A origem
Capítulo 1 · 10 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Uma vez, minha avó disse que todos estamos destinados a ver coisas incríveis, mas poucos estão destinados a ver coisas extraordinárias. Normalmente, ela me dizia isso antes de contar alguma história fantástica da sua vida. Pelo menos metade delas eu jurava que eram fantasias. Apesar de parecerem mentiras, eu gostava das histórias da vovó e de como ela, no final, sempre deixava um ar de "pode ser verdade... ou não". Mas, depois do que vivi naquela noite, sei que todas as suas histórias eram verdadeiras.
Meu nome é Allen, tenho 25 anos, moro na Califórnia e, antes de ir para a praia sozinho, às duas da madrugada, posso afirmar que tive a pior semana da minha vida: meu namoro acabou, meu gato faleceu, fui demitido, meus amigos de infância morreram em um acidente e a empresa da qual eu tinha 20.000 em ações agora valia metade. Minhas únicas companhias eram uma garrafa de conhaque e um cigarro. Imagino que não seja a combinação mais saudável para meu organismo, mas minha mente cansada precisava de um carinho, ainda que ofendesse meu fígado e meus pulmões.
Devo dizer que o álcool e a nicotina nunca foram vícios meus. Eles apenas entravam em cena quando pensamentos sombrios passavam pela minha cabeça, como estavam passando naquela madrugada. Entretanto, todo o estrago feito no meu coração e no meu espírito nesses malditos cinco dias parecia impossível de ser contido por essas substâncias, pelo menos nas quantidades que eu estava consumindo.
Entorpecer meus sentidos não mudaria a realidade de que eu estava terrivelmente cansado. Enfraquecido demais até para chorar ou sentir raiva, vazio igual à concha que estava ao lado do meu pé descalço. Não vou mentir: a mais tenebrosa ideia que se desenrolava na minha cachola envolvia acabar com todo o meu sofrimento com um tiro do revólver ilegal que eu guardava no meu armário. Seria limpo? Negativo, mas com certeza rápido, certeiro e com 100% de chance de sucesso.
Provavelmente eu acabaria com a minha vida após beber todo o conhaque. Ainda bem que algo aconteceu antes, ou melhor, alguém apareceu. Minha visão periférica flagrou uma mulher, e eu juro pela minha vida que essa beldade estava totalmente despida. Admito que a curiosidade não foi a única coisa que me induziu a encará-la, mas com certeza foi a mais importante. Vai, me diz: não é absurdamente bizarro uma pessoa estar pelada na praia às duas da manhã? Essa dúvida até me fez esquecer o conhaque e o cigarro por uns instantes.
Estava longe o bastante para passar despercebida por olhos desatentos, mas próxima o bastante para ser notada por um desgraçado sortudo como eu. Desde pequeno, eu conseguia enxergar bem no escuro, então foi fácil para mim confirmar que ela era linda: era alta, com belas curvas, tinha cabelos negros lisos tão longos que tocavam o chão e sua pele era de um cinza bem claro. Não pareceu que ela reparou na minha presença e, se reparou, acredito que não me viu como um incômodo.
Acompanhei com os olhos, hipnotizado, aquela linda mulher caminhando sem pressa até a água, o corpo gradualmente sumindo no mar, até que não pude mais a ver. Saí do transe e corri, meio cambaleante pelo efeito do álcool, até os meus pés tocarem a água. Gritei por ela, desesperado. Comecei a me sentir culpado. Caramba, é óbvio que aquilo não estava certo desde o início. Eu deveria tê-la impedido em vez de ficar encarando-a igual um idiota. Eu continuei gritando até me dar conta de que era muito mais burro do que eu pensava. "Chama ajuda, seu estúpido", pensei.
Agora, se a vovó estava certa, eu sou um dos poucos destinados a presenciar o extraordinário, pois foi exatamente o que vi. Antes de eu me virar para pedir ajuda, uma luz azul sob o mar veio rapidamente até mim, me fazendo cair sentado na areia. Quando metade do seu corpo emergiu, todos os meus músculos travaram na hora. Ela era ainda mais bonita de perto, com olhos verdes profundos e gentis e a pele emitindo um brilho azulado que não agredia os olhos apesar da intensidade. Ela parecia confusa enquanto encarava meus olhos aterrorizados. Pensei que ela fosse me devorar ou me levar para o fundo do mar para me afogar, mas, após alguns segundos me olhando, ela apenas sorriu e voltou para o mar.
Eu nunca corri tanto na minha vida, isso eu falo com certeza. Nessa altura do campeonato, eu nem sabia onde tinha deixado cair o cigarro e o conhaque, e não me importava nem um pouco com isso. Nem consegui chamar um táxi, porque não consegui parar de correr. Sim, eu corri cinco quilômetros até minha casa sem parar, bêbado e com fome. Não me pergunte como isso aconteceu. Quando finalmente cheguei em casa e fechei a porta, eu vomitei no chão da sala e desmaiei ali mesmo. Olha, eu já usei algumas substâncias mais pesadas na minha adolescência (coisa de que não me orgulho), e posso te falar que nenhuma delas faria eu ver o que vi.
O inferno começou. Depois daquele encontro inexplicável, eu fiquei uma semana trancado e neurótico, pois, para onde eu olhava, eu via coisas esquisitas: pequenos humanoides voadores, animais esquisitos, pessoas mais esquisitas ainda, e muitas coisas que passei 25 anos da minha vida acreditando que eram fantasias. Foi então que lembrei da minha avó e de todas as suas histórias, hábitos estranhos e superstições que, antes, achava que eram bobagens. Ela poderia me dar as respostas... O único problema era que ela faleceu dez anos antes, mas havia deixado algumas coisas que eu estava torcendo para serem úteis.
Óbvio que eu precisava arrumar minha vida antes disso, mesmo apavorado, mas eu estava motivado, impulsionado pela curiosidade. Vendi um monte de coisas que não teriam mais espaço na minha nova vida, vendi até meu carro para comprar uma moto e guardei o resto do dinheiro. Consegui um emprego após um mês, que me pagava 25% menos, mas não reclamei. "Vai me sobrar mais dinheiro agora que estou solteiro e moro só". Também tive que aprender a me controlar para não reagir de forma esquisita ao ver as coisas que as outras pessoas pareciam não enxergar.
Minha avó faleceu há dez anos, quando eu ainda tinha quinze anos, e minha mãe não conseguiu se livrar das coisas que ela guardava em um baú grande e pesado. Como ela sabia que eu gostava muito da vovó, confiou em mim e deixou que eu levasse o baú para casa. Até precisei da ajuda do meu pai para carregá-lo. Eu nem sabia como me sentir sobre tudo isso. Eu tinha passado os últimos dois meses tentando colocar minha vida nos trilhos para começar a desvendar os segredos mágicos que estavam debaixo do meu nariz esse tempo todo e, agora que tinha a chave para resolver os problemas, eu nem sabia se queria realmente aquilo... Mas era tarde demais para voltar.
A sós com o baú, pude finalmente começar a descobrir os segredos por trás das histórias da minha avó e da sereia que vi naquela madrugada. Livros, amuletos, potes de vidro contendo líquidos e pós estranhos. Antes da minha experiência fantástica, eu pensaria que minha avó era doida por ter isso guardado. Eu sabia o que fazer e fiz: trabalhava das 8 às 16 como gerente de marketing e, quando chegava em casa, devorava os livros, fazia anotações e até pratiquei alguns encantamentos e poções ensinadas nos livros. Eu estava em um mundo que eu não sabia que existia e estava adorando cada segundo.
O começo foi difícil, devo admitir. Muito porque eu não queria acreditar que tinha todo um mundo novo muito mais interessante que eu não pude explorar antes. Tinha livros que catalogavam criaturas mágicas fascinantes, outros ensinavam como expulsar, prender, invocar e destruir essas criaturas, mas os meus favoritos eram aqueles que ensinavam alquimia e magia. Nessa última coisa eu descobri ser bem talentoso, modéstia à parte. Também descobri que sou um “escolhido”, nome dado às pessoas que conseguem ver através da cortina que esconde os seres mágicos. Escolhidos nascem com uma visão excelente, mas só despertam o dom de ver magia quando passam por emoções muito fortes... Isso explica tanta coisa.
No primeiro ano, eu errei muito, era bem desajeitado e medroso. Mas minha curiosidade sempre me empurrou para frente. Lutei contra orcs, expulsei espíritos, destruí demônios e até curei pessoas de doenças mágicas. E, é claro, como eu estava tão imerso nesse mundo, eu acabei descobrindo mais do que havia nos livros da minha avó, até adquiri outros livros e ferramentas. Fiz aliados interessantes e inimigos mortais.
Antes daquela madrugada na praia, eu era apenas um jovem gerente de marketing, agora tenho uma segunda vida noturna sobre qual não posso conversar com meus pais (tenta explicar para os seus pais que você é um mago que luta contra monstros e resolve mistérios sobrenaturais). Não estou reclamando, é a vida que vivo até hoje e sou muito feliz por isso. Encontrei a melhor versão de mim mesmo, uma versão que não existiria se não fossem todas essas criaturas estranhas que apenas eu e mais algumas pessoas podem ver.
Após dois anos vivendo assim, eu estava pronto para vê-la novamente, a thalanaika (agora eu sei o nome da espécie dela) que me salvou. Ela me salvou, pois eu tinha fortes pensamentos suicidas naquela noite e tê-la visto despertou na minha alma uma sede de conhecimento que me manteve vivo. Enchi minha mochila com tudo de que eu precisava, subi na minha moto e fui até a mesma praia onde estava quando queria acabar com a minha vida e acabei, no lugar, descobrindo um mundo totalmente novo e mágico.
Cheguei lá às 3 horas da manhã e fiz um círculo sinalizador na mão usando tinta de lula diabólica e pó de concha. Esse é um ritual de sinalização que os humanos usam há séculos para chamar as thalanaikas. Navegadores escolhidos faziam amizades com elas em troca de proteção e orientação no mar. É um sinal de luz azul-marinho que só pode ser visto por escolhidos e por elas. Cheguei a pensar que ela não viria ou que apareceria outra da espécie dela. Então você pode imaginar minha felicidade quando aquela luz azul veio até mim e eu pude vê-la novamente, tão bela quanto na primeira vez que a vi.
— Você está muito diferente — disse ela, sorrindo gentilmente. De fato, eu tinha aderido a um estilo mais gótico com barba rala, bem diferente de dois anos atrás.
— E você continua linda — respondi sem pensar muito e fiquei até envergonhado quando ela deu uma risada sincera e baixa.
— Muito obrigada, é um elogio muito especial vindo de um homem tão charmoso.
— Ah, para! Eu vou acabar ficando sem jeito. — não consegui segurar o sorriso. — Inclusive, eu me chamo Allen.
— Eu me chamo Blått. É bom ver você de novo, Allen. Mas por que me chamou?
Abri minha mochila e tirei um colar com uma concha de náutilo azul com listras rosas brilhantes. Para nós, humanos, é bem inútil, mas as thalanaikas extraem poder dele para se fortalecerem e aumentarem muito a sua expectativa de vida.
— Isso... é... um coração marinho? — seus olhos estavam arregalados e sua boca formou um perfeito "O".
— Eu ia me matar naquela noite, Blått... Te ver acendeu uma chama de curiosidade que me deu uma nova vida, e por isso eu quero fazer o mesmo por você.
Ela se aproximou lentamente de mim, tocou meus ombros e inclinou a cabeça para frente. Coloquei nela o colar e o brilho azulado da sua pele aumentou por um instante.
— Eu não sei nem como agradecer, Allen.
— E nem precisa. Eu é que devo agradecer. Obrigado, Blått.
Com o rosto bem próximo do meu, ela sorriu, fazendo meu coração bater como um baterista de uma banda de heavy metal.
Nós nos sentamos na areia e conversamos por uma hora sobre as muitas coisas aleatórias que fizemos e vimos nesses dois anos. Quando o sono começou a me derrubar, me despedi, mas prometi que sempre viria vê-la, todo sábado, nesse mesmo horário. Eu mantive minha promessa e minha jornada estava longe de acabar. Ainda tinha muitos segredos para desvendar, pessoas e criaturas mágicas para ajudar e um mundo novo inteiro para explorar
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