Pular para o conteúdo

Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Prólogo

Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Prólogo

Capítulo 1 · 4 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Eu morri.

Essa é, sem dúvida, a parte mais fácil de explicar.

A parte difícil é entender por que estou usando uma camisola que custa mais do que o meu aluguel, por que tem uma pessoa chorando do lado de fora da porta e por que acabei de ouvir alguém me chamar de jovem mestre Lith.

Lith?

Quem caralhos é Lith?

— Meu senhor? — uma voz feminina chamou do outro lado. — Posso entrar?

Olhei para a porta. Depois para a janela. Depois para a porta de novo.

Não sei o que esperava encontrar lá fora. Um hospital, talvez. Um pronto-socorro. Um médico com cara de poucos amigos me informando que eu tinha sobrevivido a algum acidente estúpido.

Qualquer coisa que fizesse sentido.

Mas, pela janela, eu via jardins perfeitamente aparados, uma fonte de pedra e um sujeito montado em um cavalo. Um cavalo de verdade. Não um desses bichos que aparecem em filme de época com o pelo mais bem cuidado do que o meu cabelo jamais foi.

E o pior: não havia um único carro à vista.

— Meu senhor?

— Já ouvi, porra!

Silêncio.

Fechei os olhos.

Merda.

Acho que não era assim que o tal Lith costumava responder.

— Perdão — falei, tentando imitar uma voz menos irritada. — Eu... preciso de um momento.

— Naturalmente, meu senhor.

Os passos se afastaram.

Fiquei encarando a porta, esperando que alguém voltasse para explicar que aquilo era uma pegadinha elaborada, um programa de televisão ou, sei lá, uma experiência social financiada por algum milionário sem nada melhor para fazer.

Ninguém voltou.

Foi quando percebi minhas mãos.

Pequenas.

Delicadas.

Com dedos finos e unhas bem cuidadas.

Virei uma palma para cima. Depois a outra.

A minha última lembrança era de mãos bem diferentes.

Mãos que eu usava para segurar o celular, abrir latas de cerveja e fazer gestos pouco educados quando alguém me tirava do sério.

Essas mãos pareciam pertencer a alguém que pediria desculpas a uma cadeira depois de esbarrar nela.

Levantei da cama.

Ou tentei.

O corpo era leve demais, as pernas pareceram estranhamente fracas e, antes que eu pudesse recuperar o equilíbrio, quase fui de cara no chão.

— Ah, não. Não, não, não. Que porra é essa?

Apoiei-me num móvel e ergui a cabeça.

Um espelho enorme ocupava a parede à minha frente.

Dei dois passos.

A pessoa refletida fez o mesmo.

Parei.

Ela parou.

Inclinei a cabeça.

Ela inclinou também.

Então encarei o desconhecido do outro lado do vidro.

Cabelos compridos. Pele clara. Olhos grandes. Traços delicados. Uma boca bonita demais para alguém que, naquele momento, só queria mandar o universo inteiro tomar no cu.

Eu não conhecia aquele rosto.

Mas ele certamente não era meu.

— Quem é essa merda no espelho?

Minha voz saiu fina.

Fina!

Levei a mão à garganta, horrorizado, e o reflexo repetiu o gesto.

Não.

Não, não, não.

Eu podia aceitar muita coisa. Um acidente. Um coma. Uma alucinação causada por alguma substância que eu não me lembrava de ter consumido.

Mas aquilo?

Aquilo era demais.

Apertei a ponte do nariz, respirei fundo e tentei organizar os pensamentos.

Primeiro: eu estava morto. Pelo menos, era o que mais fazia sentido diante da situação.

Segundo: estava num lugar que parecia ter saído de um romance de época, com móveis antigos, criados e gente falando como se cada frase precisasse passar pela aprovação de um ministro.

Terceiro: eu tinha o corpo de outra pessoa.

E, pelo jeito, essa outra pessoa era importante.

Muito importante.

Porque, se havia algo que eu conseguia deduzir da quantidade de tecido caro, dos móveis extravagantes e da mulher que me chamara de meu senhor, era que eu não tinha acordado no corpo de um camponês qualquer.

O que, em circunstâncias normais, seria uma ótima notícia.

Só que eu não fazia ideia de como usar um garfo com aquela quantidade de talheres que provavelmente me esperava em alguma mesa. Não sabia o nome de ninguém. Não conhecia a moeda local. E, considerando a minha sorte, era bem possível que aquele corpo pertencesse a alguém que devia dinheiro para meio reino.

Ótimo.

Simplesmente ótimo.

Foi então que uma palavra atravessou a minha mente.

Lith.

A mulher tinha me chamado de Lith.

O nome não significava nada para mim. Absolutamente nada.

E, ainda assim, havia alguma coisa naquela situação que pinicava o fundo da minha memória, como uma música que você conhece de algum lugar, mas não consegue lembrar de onde.

Tentei puxar o fio.

Nada.

Só uma dor de cabeça começando e a sensação desagradável de que eu tinha deixado passar alguma informação importante.

Muito importante.

— Certo, Cadu — murmurei para o espelho. — Vamos fazer o seguinte: você vai manter a calma, descobrir onde está e dar um jeito de voltar para casa.

O reflexo continuou me encarando.

— E você — apontei para ele — não vai me dar trabalho.

Uma batida soou à porta.

— Jovem mestre Lith, o duque e a duquesa desejam saber se já está se sentindo melhor.

Duque.

Duquesa.

Olhei para o teto.

É claro.

Porque acordar no corpo de um desconhecido não era suficiente. Eu precisava acordar no corpo de um desconhecido com pais que tinham títulos nobiliárquicos.

Eu estava fodido.

E o pior era que, naquele momento, eu ainda não fazia a menor ideia de quanto.

Comentários

Entre para comentar neste capítulo.
Ninguém comentou ainda
Seja a primeira pessoa a dizer o que achou.