Reencarnei no BL que Eu Nunca Li
Capítulo 6
Capítulo 7 · 8 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Depois de passar horas lendo sobre alfas, betas, ômegas e outras coisas que pareciam ter saído da cabeça de alguém que precisava urgentemente arrumar um emprego, cheguei a uma conclusão.
Eu estava em coma.
Não havia outra explicação razoável.
Meus amigos não poderiam estar por trás daquilo. Primeiro, porque nenhum deles teria dinheiro para bancar uma mansão daquele tamanho. Segundo, porque, mesmo se tivessem, não seriam inteligentes o suficiente para inventar um mundo inteiro, com história, títulos de nobreza e uma sociedade organizada em torno de três categorias biológicas.
E terceiro, porque eu conhecia aqueles desgraçados. Se estivessem aprontando alguma coisa, já teriam estragado tudo com alguma piada idiota ou uma câmera escondida mal posicionada.
Não. Aquilo era obra do meu cérebro.
Provavelmente, eu tinha caído, batido a cabeça e entrado num coma profundo. Meu corpo estava num hospital, ligado a uma quantidade absurda de aparelhos, enquanto minha mente inventava aquela realidade maluca para passar o tempo.
Era uma teoria excelente.
O único problema era que eu não tinha a menor ideia de quanto tempo estava apagado.
E isso me preocupava.
Porque, se eu estivesse em coma havia semanas, talvez meses, meu corpo real estivesse definhando numa cama de hospital. E, considerando que eu não tinha ninguém para cuidar da minha preciosa aparência além de profissionais que provavelmente estavam mais preocupados em me manter vivo do que em preservar minha beleza, havia uma questão muito séria a considerar.
Meu abdômen.
Levei a mão à barriga lisa de Lith e fiz uma careta.
— Caralho, será que eu perdi meu tanquinho?
A possibilidade me atingiu com força.
Eu tinha trabalhado para conquistar aquele abdômen. Não que eu fosse obcecado por academia. Eu só gostava de ficar bonito sem camisa, o que, convenhamos, era uma contribuição importante para a sociedade. Não seria justo perder tudo porque meu cérebro resolveu me colocar numa novela de época.
— Se eu acordar com barriga de cerveja, vou processar alguém.
Não sabia exatamente quem. O hospital, talvez. Deus. O universo. Qualquer um que aceitasse receber a reclamação.
Suspirei e me joguei na poltrona.
Pelo menos havia algumas vantagens naquele coma.
A comida era excelente. A cama parecia ter sido feita por anjos especializados em colchões. Ninguém me cobrava trabalho, ninguém mandava mensagem perguntando onde eu estava e ninguém tentava me convencer a pagar a conta de um bar que eu nem lembrava de ter frequentado.
Pensando bem, eu estava vivendo melhor do que antes.
Se meu corpo real estivesse sendo bem cuidado, não havia motivo para desperdiçar aquela experiência. Eu podia aproveitar a mansão, comer até não aguentar mais, dormir o quanto quisesse e deixar para me preocupar com o resto quando acordasse.
Afinal, não era como se eu pudesse fazer alguma coisa a respeito naquele momento.
— É isso. Vou aproveitar meu coma de luxo.
Decidido, levantei da poltrona e fui procurar alguma coisa interessante para fazer. Foi quando me lembrei do baile.
Aquela festa continuava sendo um problema.
Não porque eu estivesse particularmente interessado em participar de um evento cheio de nobres que provavelmente passavam metade do tempo falando de terras, casamentos e títulos. Mas porque, se eu precisava continuar fingindo ser Lith até acordar, seria melhor evitar que alguém percebesse que havia alguma coisa errada comigo.
Além disso, eu não pretendia passar vergonha.
Uma coisa era estar num coma bizarro. Outra, muito diferente, era deixar uma plateia inteira de gente rica me ver tropeçar nos próprios pés.
Eu tinha dignidade.
Ou, pelo menos, uma reputação a preservar.
Resolvi voltar à biblioteca e procurar livros sobre etiqueta. Se aquelas pessoas levavam tão a sério o jeito de cumprimentar alguém, sentar à mesa e conversar, eu precisava descobrir as regras antes de ser colocado diante de uma situação humilhante.
Encontrei um manual sobre costumes da nobreza, outro sobre títulos e precedência social e um terceiro que parecia ter sido escrito por alguém que acreditava sinceramente que a maneira de segurar uma xícara definia o valor de um ser humano.
Passei a tarde estudando.
Descobri que não bastava chamar alguém de senhor ou senhora. Havia títulos específicos, formas adequadas de cumprimentar cada pessoa e uma ordem de precedência que determinava quem deveria ser reconhecido primeiro em determinadas ocasiões.
Uma complicação desnecessária, na minha opinião.
Se eu encontrasse alguém importante, bastava perguntar quanto dinheiro a pessoa tinha. O problema se resolveria sozinho.
Infelizmente, duvidava que aquela resposta fosse bem recebida.
Também aprendi que a posição social dependia de vários fatores, como título, família, riqueza e reputação. Os alfas de grandes casas costumavam ocupar posições de destaque, mas isso não significava que todos fossem importantes. Betas podiam ter influência considerável, e alguns ômegas também ocupavam posições de poder.
O que me pareceu particularmente irritante foi descobrir que a classificação biológica continuava influenciando a maneira como as pessoas eram tratadas.
Eu já tinha entendido que ômegas recebiam uma quantidade exagerada de cuidados. O livro apenas confirmou que certas atitudes consideradas normais naquele mundo poderiam ser vistas como grosseiras ou inadequadas se dirigidas a alguém como Lith.
Ótimo.
Além de ter uma aparência que fazia as pessoas quererem me embrulhar em algodão, eu ainda precisava tomar cuidado para não ofender ninguém por acidente.
Pelo menos havia algumas vantagens. A família Inoar era respeitada, e isso significava que eu não precisava começar do zero. Se alguém me tratasse com consideração, eu poderia simplesmente aceitar. Não tinha obrigação nenhuma de explicar que, na verdade, eu era um homem de vinte e sete anos preso num coma particularmente criativo.
E, se alguém tentasse me ensinar alguma coisa que eu já tivesse lido, bastava fingir que estava distraído.
Era uma estratégia que funcionava em qualquer época.
No dia seguinte, comecei a praticar diante do espelho.
— Bom dia, senhor.
Fiz uma pequena inclinação com a cabeça.
— Bom dia, senhorita.
Outra inclinação.
— É uma honra conhecê-lo, vossa... alguma coisa.
Parei.
— Porra, não. Isso aqui parece uma entrevista de emprego.
Tentei novamente, dessa vez com um sorriso educado.
O resultado foi tão convincente que quase me aplaudi.
Eu tinha aprendido a sorrir para mulheres desde muito antes daquele coma. Bastava controlar um pouco a intensidade e evitar parecer que estava prestes a oferecer uma noite inesquecível. Para cumprimentar nobres, era basicamente a mesma coisa, só que com menos charme e mais palavras inúteis.
Estava indo muito bem até tentar me curvar e quase perder o equilíbrio.
— Quem inventou essa merda?
O espelho não respondeu.
Pelo menos ele não me julgava.
Quando Helena apareceu para me acompanhar durante o café da manhã, eu já estava convencido de que tinha dominado o básico.
Ela me observou por alguns segundos, com aquela expressão desconfiada que vinha usando desde que eu acordara.
— O que você estava fazendo?
— Treinando.
— Treinando o quê?
— Etiqueta.
Helena olhou para o corredor atrás de mim, como se esperasse encontrar um professor escondido.
— Você?
— Algum problema?
— Nenhum. Só é inesperado.
— Pois se acostume. Estou numa fase de desenvolvimento pessoal.
Ela estreitou os olhos.
— Você caiu de cabeça mesmo, não foi?
— Isso é o que dizem.
— E você não se lembra de nada?
— Já conversamos sobre isso.
Helena continuou me encarando por um instante, mas acabou suspirando.
— Só tente não fazer nada absurdo no baile.
— Helena, pelo amor de Deus. Eu sou um homem preparado.
Ela soltou uma risada curta, sem parecer convencida.
O problema era que eu estava preparado mesmo.
Ou acreditava estar.
Naquela tarde, decidi que já tinha estudado o suficiente. Sabia como cumprimentar as pessoas, tinha uma noção dos títulos mais importantes e conseguia distinguir uma reverência aceitável de uma tentativa desesperada de não cair de cara no chão.
O resto eu resolveria na hora.
Agora faltava a parte mais importante.
A aparência.
Eu podia até ser obrigado a viver como Lith durante aquele coma, mas não precisava fazer isso malvestido. Se havia uma coisa que eu respeitava naquele mundo, era o fato de que as roupas eram bonitas, os tecidos pareciam caros e ninguém precisava sair por aí usando camiseta de propaganda de cerveja.
Eu queria uma roupa que valorizasse o corpo, chamasse atenção e deixasse claro que eu tinha chegado.
Não precisava ser vulgar. Eu tinha bom gosto.
Só precisava olhar para mim e pensar: caralho, quem é esse homem?
Foi com essa exigência perfeitamente razoável que pedi ajuda para escolher meu traje para o baile.
Helena, quando soube, pareceu aliviada por eu finalmente estar me preocupando com alguma coisa que ela considerava apropriada.
— Pelo menos você está levando o evento a sério.
— Claro que estou. Não vou aparecer lá parecendo um mendigo.
— Ninguém sugeriu isso.
— Estou apenas estabelecendo meus padrões.
Ela balançou a cabeça, provavelmente desistindo de tentar entender minha lógica.
Eu, por outro lado, já conseguia visualizar a cena. Entraria naquele salão, cumprimentaria os nobres com a elegância que tinha acabado de aprender e deixaria todos impressionados. Mulheres bonitas me notariam. Algumas tentariam se aproximar. Outras fingiriam desinteresse, porque aparentemente essa era uma prática universal, independentemente do mundo.
E eu, generoso como sempre, daria a elas uma oportunidade.
Afinal, não era culpa minha se eu tinha nascido com aquela beleza.
Ou, no caso, acordado com ela.
Olhei mais uma vez para o espelho e ajeitei o cabelo escuro de Lith.
— Agora, sim. Vamos trabalhar com o que temos.
O baile estava chegando, e eu pretendia estar impecável.
Se aquele coma tinha me transformado num nobre de aparência delicada, tudo bem. Eu sabia me adaptar.
E se alguém tivesse algum problema com isso, que entrasse na fila.