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Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Capítulo 1

Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Capítulo 1

Capítulo 2 · 14 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Se tem uma coisa que eu nunca entendi, é mulher que faz cu doce. Você está ali, bonito, cheiroso, bem vestido, com o cabelo no lugar e o corpo que levou meses de academia para construir. Aí aparece uma criatura dessas, olha para você por uns três segundos e decide que não está interessada. Não está interessada em quê, minha filha? Em ser feliz? Porque, sinceramente, eu não via outra explicação. Meu nome é Carlos Duarte, mas quem me conhece me chama de Cadu. Tenho vinte e sete anos, um corpo que não foi feito para ficar escondido debaixo de camiseta larga e um rosto que, segundo a minha modesta opinião, devia ser considerado patrimônio público. Modesta opinião é modo de dizer. Eu me olho no espelho todos os dias. Seria uma falta de respeito comigo mesmo não reconhecer o trabalho bem-feito. Ombros largos, braços definidos, abdômen trincado e uma barba que crescia na medida certa para dar aquele ar de homem que sabe o que quer. Eu não era um desses caras que precisavam passar meia hora escolhendo filtro para parecer bonito na internet. Bastava aparecer. Era quase uma responsabilidade social. Naquela noite, por exemplo, eu já tinha recebido três elogios, dois números de telefone e um convite para continuar a festa em outro lugar. E ainda nem era meia-noite. A vida era boa para quem sabia aproveitar. — Cadu, pelo amor de Deus, para de se olhar no reflexo da janela. Virei para meu amigo, que estava encostado no balcão com a expressão cansada de quem não tinha sido abençoado com a minha autoestima. — Inveja é uma doença feia, irmão. — Você está usando o vidro da janela como espelho há cinco minutos. — E você está me observando há cinco minutos. Quem está mais preocupado comigo aqui? Ele revirou os olhos. Gente sem visão de futuro. Dei mais um gole na bebida e voltei minha atenção para a festa. A música estava alta, as luzes coloridas cortavam o salão e havia mulheres bonitas espalhadas por todos os lados. Um cenário promissor. Eu não estava procurando casamento, aliança ou alguém para conhecer minha mãe. Queria beijar uma mulher bonita, me divertir e terminar a noite com uma história interessante para contar. Simples. Objetivo. Eficiente. Não era culpa minha se algumas pessoas gostavam de complicar o que podia ser tão fácil. Foi quando a vi. Vestido justo, cabelo comprido, pernas bonitas e uma expressão que, na minha cabeça, só podia significar uma coisa: ela estava esperando alguém tomar a iniciativa. Sorri. Finalmente, uma mulher com bom gosto. — Já volto — avisei ao meu amigo. — Lá vai você fazer papel de idiota. — Lá vou eu dar alegria à vida de alguém. Ele ergueu o copo num brinde silencioso à minha provável humilhação. Ignorei. Atravessei o salão com a tranquilidade de quem nunca precisou ensaiar uma abordagem na frente do espelho. Eu não precisava de frase pronta. Meu rosto fazia metade do trabalho, meu sorriso cuidava do resto e o meu charme resolvia qualquer eventualidade. Parei ao lado dela. — Oi, linda. Está sozinha? Ela me olhou de cima a baixo. Pronto. Eu conhecia aquele olhar. A avaliação. A curiosidade. A tentativa de disfarçar o interesse. Dei um sorriso um pouco mais largo. — Cadu. — Parabéns. Pisquei. — Como é? — Pelo nome. Parabéns. Ela voltou a olhar para o celular. Ah, engraçadinha. Gostei. Mulher com personalidade era bom. Dava um pouco mais de trabalho, mas nada que eu não conseguisse resolver. — Você sempre recebe as pessoas assim ou eu ganhei um tratamento especial? — Você quer mesmo saber? — Quero. — Estou tentando ficar sozinha. Soltei uma risada, porque obviamente aquilo era uma provocação. — Então escolheu uma festa bem estranha para isso. Ela levantou os olhos devagar. — Eu estava aqui antes de você. — E agora estou aqui também. Olha que coincidência. A garota guardou o celular na bolsa e respirou fundo. Eu conhecia aquele suspiro. Era o tipo de reação que as mulheres tinham quando tentavam decidir se me mandavam embora ou me davam uma chance. Eu, generoso, estava disposto a facilitar a segunda opção. — Vamos fazer o seguinte — falei, inclinando-me um pouco na direção dela. — Você me dá dez minutos e, se não gostar de mim, eu vou embora. — Não. A resposta saiu tão rápida que eu quase ri. Quase. — Você nem sabe o que eu ia falar. — Sei o suficiente. — Nossa, você é sempre assim? — Assim como? — Difícil. Ela me encarou como se eu tivesse acabado de confessar um crime. — Não estou sendo difícil. Estou dizendo que não quero conversar com você. Ah. Aí já era outra história. Porque uma coisa era uma mulher fazer charme. Outra era ela realmente achar que podia dispensar um sujeito como eu sem sequer dar uma oportunidade. — Calma, gata. Não precisa ficar nervosa. — Não estou nervosa. Estou pedindo para você me deixar em paz. Eu ri de novo, embora ela não estivesse rindo comigo. — Você leva tudo muito a sério, hein? — E você não leva um não a sério? A pergunta me incomodou. Não porque ela tivesse razão, evidentemente. Eu não tinha paciência para esse tipo de conversa. Mas porque ela falou alto o bastante para uma pessoa perto de nós virar a cabeça. Ótimo. Agora eu estava sendo tratado como se tivesse cometido algum absurdo, quando tudo o que fiz foi tentar conversar com uma mulher bonita. — Nossa, eu só estou flertando com você. — E eu não quero. — Tá bom, já entendi. Não tinha entendido coisa nenhuma. Na minha cabeça, ela estava sendo grosseira sem motivo, e eu não tinha obrigação de aceitar desaforo só porque uma mulher resolveu acordar de mau humor. Dei um passo para o lado quando ela tentou sair, mas me aproximei de novo para terminar o que estava dizendo. — Você sabe que não precisava ser tão antipática, né? Eu estava sendo legal. Ela recuou, visivelmente irritada. — Sai da minha frente. E foi aí que tudo deu errado. Não por causa dela. Não por causa da festa. Muito menos por causa de alguma lição de moral que o universo tivesse decidido me ensinar. O culpado foi o chão. Mais especificamente, alguma coisa molhada no chão, bem no lugar em que meu pé resolveu pousar enquanto eu gesticulava para explicar àquela mulher que ela estava desperdiçando uma oportunidade incrível. Meu sapato deslizou. Meu braço tentou encontrar apoio. Minha mão agarrou absolutamente nada. E o meu corpo, que até então tinha sido um monumento à perfeição masculina, decidiu abandonar o projeto. — OPA, PORRA! Foi a última coisa que consegui dizer com alguma clareza. Depois disso, tudo virou uma sequência ridícula de luzes, gritos e movimentos que eu preferia não ter protagonizado. Tentei recuperar o equilíbrio. Não consegui. Tentei segurar a beirada de uma mesa. Acertei alguma coisa que caiu no chão. Ouvi alguém gritar meu nome. Então veio o impacto. Uma pancada forte, um clarão estranho e a sensação de que o mundo tinha sido desligado da tomada. A última coisa de que me lembro é de pensar que, se alguém tivesse gravado aquilo, eu teria que encontrar a pessoa e fazê-la apagar o vídeo. Porque tudo bem passar vergonha. Agora, virar entretenimento gratuito para um bando de desconhecidos? Jamais. x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

A primeira coisa que senti foi raiva. Não dor. Não medo. Raiva. Algum idiota estava fazendo barulho perto de mim, e eu queria que parasse. — Meu senhor? Abri a boca para mandar a pessoa calar a porra da boca, mas o som não saiu direito. — Hm... — Meu senhor, consegue me ouvir? Meu senhor? Que palhaçada era aquela? Tentei abrir os olhos, mas a claridade me incomodou. Virei o rosto contra o travesseiro e puxei o cobertor até o queixo. — Me deixa dormir. Houve um silêncio. Depois, um ruído abafado, como se a pessoa tivesse prendido a respiração. — Meu senhor? — Caralho, você é surda? O silêncio que veio em seguida foi tão completo que, por um segundo, até eu percebi que alguma coisa estava estranha. Não que isso me fizesse levantar. Eu estava confortável. A cama era macia, os lençóis tinham um cheiro agradável e a minha cabeça parecia ter sido usada como bola de futebol. Se o mundo queria alguma coisa de mim, podia esperar até eu acordar de verdade. Virei para o outro lado. O colchão afundou de um jeito diferente do que eu esperava. Franzi a testa. Desde quando minha cama era tão grande? E por que o travesseiro tinha cheiro de flores? Abri um olho. O quarto continuava ali. Não o meu quarto. Um quarto. Um quarto enorme, com cortinas pesadas, móveis de madeira escura e detalhes dourados espalhados por toda parte. Havia uma poltrona perto da janela, uma mesa com objetos que pareciam antigos e um vaso de flores tão grande que eu poderia ter escondido uma pessoa dentro dele. Fiquei olhando por alguns segundos. Então fechei o olho de novo. Não. Eu não ia lidar com aquilo ainda. Talvez estivesse na casa de alguém. Talvez tivesse exagerado na bebida e acabado em algum hotel extravagante. Talvez aquele fosse o tipo de decoração que gente rica gostava de usar para compensar alguma deficiência de personalidade. Problema deles. Eu só queria saber onde estava meu celular. Passei a mão pelo colchão. Nada. Apalpei o outro lado. Nada. Levantei o cobertor e procurei perto do travesseiro. Nada. — Cadê meu celular? — Perdão, meu senhor? Virei a cabeça na direção da voz. A garota ao lado da cama parecia prestes a desmaiar. Ela usava um vestido comprido, avental claro e o cabelo preso de um jeito que eu só tinha visto em filmes antigos. As mãos estavam entrelaçadas diante do corpo, e ela me encarava como se eu fosse algum tipo de autoridade. Olhei para ela. Depois para a roupa. Depois para o quarto. Voltei a olhar para ela. — Você trabalha aqui? — Sim, meu senhor. — Aqui onde? Ela piscou. — Na residência dos Inoar, meu senhor. Fiquei esperando o restante da resposta. Nada. — Tá. E onde fica isso? A garota perdeu um pouco da cor do rosto. Foi quase engraçado. — Em Avelor, meu senhor. — Avelor? — Sim, meu senhor. Olhei para o teto. Depois para a garota. Depois para o teto outra vez. — Isso é algum tipo de pegadinha? — Perdão? — Uma pegadinha. Uma brincadeira. Câmera escondida. Algum amigo idiota resolveu me filmar depois da festa? Ela pareceu não entender uma única palavra. Ótimo. A atuação era convincente. — Quem organizou isso? — perguntei. — Foi o meu amigo? Porque, se foi, pode avisar que eu vou acabar com a raça dele. A garota apertou as mãos. — Não compreendo, meu senhor. — É claro que não. Suspirei, irritado. A minha cabeça doía, eu estava sem celular, ninguém me dizia onde eu estava e ainda tinha que lidar com uma funcionária que parecia ter saído de uma peça de teatro. Que manhã maravilhosa. Tentei me sentar. Foi aí que percebi que alguma coisa estava errada com o meu corpo. Não era só uma sensação de fraqueza. Era o jeito como os músculos responderam, o equilíbrio diferente, a impressão de que meus braços estavam leves demais. Olhei para a mão apoiada no colchão. Fiquei imóvel. A mão era fina. Muito fina. Virei a palma para cima, depois para baixo. Dedos compridos. Unhas bem cuidadas. Pele clara, sem as marcas que eu conhecia. Olhei para a outra mão. A mesma coisa. — Que porra... A voz saiu estranha. Pisquei. Abri e fechei a boca. — Que porra é essa? A garota deu um passo à frente. — Meu senhor, devo chamar o médico? — Não! Quer dizer... espera. Puxei o cobertor para longe do corpo. A roupa que eu vestia parecia uma camisola comprida, feita de um tecido fino que eu nunca compraria na vida. Olhei para os meus braços, para o meu peito, para as pernas sob o tecido. Nada parecia certo. Nada. Eu tinha ido a uma festa. Estava conversando com uma mulher. Tinha escorregado. Depois, tinha acordado naquele quarto. Isso era tudo o que eu sabia. E, por algum motivo, parecia que eu tinha sido encolhido durante a noite. — Cadê minhas roupas? — perguntei. A garota arregalou os olhos. — Suas roupas, meu senhor? — Não, as roupas do papa. Claro que as minhas roupas! Ela baixou a cabeça imediatamente. — Perdoe-me. Não imaginei que desejasse vesti-las agora. Eu a encarei. Aquela menina estava mesmo falando sério. — Tá. Tá bom. Esquece. Levei as mãos ao rosto e esfreguei os olhos. Talvez eu ainda estivesse bêbado. Talvez tivesse batido a cabeça com força suficiente para produzir uma alucinação muito elaborada. Era a explicação mais razoável. A única explicação, na verdade. — Me traz um espelho — ordenei. Ela hesitou. — Um espelho, meu senhor? — É. Aquele negócio que reflete a sua cara. Você tem um, não tem? — Naturalmente, meu senhor. A garota correu até um móvel e pegou um pequeno espelho de mão. Entregou-o para mim com as duas mãos, como se estivesse me oferecendo uma joia da coroa. Peguei o objeto. Olhei. E parei de respirar por um instante. O rosto no espelho não era o meu. Havia um rapaz ali, de pele clara, olhos grandes e acinzentados, cabelos escuros caindo de qualquer jeito sobre a testa e traços tão delicados que pareciam ter sido desenhados para alguém que nunca precisou carregar uma caixa de cerveja na vida. Ele me encarava com a mesma expressão de absoluto horror que eu devia estar fazendo. Aproximei o espelho. O rapaz também se aproximou. Afastei. Ele se afastou. — Não. Minha voz saiu baixa. Olhei de novo. — Não, não, não. Que merda é essa? Passei a mão pelo cabelo. O desconhecido fez o mesmo. Agarrei uma mecha entre os dedos. O cabelo era macio, leve e muito mais comprido do que o meu. Puxei de leve. Doeu. Soltei imediatamente. — Ai, porra! A garota levou a mão à boca. — Meu senhor! — Não começa! Ela se calou. Eu continuei olhando para o espelho, esperando que o meu rosto aparecesse por baixo daquele outro, como se aquilo fosse uma máscara ridícula que alguém tivesse colocado em mim enquanto eu dormia. Mas não apareceu. O rapaz continuava ali. Bonito, até. Muito bonito. Só que não era eu. E, sinceramente, ser bonito era o mínimo que eu esperava de mim mesmo. Não era motivo para aceitar ser substituído por outra pessoa. Devolvi o espelho com tanta pressa que quase o deixei cair. — Chama alguém. — O médico? — Não sei! Chama alguém que saiba explicar por que eu estou com essa cara! A garota empalideceu. — Sua... cara, meu senhor? — É! Essa cara! Esse corpo! Esse quarto! Essa história inteira! Ela ficou me olhando, completamente perdida. E eu também estava perdido, mas não tinha a menor intenção de admitir isso em voz alta. Respirei fundo, tentando recuperar a compostura. Eu era Carlos Duarte. Eu resolvia problemas. Eu sempre dava um jeito. Não havia situação que um pouco de dinheiro, conversa ou ameaça bem colocada não pudesse resolver. Só precisava descobrir quem tinha feito aquilo comigo. E, quando descobrisse, alguém ia me pagar. A garota se curvou, ainda mais nervosa. — Vou chamar o duque e a duquesa imediatamente. Franzi a testa. — O duque e a quem? Ela já estava na porta quando respondeu: — Seus pais, meu senhor. A porta se fechou. Fiquei sentado na cama. O espelho estava sobre o móvel, virado para baixo. O quarto continuava enorme. O cheiro de flores continuava insuportável. E o meu rosto continuava sendo o rosto de um completo desconhecido. Seus pais. A residência dos Inoar. Avelor. Olhei para as minhas mãos mais uma vez. Então soltei uma risada curta, sem humor. — Beleza, Cadu. Muito engraçado. Quem quer que esteja fazendo isso, já pode parar. Ninguém respondeu. Eu esperei. Nada. Pela primeira vez naquela manhã, não tinha uma resposta pronta, uma piada ou uma ameaça que parecesse útil. Mas uma coisa eu sabia: se aquilo fosse algum tipo de brincadeira, eu ia descobrir quem estava por trás dela. E, se não fosse... Bem. Eu ainda não tinha chegado tão longe nos meus pensamentos.

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