Reencarnei no BL que Eu Nunca Li
Capítulo 3
Capítulo 4 · 6 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Eu tinha chegado a uma conclusão.
Não era uma conclusão boa, muito menos agradável, mas era a única que fazia algum sentido.
Eu estava em coma.
Pronto. Resolvido.
Tinha caído, batido a cabeça e, por algum motivo, meu cérebro tinha decidido me presentear com a experiência mais bizarra da história da medicina.
Não era a primeira vez que eu ouvia falar de gente que ficava em coma e tinha sonhos malucos. Talvez eu estivesse num hospital agora mesmo, cheio de aparelhos, enquanto minha família chorava ao lado da cama e meus amigos aproveitavam minha ausência para falar mal de mim.
Só de imaginar essa última parte, senti vontade de acordar imediatamente.
Aqueles desgraçados provavelmente estavam dizendo que eu tinha caído porque estava bêbado. Ou pior: que eu tinha tentado dar em cima de uma mulher e passado vergonha.
Bom, a segunda hipótese não era exatamente impossível, mas não significava que eles precisavam espalhar a história.
De qualquer forma, eu precisava sair daquela situação.
Olhei para minhas mãos.
Fininhas. Delicadas. Com dedos compridos que pareciam ter sido feitos para tocar piano, não para levantar peso.
Uma afronta.
— Tá bom, cérebro. Já entendi a piada. Agora pode acabar.
Esperei.
Nada.
— Pode acabar!
Silêncio.
Olhei ao redor, esperando que alguma coisa mudasse. Que as paredes desaparecessem, que eu acordasse numa cama de hospital ou que, sei lá, uma enfermeira gostosa entrasse no quarto e explicasse que tudo não passava de um sonho.
Nada aconteceu.
— Nossa, que coma vagabundo.
Levantei da cama e dei um beliscão no braço.
Doía.
Dei outro, mais forte.
Continuava doendo.
— Ah, vai se foder!
Não que sentir dor provasse alguma coisa. Meu cérebro podia muito bem estar inventando aquilo também. Afinal, se ele conseguia criar uma mansão inteira, um monte de gente vestida como figurante de novela de época e um corpo que parecia ter sido montado com as peças erradas, beliscões deviam ser fichinha.
Ainda assim, eu não gostei.
Fui até o espelho mais uma vez.
O sujeito do outro lado continuava lá.
Bonito, infelizmente. Não dava para negar. Tinha um rosto que provavelmente faria sucesso em qualquer lugar, pele clara, olhos estranhos e um cabelo escuro que caía de um jeito irritantemente bonito.
Mas continuava sendo um sujeito.
E eu continuava preso dentro dele.
Apoiei as mãos na pia e encarei meu reflexo.
— Escuta aqui, bonitão. Não sei quem você é, mas, quando eu acordar, espero que essa brincadeira tenha acabado.
O reflexo ficou me encarando.
Arrogante. Nem para demonstrar respeito.
— E para de me olhar assim!
Desviei os olhos antes que começasse a discutir comigo mesmo. Aquilo seria o fundo do poço, e eu ainda tinha um mínimo de dignidade.
Voltei para o quarto.
A mansão era enorme, a cama parecia custar mais do que meu carro e as roupas espalhadas por um móvel pareciam ter saído diretamente de uma loja de fantasia. Se meu cérebro queria criar um cenário de luxo, pelo menos tinha bom gosto.
O problema era o excesso de gente.
Toda hora aparecia alguém perguntando se eu estava bem, se precisava de alguma coisa ou se desejava chamar um médico. E todo mundo me olhava como se eu fosse feito de vidro.
Era irritante.
Eu não era inválido. Muito menos uma criança.
— Senhor Lith?
Virei a cabeça.
Um rapaz vestido com roupas elegantes estava parado perto da porta. Parecia jovem, mas mantinha uma postura tão séria que dava a impressão de ter nascido com uma vassoura enfiada nas costas.
— Que foi?
Ele piscou.
— O senhor deseja alguma coisa?
— Quero saber que porra está acontecendo.
O rapaz ficou imóvel.
Por um instante, tive a impressão de que ele tinha parado até de respirar.
— Perdão?
— Você ouviu. Onde eu estou? Que lugar é esse? E por que todo mundo me chama de Lith?
Ele me encarou com uma expressão esquisita.
Não era exatamente medo. Parecia mais preocupação, misturada com uma pitada de pena.
Péssimo sinal.
— O senhor está na residência da família Inoar.
— Certo. E onde fica isso?
— Em Avelor, senhor.
Esperei.
Ele esperou também.
— Tá. E isso fica onde?
O rapaz franziu a testa, como se eu tivesse perguntado onde ficava o céu.
— No reino de Avelor.
— Ah, claro. O reino de Avelor. Agora ficou muito mais fácil.
Ele baixou os olhos.
Eu quase podia ouvir o sujeito pensando que eu tinha enlouquecido.
O que, considerando as circunstâncias, não era uma teoria tão absurda.
— Chame alguém que saiba responder às minhas perguntas — ordenei. — Um médico, de preferência. Ou um psiquiatra. Tem psiquiatra aqui?
— Não sei o que é um psiquiatra, senhor.
Olhei para ele.
Ele olhou para mim.
Foi nesse momento que percebi que minha alucinação tinha um problema sério de pesquisa.
Quem quer que estivesse produzindo aquilo dentro da minha cabeça precisava atualizar o repertório.
— Esquece. Chama um médico.
— Sim, senhor.
Ele fez uma reverência e saiu.
Fiquei olhando para a porta por alguns segundos.
Avelor.
Nunca tinha ouvido falar de um lugar chamado Avelor. Talvez fosse um país fictício. Talvez meu cérebro tivesse inventado o nome. Talvez eu estivesse tão ferrado que nem sabia mais reconhecer uma palavra normal.
Sentei na beirada da cama e passei as mãos pelo rosto.
Eu precisava manter a calma.
Era isso que as pessoas faziam em situações difíceis. Respiravam fundo, analisavam os fatos e procuravam uma solução.
Então respirei fundo.
Analisei os fatos.
E concluí que, se aquilo fosse mesmo um coma, meu cérebro merecia uma surra.
Pouco depois, alguém bateu à porta.
— Entre.
Uma mulher entrou acompanhada de outra pessoa. Era uma senhora de postura impecável, que começou a falar sobre minha saúde, meu descanso e a necessidade de não me esforçar demais depois da queda.
Eu não prestei muita atenção.
Estava ocupado demais tentando entender por que ela falava comigo como se eu fosse um vaso chinês.
— Escuta, dona...
Parei.
Não sabia o nome dela.
— Senhora — corrigi, sem muita vontade. — Eu preciso sair daqui.
Ela pareceu surpresa.
— Sair da residência?
— Não. Sair daqui. Desse lugar. Quero ir para casa.
— Mas esta é a sua casa, meu senhor.
Ah.
Claro.
A minha casa.
Uma mansão que eu nunca tinha visto, num lugar que nunca tinha ouvido falar, com um corpo que não era meu.
Fazia todo o sentido.
— Tá bom — respondi, levantando as mãos. — Vamos fazer assim. Eu vou deitar, dormir um pouco e, quando acordar, espero que essa palhaçada tenha acabado.
A mulher trocou um olhar com a acompanhante.
Lá estava de novo.
Aquela expressão.
A mesma que as pessoas faziam quando achavam que alguém estava prestes a perder o juízo.
— Como desejar, meu senhor.
Elas saíram pouco depois, e eu me joguei na cama.
Pelo menos a cama era boa.
Se eu estava em coma, merecia um pouco de conforto. Não era como se eu tivesse escolhido cair de cara no chão.
Fechei os olhos e puxei o cobertor até o peito.
Amanhã eu acordaria no hospital.
Era o mais lógico.
E, quando isso acontecesse, eu ia descobrir quem tinha me colocado naquela situação, processar o responsável e recuperar meu corpo.
Principalmente meu corpo.
Porque eu podia até aceitar que meu cérebro tivesse um senso de humor questionável.
Mas me transformar num sujeito bonito, delicado e sem o Cadu Júnior?
Isso já era perseguição.