de cena que se Max não fotografasse iria reclamar que nunca veria um nascer do sol tão lindo quanto aquele, a garota de cabelos azuis solta um aviso.

— Max! Depois não reclama se perder o nascer do sol. — O tom não poderia ser tão alto para não acordar os vizinhos, mas ela não tinha como se importar menos com o que eles pensavam dela.

O som do ranger da porta incomoda seus ouvidos de novo, era sua parceira, mas dessa vez com algo em mãos. Os olhos de Chloe se arregalaram por um momento em surpresa, suas bochechas ficam rosadas enquanto ela balança a cabeça.

— Eu sabia que você ia esquecer que dia é hoje — Disse Max, segurando um muffin decorado e com uma vela acesa bem no meio, o doce era da loja favorita delas no centro e em algum momento da infância as duas elegeram Muffin como o melhor confeito de todos os tempos. Aquele pequeno gesto guardava memórias anteriores a qualquer trauma que elas poderiam ter.

— Eu esperava que você fosse esquecer, na verdade. — Ela pega o pequeno “bolo de aniversário” na mão, utilizando da vela para acender seu cigarro, as duas trocam sorrisos sem dentes.

— Feliz aniversário, parceira. — Seu sorriso fica maior, fazendo Chloe revirar os olhos e a puxar pela cintura com uma mão só, assoprando a vela para não ocorrer nenhum acidente.

— Eu sou só sua parceira? Que pena, meu desejo envolvia minha namorada. — Ela brinca, sua mão deslizando para dentro da camisa larga de Max de forma carinhosa. Uma risada fraca sai dos lábios da fotógrafa, que retira uma câmera instantânea escondida nas costas, surpreendendo Chloe com uma foto daquele momento eternizada.

— Não me conta seu desejo, se não ele não vai se tornar realidade. — Ela rebate, mudando sua posição nos braços de sua companheira para ficar de costas para ela, seus corpos colados e opostos ao nascer do sol enquanto ela revela a foto chacoalhando.

— É assim que você me vê? — Chloe pergunta, seus braços envolvem o torso de Max, descansando seu queixo no ombro da garota na sua frente.

— Parecendo um sonho? Sim, é como eu te vejo.

Chloe sorri, seu corpo se aquece com a admiração silenciosa que a fotógrafa retém por ela, conseguia pensar em poucos momentos de sua vida que teve tanto carinho e investimento colocados em si, aquela proximidade trazia memórias de uma paz que raramente conseguia ter na sua vida antiga, exceto quando…

Max cheirava a madeira e perfume barato, o exato cheiro de Rachel.

Chloe levantou seu queixo rapidamente, prestando atenção nos cabelos castanhos escuros e com pontas médias na sua frente.

— Acho que você deveria deixar o cabelo Crescer, Max.

Fim da história

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