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Smooth Operator - Jeon Jungkook

NUMBER ONE

Smooth Operator - Jeon Jungkook

NUMBER ONE

Capítulo 1 · 44 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Os olhos dele são como os dos anjos, mas seu coração é frio... Não precisa perguntar, ele é um Smooth Operator”*

𝓜ONZA, ITÁLIA

𝑪ALOR. Essa era a palavra ideal para definir Monza, a pequena comuna italiana que parecia arder sob o sol escaldante e torturador. Trinta graus Celsius em plena primavera, e ainda eram apenas dez horas da manhã. O céu se estendia em um azul profundo e imaculado, sem nenhuma nuvem para amenizar a claridade, e a umidade ultrapassava os 65% — criando um calor abafado, pesado, como se o ar estivesse preso dentro de uma panela de pressão.

No meio de todo esse calor abafado, lá estava ele. Jeon Jungkook. O piloto que dominava a categoria há cinco anos, desde que chegou à Red Bull, deixando rivais à beira da frustração e da inveja com uma velocidade que parecia não ter explicação.

O público e a imprensa já haviam lhe dado apelidos: o chamavam de “Velocidade da Luz”, mas por dentro dos boxes e da pista, era conhecido também como o "Arrogante do Acelerador" — aquele que testava os limites até onde o próprio RB21 suportava. Uma máquina que, aos olhos de quem entendia, parecia “gemer” só de sentir os pés dele posicionados sobre o pedal, mesmo quando ainda apenas o roçava, antes mesmo de pedir toda a potência que tinha para dar.

As mãos do piloto estavam sobre o volante, firmes, mas o suor já escorria por baixo das luvas pretas, a ponto de fazê-las quase deslizar. O capacete fechado, abafava sua respiração: o ar entrava quente e saía ainda mais abrasador pelas narinas. Mas, para Jeon Jungkook, o calor do ambiente era o menor dos problemas — porque o frio que vinha de dentro dele era muito mais intenso.

Seu olhar era inexorável. Frio, rigoroso e extremamente calculista. Tinha a testa franzida em concentração e os olhos semicerrados, sem deixar transparecer qualquer sombra de dúvida ou hesitação. E naquele olhar, havia algo mais profundo: ódio.

Ódio e ego, expostos na forma mais crua e pura da sua essência. Ele não tremia, não havia um sinal sequer de nervosismo em seu corpo. O suor que escorria por entre os poros de sua pele vinha apenas do calor ao seu redor — E… Ele odiava o calor. O único calor que lhe interessava era o que vinha do motor atrás de suas costas. O rugido de um carro que respondia apenas aos seus comandos, como se cada peça soubesse quem estava no controle. Jeon Jungkook adorava a… SUBMISSÃO.

O coreano não estava acostumado a perder. O seu maior lema, a regra que guiava cada passo e cada decisão, era simples: sempre vencer, sempre estar à frente. Porque perder… Na cabeça dele, essa palavra sequer deveria existir. Não era uma possibilidade, não era uma opção — e, enquanto ele sentisse o seu coração batendo, o ar em seus pulmões e controle sobre o volante, ele seria, sem exceção, o número um. Sempre o número um.

Com um movimento firme e preciso, Jungkook ajustou o visor; o plástico escuro deslizou até encaixar com um clique seco e definitivo, isolando ainda mais o mundo exterior. Por trás da proteção, seus olhos permaneciam semicerrados, frios e afiados como lâminas, fixos na pista que se estendia longa e brilhante sob o sol de Monza.

Dentro do cockpit, Jungkook estava preso em um espaço apertado feito sob medida para ele. O banco abraçava seu corpo com firmeza, o capacete tocava o apoio de cabeça a cada pequeno movimento e o HANS restringia seu pescoço. Virar para os lados era impossível. Porém, no cockpit, não podia impedir o movimento do olhar do piloto.

Ele moveu os olhos para o canto esquerdo… E mais uma vez, teria que provar sua superioridade diante de Luca Moretti. O grande queridinho da Fórmula 1 — e nada o incomodava mais do que dividir as atenções. Principalmente com esse piloto da Ferrari, que carregava consigo a tradição da escuderia vermelha e recebia, sem esforço, os olhares, os aplausos e o carinho de fãs, imprensa e até de quem trabalhava nos bastidores.

O maldito do Luca Moretti. Carismático, descontraído e mestre em conquistar espaço e simpatia por onde passava. Estava posicionado logo ao lado do RB21, dentro do seu carro vermelho, parecendo completamente à vontade, como se estivesse apenas esperando um passeio e não uma batalha de altíssimo risco. As mãos enluvadas repousavam com tranquilidade sobre o volante, o corpo relaxado no assento, e ele mal deu importância à presença do rival: seus olhos claros, de um verde intenso e calmo, permaneciam inteiramente focados na linha de asfalto que brilhava à frente, como se nada mais existisse além daquele caminho.

O sinal chegou. À frente do grid, as luzes vermelhas começaram a acender uma por uma, refletindo no visor escuro do capacete de Jungkook. Cinco luzes. Cinco segundos que pareciam se arrastar. O aviso de que o momento decisivo havia chegado. O zumbido baixo do motor do RB21 aumentou de tom, ganhando força e vibração, como uma fera impaciente que esperava apenas a permissão para se soltar.

Jungkook reajustou a pegada no volante. Os dedos enluvados apertaram o aro com mais força, enquanto os pés permaneciam perfeitamente posicionados sobre os pedais. O corpo já estava completamente encaixado no cockpit; dali em diante, restavam apenas reflexos.

Os olhos de todos os pilotos permaneciam pregados às cinco luzes vermelhas suspensas sobre o grid, brilhando intensamente contra o céu azul de Monza. A respiração estava contida em cada peito, e o silêncio parecia pesar como uma camada espessa sobre a pista, sobre as arquibancadas lotadas e sobre cada máquina alinhada, pronta para rugir.

De repente… As luzes se apagaram. No mesmo instante, sem a menor hesitação, movido apenas por instinto e por anos de domínio absoluto, o pé de Jungkook afundou com toda a força sobre o acelerador. O coração do RB21 despertou com um rugido profundo e feroz, despejando toda a sua potência nas rodas traseiras. O carro saltou para a frente num impulso violento, jogando o corpo do piloto contra o encosto do banco enquanto a longa reta de Monza parecia encolher, desaparecendo diante de seus olhos numa velocidade que parecia desafiar a própria gravidade.

Ao seu redor, os outros veículos também disparavam, rompendo o silêncio com um coro de motores potentes — mas Jungkook já havia conquistado os primeiros metros, abrindo uma pequena vantagem logo no início. Exatamente como ele esperava. Exatamente como devia ser. O ronco profundo e vibrante do motor tomou conta de todo o espaço do cockpit, enquanto o ponteiro do velocímetro disparava para cima com uma agilidade assustadora.

À sua esquerda, a Ferrari vermelha de Luca Moretti também respondia com precisão — uma largada igualmente limpa, forte e impecável. Os dois carros seguiram lado a lado por toda aquela extensão inicial da reta, separados por uma distância de apenas alguns centímetros, quase se roçando. A cor viva do vermelho da escuderia italiana refletia brilhante na carroceria do RB21, enquanto ambos devoravam o asfalto rumo à primeira curva de Monza, cada piloto se recusando terminantemente a ceder um único centímetro de pista.

Jungkook mantinha os olhos firmes e fixos à frente, sem virar a cabeça sequer uma vez. Podia senti-lo com toda a clareza, como uma presença constante, uma sombra que acompanhava cada aceleração, cada variação de velocidade. E sob o capacete, um sorriso discreto e cheio de desafio surgiu em seus lábios. Era exatamente assim que ele gostava.

— Vai ter que fazer melhor do que isso, se quiser me superar.

O murmúrio ficou preso dentro do próprio capacete, abafado e inaudível para qualquer um além dele mesmo. A Ferrari estava colada ao seu lado, teimosa, recusando-se a ceder um centímetro sequer da pista. Jungkook apertou o volante com ainda mais força, os dedos firmes sob as luvas, enquanto o RB21 continuava a ganhar velocidade, devorando cada metro da longa reta de Monza.

O calor dentro do cockpit era quase insuportável. O suor escorria em fios pela testa, atravessava o tecido da balaclava e descia sem parar até desaparecer sob a gola grossa do macacão. Logo atrás de suas costas, o motor vibrava como um coração furioso, irradiando um calor tão intenso que se misturava ao sol impiedoso italiano, transformando o pequeno espaço em um verdadeiro forno.

Ele ignorou tudo isso. Nada mais importava. Só existiam três coisas: o asfalto que se estendia à sua frente, a sombra vermelha da Ferrari ao seu lado… E a primeira curva, que se aproximava cada vez mais rápido, muito mais rápido do que parecia.

A primeira chicane de Monza surgiu à frente como uma barreira inescapável, uma ameaça que não esperava por ninguém. Os carros avançavam espremidos, quase se tocando. O rugido dos motores se misturava ao som da multidão nas arquibancadas, criando uma atmosfera densa onde o ar vibrava com o cheiro forte de combustível queimado e borracha superaquecida.

Jungkook não piscou. Seus olhos permaneciam fixos, sem desviar um instante sequer. A placa indicando os cem metros apareceu e desapareceu num borrão diante de seus olhos.

Num movimento instantâneo, seu pé afundou no pedal com toda a força que tinha. O corpo foi lançado para a frente, segurado apenas pelos cintos rígidos de segurança, enquanto os pneus gritavam contra o asfalto quente, lutando para encontrar aderência. O volante vibrava com intensidade entre suas mãos, transmitindo cada mínima irregularidade da pista diretamente para seus braços.

À sua esquerda, a silhueta vermelha da Ferrari de Luca Moretti continuava perto... Persistente. Teimosa. Incrivelmente incômoda. Os dois mergulharam na curva praticamente lado a lado. Havia espaço suficiente para apenas um deles seguir pela trajetória perfeita — mas Jungkook não tinha a menor intenção de ceder.

Só existia a curva... E Luca.

As faixas brancas e amarelas da sinalização passaram rapidamente sob as rodas do RB21, fazendo o veículo sacudir com violência. Mesmo assim, Jungkook manteve as mãos firmes, corrigindo a trajetória com movimentos pequenos, rápidos e precisos, sem perder o controle.

Seu coração batia forte e constante no peito. Não por medo, todavia por aquela sensação viciante de estar no limite absoluto. Na beira do precipício, que ele realmente se sentia vivo. Quanto maior o risco, mais intenso era o prazer de manter o controle, de brincar com a linha tênue que separava a vitória do desastre.

Uma briga de gigantes. Dois pilotos. Duas máquinas. Duas vontades de ferro disputando cada centímetro de asfalto como se o campeonato inteiro dependesse daquela volta. A Ferrari mergulhava por dentro nas frenagens. O RB21 respondia na saída das curvas, recuperando metros preciosos na aceleração. Nenhum dos dois aceitava levantar o pé antes do outro.

Não havia espaço para gentileza. Cada mudança de direção exigia precisão. Um erro de poucos centímetros seria suficiente para destruir duas corridas — e, ainda assim, nenhum deles parecia disposto a ceder.

Monza já não era apenas um circuito. O primeiro lugar já tinha dono. Há anos, Jungkook fazia questão de lembrar todo o grid desta realidade. Não importava quem surgisse, quantos jovens talentos aparecessem ou quantas novas promessas fossem exaltadas pelas manchetes e pela imprensa: o topo não era um espaço aberto para qualquer um.

Era território dele. Conquistado com esforço, defendido com garra e, acima de tudo, intocável. E certamente não seria Luca Moretti — aquele maldito italiano que mal havia pisado de verdade no universo da Fórmula 1 — quem viria pisar no lugar que Jungkook considerava seu por direito absoluto.

Como sempre acontecia, Jungkook não demorou a abrir uma vantagem que parecia quase impossível de alcançar. O RB21 obedecia a cada comando com fidelidade — cada movimento no volante, cada leve pressão no acelerador era muito bem executado, evorando o asfalto de Monza como uma fera que não conhece limites. A silhueta vermelha da Ferrari de Luca Moretti foi ficando cada vez menor, encolhendo rapidamente no fundo dos retrovisores, até se transformar em nada mais do que um ponto distante e insignificante, perdido no rastro de fumaça e velocidade que ele deixava para trás.

Sob o capacete, o sorriso que surgiu foi carregado de confiança e pura superioridade. Era exatamente assim que as coisas tinham que ser. Na frente. E permanecendo para sempre na frente.

Um estalo nítido ecoou dentro dos fones de ouvido, logo em seguida pela voz calma, firme e experiente do engenheiro de corrida, John.

— Excelente largada, Jeon Jungkook. Você abriu um segundo de vantagem sobre Moretti. Continue administrando bem os pneus; ainda temos cinquenta e duas voltas pela frente.

Os olhos do piloto permaneceram pregados à reta que se estendia à sua frente, sem desviar nem por um instante.

— Copiado.

A resposta saiu curta, direta e fria, sem emoções desnecessárias. Mas, por trás do visor escuro do capacete, aquele sorriso de satisfação e superioridade continuava lá.

Um segundo, uma vantagem. Apenas segundos podem mudar tudo. As voltas começaram a se acumular, uma após a outra, sem pausa nem descanso. O RB21 cortava o asfalto de Monza com uma regularidade e precisão dignas de um relógio de alta precisão. Jungkook mantinha um ritmo implacável.

Atrás dele, Luca Moretti se recusava a desistir. A Ferrari vermelha seguia firme e constante, sempre pressionando, sempre à espreita, mas nunca chegando perto o bastante para representar uma ameaça real. A distância entre os dois oscilava setor após setor — diminuía ligeiramente em alguns trechos, mas logo voltava a aumentar nas retas longas — como se travassem uma batalha feroz, contra o próprio tempo e o cronômetro. Enquanto isso, as arquibancadas de Monza vibravam a cada passagem veloz dos carros. Bandeiras vermelhas da Ferrari se agitavam por todos os lados, misturadas ao azul escuro e branco da Red Bull, enquanto o rugido dos motores ecoava por todo o circuito, fazendo até o chão tremer sob a força daquela velocidade.

Entre a décima primeira e a vigésima volta, o ritmo da corrida começou a mudar. O impacto bruto da largada já havia passado, mas a tensão — apenas se transformava: ficava mais estratégica. Jungkook continuava na liderança, porém agora o trabalho era outro: manter a posição, controlar cada movimento, não desperdiçar nem um grama de aderência, nem um segundo de vantagem. Pelo rádio, a equipe da Red Bull o guiava com uma precisão cirúrgica.

— Jungkook, mantenha o foco no gerenciamento dos pneus. A Ferrari está dentro da zona de DRS.

Ele respondeu apenas com um seco e breve “copiado”, sem desviar os olhos da pista. E atrás dele, Luca Moretti não desaparecia. Muito pelo contrário: a cada volta parecia mais à vontade, mais estável, mais consistente. Aos poucos, ia reduzindo pequenas diferenças em trechos específicos — especialmente nas freadas mais fortes e demoradas, onde sua técnica parecia brilhar.

Jungkook percebeu cada detalhe. Não precisava que o rádio avisasse para saber que o rival estava se aproximando. Ele sentia isso no próprio fluxo da corrida, como se a presença da Ferrari já fizesse parte da própria pista.

Era irritante. A silhueta vermelha aparecia e desaparecia nos retrovisores conforme passava por cada setor — surgia nítida nas retas, se escondia nas sombras das curvas, mas nunca deixava de estar presente. Era uma presença teimosa, incômoda, que parecia ter raízes no asfalto, recusando-se a ser deixada para trás de vez.

Na volta 14, a Ferrari saltou para perigosamente perto ao longo da reta principal, sua frente quase tocando o fluxo de ar que o RB21 deixava para trás. Na volta 15, a distância voltou a abrir por míseros décimos de segundo — uma folga tão pequena que parecia ilusória. Na volta 17, ao sair da curva da Parabólica, Jungkook apertou o volante com uma força que fazia os nós dos dedos endurecerem sob as luvas. E ali sentiu: o RB21 respondia com menor vivacidade, com uma agilidade reduzida em comparação aos primeiros minutos. Os pneus já mostravam o desgaste, o asfalto quente cobrava seu preço, e a máquina já não obedecia com a mesma fúria inicial.

Mesmo assim, nada mudou em sua postura. Não pisou mais fundo no acelerador para compensar, não forçou os componentes além do limite seguro. Ainda tinha o controle — ou pelo menos era o que tentava convencer a si. Desde que as luzes se apagaram na largada, Jungkook percebeu um detalhe que fez algo se contrair dentro do seu peito:

Moretti não estava apenas seguindo o ritmo. Ele estava estudando, se adaptando. Aprendendo cada linha da sua trajetória, cada ponto onde o RB21 perdia força, cada espaço onde ele poderia atacar. E o pior de tudo: ele estava aprendendo rápido demais.

— Filho da puta…

As palavras saíram entre dentes, abafadas dentro do capacete, mas carregadas de uma fúria que queimava por baixo da superfície. Nos olhos de Jungkook, antes frios e calculistas, agora brilhava uma raiva — e ao mesmo tempo, um arrepio frio percorreu sua espinha, um aviso de que a disputa estava mudando de figura. Seus dedos se fecharam sobre o volante com uma força ainda maior, tão forte que parecia que poderia deformar o metal.

— Então vai jogar assim? — murmurou, com a voz cheia de desafio e desprezo. — Me estudando, não é mesmo? Ah… Pode vir, pode observar o quanto quiser. Mas aprender a me superar? Isso você não vai conseguir, nem em mil voltas

Nem se nascesse de novo… A frase ecoou firme e seca dentro da sua cabeça, carregada de desprezo e uma certeza que não admitia a menor dúvida. Permaneceu presa na sua mente, abafada, mas tão intensa quanto se tivesse sido gritada. A raiva ainda queimava no fundo dos seus olhos, misturando-se àquela arrogância inabalável que o fez chegar até onde está.

Nem se nascesse de novo você teria o que é preciso para chegar onde eu cheguei. Ela reapareceu: a silhueta vermelha, nítida, sólida, mais perto do que nunca. De novo. Persistente como uma sombra que se agarra ao sol, que não se apaga nem com a velocidade mais cega. Jungkook não precisou olhar por muito tempo, nem fazer contas na cabeça: sentiu. Sentiu na mudança da pressão do ar ao redor do carro, na leve vibração diferente que subia pelo volante, na tensão que apertava seu peito como uma mão de ferro.

Era pressão. Fria, constante, implacável. Luca Moretti não recuava, não aceitava o lugar que lhe parecia destinado. E então, na entrada da zona de frenagem seguinte, algo dentro de Jungkook se alterou completamente.

Foi instinto. Puro, bruto, selvagem. E ele fez o que raramente ousava: mudou toda a linha de corrida no último milésimo de segundo. Abandonou o traçado mais rápido e seguro. Ignorou o ponto convencional de defesa. Fechou a porta tarde demais… E fez isso de propósito. O RB21 cortou a pista com uma agressividade cortante, deslocando-se bruscamente para a esquerda e bloqueando o caminho da Ferrari a uma distância de poucos centímetros — tão curta que qualquer movimento a mais significaria colisão, destruição imediata.

Por um segundo que pareceu se arrastar por minutos, os dois carros ocuparam um espaço que não existia para dois. Pneus a milímetros de se roçarem, soltando faíscas invisíveis sob o calor. Asas dianteiras quase se tocando, a menos de um fio de distância.

O clima entre eles parecia ferver, comprimido pela velocidade e pela proximidade mortal. E o mundo ao redor explodiu em caos. Nas arquibancadas de Monza, o rugido da multidão se transformou em gritos de susto e exclamações. Muitos se levantaram num salto, mãos na cabeça, olhos arregalados, incapazes de acreditar no que viam — uma manobra que parecia desafiar todas as regras de segurança e bom senso.

Dentro do capacete, seu olhar permaneceu duro, fixo na curva que se abria adiante. A respiração continuou medida, calma, sem a menor aceleração de nervosismo. Como se nada extraordinário tivesse acabado de acontecer. Como se tivesse deixado uma mensagem clara: naquela pista, havia sim uma linha que separava o controle do desastre… E ele era o único com coragem — ou loucura — suficiente para pisar bem em cima dela.

Tudo pareceu suspenso no tempo — como se o próprio ar tivesse parado de se mover sobre o asfalto quente. A Ferrari de Luca Moretti chegou a inclinar-se para a lateral, já iniciando a manobra de resposta, pronta para invadir o espaço aberto. Mas então hesitou

Ao ver o RB21 cortar a pista de forma tão agressiva, fechando o caminho com uma ousadia que beirava a imprudência, Luca aliviou a pressão no acelerador por instinto. Não era medo, não exatamente. Um risco daquela magnitude não valia o preço de uma colisão que poderia destruir os dois carros e encerrar a corrida de ambos de uma vez. Aquela pequena pausa foi tudo o que bastou. O momento passou.

A silhueta vermelha foi ficando menor, recuando aos poucos para trás, perdendo a chance que não voltaria tão cedo. Ficou distante, reduzida a um ponto no campo de visão, neutralizada por uma jogada que desafiou todas as regras implícitas da pista. Nas arquibancadas, o choque explodiu em gritos — não de comemoração, mas de pura incredulidade. Mãos permaneciam na cabeça, rostos marcados pelo susto, todos tentando compreender como alguém poderia chegar tão perto do abismo sem cair. Pelo rádio, a voz do engenheiro soou de novo, agora mais firme, mais carregada de alerta:

— Jungkook… Isso foi extremamente no limite. Muito além do seguro. Não repita esse tipo de manobra. Entendeu?

O único som que respondeu foi o rugido profundo e constante do motor, vibrando através da estrutura do carro.

— Copiado.

A resposta saiu curta, fria como o aço. Porém não havia nenhuma intenção real de obedecer. Visto que, por trás do visor escuro, ele sabia exatamente o que tinha feito — e, mais importante ainda, sabia que naquele instante nada mais importava no mundo além de uma única coisa:

Continuar na frente. Custasse o que custasse. Dentro da Ferrari, o som do motor já não soava da mesma forma. Luca Moretti mantinha as mãos firmes sobre o volante, mas a pressão dos dedos havia mudado. Não era mais impulso de ataque — era contenção, estratégia, sobrevivência. À sua frente, o RB21 parecia encolher cada vez mais, ficando pequeno nos retrovisores, mas ocupando um espaço enorme dentro da sua mente.

Aquela manobra na chicane continuava repetindo-se como um filme diante dos seus olhos. Não era raiva o que sentia em primeiro lugar. Era puro cálculo. Ele tinha visto o movimento, entendido o recado. Jungkook não tinha apenas defendido a posição: tinha imposto domínio, deixando claro que qualquer tentativa de ultrapassagem seria cobrada no limite do perigo. ´Por uma fração de segundo, ele havia recuado. Não por covardia, mas por decisão. Só que agora, seguindo sozinho pela pista, tudo parecia diferente. O rádio estalou dentro do capacete, trazendo a voz da equipe.

— Moretti, seu ritmo continua estável. Mantenha o segundo lugar, não force além do necessário.

Ele soltou o ar devagar, respirando com calma. Os olhos fixos na reta que se abria à frente. A Ferrari respondia aos comandos, mas já não tinha a mesma agilidade e vivacidade do início. Algo havia mudado depois daquele confronto direto com o carro da frente. Jungkook não era apenas mais veloz. Ele estava ditando o compasso de toda a corrida. Luca apertou o volante com mais força do que antes, os nós dos dedos ficando rígidos sob as luvas.

— Entendi.

A resposta saiu curta e neutra. Mas por dentro, não havia nenhuma aceitação. Apenas uma certeza incômoda que crescia devagar: ele não estava sendo deixado para trás só por causa da velocidade. Estava sendo superado por alguém que simplesmente não sabia perder. E isso, para ele, era muito pior.

A reta seguinte se estendeu à frente, e dentro da mente de Luca, tudo parecia se passar em um silêncio. Ele respirou fundo mais uma vez, enchendo os pulmões, tentando reorganizar cada movimento, cada sensação. As mãos firmes como rocha sobre o volante.

Jungkook já não estava mais ao alcance imediato, não mais na zona onde poderia ser atacado de repente. E essa simples realidade mudava completamente o jogo. Pelo rádio, a voz do engenheiro voltou a soar, calma e objetiva:

— Moretti, mantenha o ritmo. Ainda temos pneus para administrar. O segundo lugar está sólido.

Segundo lugar. Uma posição que, em qualquer outra corrida, traria segurança e satisfação. Mas, a palavra parecia amarga, vazia, sem nenhum conforto. Luca lançou um olhar rápido e preciso ao painel: todos os números estavam corretos, o carro respondia com precisão, a estratégia seguia exatamente como planejada.

E mesmo assim… Isso o incomodava bem no fundo, algo que não se explicava por dados ou velocidade. Não era o resultado final que o perturbava. Era a forma como aquilo tinha acontecido. Ele não tinha ficado para trás por uma falha mecânica, nem por uma decisão errada da equipe, nem por mero azar. Tinha sido superado por alguém que, no instante decisivo, simplesmente decidiu que não aceitaria ser ultrapassado — custasse o que custasse. E a imagem da chicane voltou com força total, nítida como um flash: o RB21 cortando a pista de forma brusca, o espaço reduzido a meros milímetros, a manobra executada sem a menor hesitação, sem o menor receio do que poderia dar errado. Sua mandíbula se apertou até ficar rígida, os músculos do rosto contraindo-se sob a balaclava.

— Tsc…

Um som abafado e carregado de frustração escapou entre os dentes. A corrida ainda tinha muitas voltas pela frente, os pontos estavam garantidos, e haveria outras pistas, outras oportunidades para lutar. Aquele instante havia deixado uma marca profunda.

Jungkook não era apenas rápido. Era agressivo de uma forma que obrigava qualquer adversário a fazer uma escolha dura: ou arriscava tudo até o limite do desastre… Ou recuava. E o Moretti tinha recuado..

Luca pressionou o acelerador novamente, sentindo a potência da Ferrari responder sob seus pés. Dessa vez, sem ilusões de recuperar o que já estava perdido, sem esperanças de uma reviravolta milagrosa. Da próxima vez… Eu não vou hesitar.

As voltas finais deslizaram pela pista com um ritmo firme e meticulosamente calculado, como se o próprio tempo tivesse se ajustado ao compasso do RB21. O carro seguia impecável na liderança, como se tivesse sido moldado exatamente para aquele circuito. Jungkook já não precisava mais testar limites nem arriscar mais do que o necessário; a vantagem que havia construído com tanta determinação ao longo da disputa era tão sólida, tão segura, que transformava cada metro restante em mera formalidade.

Nenhum deslize, por menor que fosse. Nenhuma brecha deixada para o adversário explorar. Apenas controle — sobre o carro, sobre o ritmo e, principalmente, sobre si mesmo. Atrás dele, a Ferrari de Luca Moretti mantinha-se firme no segundo lugar, estável, já distante o suficiente para tornar qualquer tentativa de aproximação ou ultrapassagem completamente impossível. A perseguição havia chegado ao fim; restava apenas conservar uma posição que, na prática, já estava definida naqueles segundos de tensão extrema, na chicane que ainda permanecia viva e nítida na memória dos dois pilotos. Pelo rádio da Red Bull, a voz do engenheiro soou agora mais leve, tranquila e cheia de confiança:

— Duas voltas finais, Jungkook. Trabalho impecável até aqui. Agora é só trazer o carro para casa em segurança. — Dentro do capacete, ele encheu devagar os pulmões com o ar fresco e filtrado, sentindo o peito se encher de uma calma que não vinha da inércia, mas da certeza.

— Copiado.

A resposta saiu direta, como sempre. Dentro de si, algo se movia com uma intensidade que ele não deixava transparecer. Era a confirmação de que tudo tinha saído exatamente como deveria. Cada decisão, cada manobra, cada segundo de pressão havia servido para provar o que ele já sabia: o lugar mais alto era seu.

A última volta começou. A multidão se levantou de uma vez, gritando e agitando bandeiras azuis e vermelhas que tremulavam ao vento quente, enquanto o rugido profundo dos motores ecoava pelas curvas como um último brado de guerra, antes de se render ao silêncio da conclusão.

Ao fundo da longa reta principal, surgiu a bandeira quadriculada. O RB21 cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, com a mesma segurança e firmeza com que havia percorrido todas as voltas anteriores. Porventura, Jungkook não se mexeu de imediato. Segurou o volante por um segundo a mais do que o necessário, sentindo ainda a vibração do motor sob as mãos e o vento passando ao redor da cabine. Respirou devagar, deixando que a adrenalina que corria em suas veias se acalmasse lentamente, dando espaço para algo mais: uma sensação de plenitude, de pertencimento, de dever cumprido.

Atrás dele, a Ferrari de Moretti cruzou a linha em segundo, sem movimentos bruscos, sem tentativas de última hora — apenas a conclusão de uma disputa cujo desfecho já havia sido traçado muito antes do fim. No fone de ouvido, a voz da equipe veio agora carregada de satisfação e orgulho:

— Vitória sua. Trabalho perfeito, Jungkook. Simplesmente perfeito.

Ele finalmente soltou todo o ar que havia retido no peito, deixando escapar uma respiração longa e pesada. Permitiu que um sorriso leve, discreto, mas cheio de significado, surgisse sob o capacete. O sorriso de quem sabe exatamente quem é e qual é o seu lugar. Era a sensação de que cada gota de suor, cada segundo de tensão e cada decisão arriscada valiam a pena, pois serviam para manter o que ele conquistou com tanto esforço.

No fim das contas, nada mudava. O topo da classificação continuava tendo dono. E esse dono era Jeon Jungkook — e ninguém, em hipótese alguma, seria capaz de tirá-lo de lá.

O carro desacelerou lentamente pelo pit lane, ainda quente, ainda vibrando como se não quisesse encerrar aquilo. Jungkook manteve as mãos no volante por alguns segundos a mais do que o necessário. O silêncio dentro do capacete era estranho depois de tantas voltas.

Quando o RB21 finalmente parou no box, os mecânicos já estavam em posição. Um sinal rápido. O motor foi desligado. Por um instante, tudo ficou quieto.

Quieto demais. Jungkook soltou o volante devagar, como se o corpo ainda não tivesse certeza de que a corrida realmente tinha acabado. Desfez os cintos com movimentos precisos, ainda automáticos, ainda presos no ritmo da prova. Respirou fundo. Então abriu a viseira. O ar de Monza entrou de uma vez — quente, pesado e real.

As mãos enluvadas foram direto para o fecho do capacete. Ele puxou o capacete com calma, revelando o rosto suado, o cabelo levemente grudado na testa, expressão ainda marcada pela concentração que não tinha ido embora completamente. Os gritos da torcida explodiram, ecoando por todo o circuito e subindo até o céu azul de Monza.

As câmeras já estavam todas voltadas para ele, lentes focadas, luzes brilhantes e faziam tudo parecer mais intenso. Ao seu redor, pessoas corriam, mecânicos se moviam com agilidade, outros carros desaceleravam.

Jungkook saiu do cockpit com movimentos controlados, apoiando brevemente as mãos na estrutura do RB21, sentindo ainda a vibração do motor que havia acabado de se calar. Pisou no asfalto quente com solidez, todo o seu corpo ainda carregava a marca da corrida: os músculos tensos, a respiração ainda levemente acelerada, os reflexos afiados, como se a velocidade ainda corresse nas suas veias. O suor escorria pela pele, o calor do macacão ainda o envolvia, e cada sensação trazia consigo a lembrança d cada ultrapassagem, cada decisão tomada no limite.

Ele ergueu o olhar devagar, voltando-se para a frente, na direção onde o pódio o esperava. Dentro dele, reinava uma calma, nítida e imutável.

Ele ainda estava no topo. E mais do que isso: ele sabia que esse lugar não era um prêmio recebido por acaso, mas uma posição conquistada, defendida e mantida com toda a sua força. Nada ao seu redor mudava essa verdade. A vitória não era só um resultado na tabela; era a confirmação de quem ele era — e de que, enquanto ele estivesse ali, o lugar mais alto sempre teria o seu nome.

Do outro lado do pit lane, o clima era completamente diferente. Ao redor da Ferrari, tudo seguia em movimento: mecânicos se agrupavam, entrevistadores, câmeras, telas brilhavam com dados finais, rádios ainda chiando com relatos e confirmações da corrida. Para quem estava dentro do cockpit, o tempo parecia ter desacelerado até quase parar.

Luca Moretti ficou imóvel por longos segundos, as mãos ainda firmemente apoiadas no volante, o peito subindo e descendo num ritmo pesado e constante. Respirava fundo, tentando organizar na mente cada curva, cada reta, cada decisão tomada — como se revivesse a corrida inteira para entender exatamente em que momento ela havia escapado de suas mãos.

Quando finalmente desligou todos os sistemas, o silêncio que se instalou dentro do carro o atingiu com força, tão denso que parecia pesar sobre os ombros. Soltou os cintos de segurança um por um, devagar, sem pressa, como se cada movimento exigisse um esforço a mais. Com a ajuda rápida dos mecânicos que já o esperavam, saiu do veículo, sentindo de imediato o calor do asfalto sob os pés.

Depois veio o capacete. Retirou-o com movimentos lentos e calculados junto com a balaclava. No instante em que o plástico se afastou do rosto, o ar mais fresco — mas ainda quente e carregado de cheiro de combustível e borracha — bateu na pele úmida de suor, trazendo consigo o som real do ambiente: gritos da torcida, motores que já se calavam, e o eco distante da comemoração que acontecia do lado oposto da pista.

Luca passou a mão pelos cabelos úmidos, espalhando o suor, enquanto tentava colocar os próprios pensamentos em ordem. Segundo lugar. Um pódio garantido, uma pontuação sólida — algo por que tantos pilotos na Fórmula 1 lutavam durante anos inteiros para alcançar. Não parecia suficiente.

Seu olhar vagou, distante, até encontrar a estrutura do pódio ao longe. Lá estaria ele, Jungkook... No lugar mais alto, mais uma vez. Luca apertou a mandíbula com força, engolindo a sensação incômoda, quase amarga, que crescia cada vez mais forte dentro do peito. Era a comparação nítida.

Restava apenas uma certeza inquieta: aquele segundo lugar não iria doer menos com o passar das horas ou dos dias. Pelo contrário — com o tempo, só ficaria mais claro.

Várias câmeras iam atrás dele, porém, Luca, ignorou todas pela primeira vez. Vozes se cruzavam por todos os lados, mecânicos corriam com tablets nas mãos e números que ainda se atualizavam em tempo real, enquanto o cheiro forte de borracha superaquecida e combustível queimado parecia ficar suspenso no ar quente de Monza. Mas, no meio de toda aquela agitação e movimento constante, havia duas figuras que se destacavam de forma diferente — mais calmas, mais firmes, como se não fossem afetadas pelo caos ao redor.

Rossi. Não era apenas mais um membro da equipe. Era o Rossi. Um dos nomes mais respeitados de todo o paddock, um daqueles profissionais raros que pareciam enxergar defeitos e limitações em um carro antes mesmo que eles se manifestassem na pista. Suas mãos eram uma referência absoluta no esporte: precisas, ágeis e confiáveis ao extremo, a ponto de equipes rivais — Mercedes, Red Bull, McLaren, Audi, Alpine e Aston Martin — já terem tentado contratá-lo inúmeras vezes, oferecendo condições impossíveis de recusar.

Mas Rossi nunca saiu. Era fiel à Ferrari com uma lealdade que poucos ainda mantinham no mundo competitivo da Fórmula 1. Ao lado dele, estava Helena, sua filha. E bastava olhar para ela para perceber que parte daquele talento havia passado de geração em geração. Ela observava o carro e as telas de dados como se decifrasse uma linguagem própria — cada detalhe dos pneus, a perda de aderência, o desgaste das peças, tudo fazia sentido para ela de forma quase natural.

Não estava ali apenas para acompanhar o pai. Estava porque amava aquilo. Porque entendia aquilo... Porque tinha crescido respirando esse mundo. Luca reconheceu os dois assim que se aproximou, ainda sentindo o peso da corrida nos músculos e na mente.

— Vocês estavam demorando — Comentou ele, tentando aliviar um pouco da tensão que ainda carregava no peito.

Rossi fez um leve aceno de cabeça, com a mesma calma de sempre.

— A corrida fala primeiro — respondeu ele, de forma simples e direta, como se fosse uma regra imutável.

Helena cruzou os braços sobre o peito, e seus olhos percorreram Luca da cabeça aos pés, acompanhados de um meio sorriso que parecia ler tudo o que ele não dizia. Luca soltou o ar pelo nariz, deixando escapar um som que parecia um riso cansado e um suspiro ao mesmo tempo.

— Isso é culpa do piloto, não do carro.

Helena inclinou levemente a cabeça, sem perder aquele olhar atento e perspicaz.

— Na Fórmula 1… Nunca é só um ou outro.

Disse Luca. O silêncio familiar e confortável entrou na mesma hora. Rossi apenas observava, em silêncio, como sempre fazia: absorvendo cada palavra, cada expressão, cada detalhe, entendendo tudo sem precisar dizer uma única palavra.

— Mas você foi super bem! — elogiou Helena, com um brilho sincero e vivo nos olhos.

Seu tom era leve, quase animado demais para o clima ainda carregado de tensão que pairava no ar depois de uma corrida tão intensa. Sem esperar por uma resposta, seu olhar se desviou completamente do piloto e se fixou no veículo. Deu alguns passos à frente, aproximando-se da Ferrari com um entusiasmo que não conseguia disfarçar — como se estivesse reencontrando algo que conhecia desde sempre, algo que fazia parte da sua própria história. O sorriso em seus lábios foi se abrindo, largo e espontâneo. Mais atrás, Rossi observava tudo em silêncio.

Já não era mais jovem: os cabelos, quase totalmente brancos, contavam os anos de trabalho dentro dos boxes, e o rosto carregava linhas profundas, marcas de uma vida inteira passada entre motores, ferramentas, barulho e suor. Mas seus olhos continuavam exatamente os mesmos de décadas atrás — atentos, perspicazes e extremamente precisos. E quando se voltavam para Helena, se via no olhar um orgulho imenso, que transbordava sem precisar de palavras. Helena sempre amou os carros. Desde muito pequena, era comum encontrá-la perdida no meio da garagem, sentada num canto ou de pé ao lado do pai, observando cada movimento.

Por muito tempo, o seu sonho foi simples e claro: pilotar. Sentar-se dentro de um cockpit de Fórmula 1, sentir a força do motor nas mãos e descobrir por si mesma o que aquelas máquinas eram capazes de fazer na pista. O tempo, a realidade e as portas fechadas daquela realidade acabaram levando-a por outro caminho. Não para longe do que amava — pelo contrário —, mas para uma forma diferente de estar perto do seu desejo.

Rossi sabia muito bem disso. Esse conhecimento pesava em seu peito, como uma dívida que ele nunca poderia pagar. Se pudesse, daria o mundo inteiro, gastaria cada centavo e usaria toda a sua influência só para ver a filha ocupando aquele lugar, dominando uma máquina como aquela que agora brilhava sob o sol quente de Monza.

Helena passou a palma da mão de leve sobre a lataria vermelha, num toque suave e respeitoso. Seus olhos cor de mel refletiam o contorno do carro com uma admiração que ia muito além da simples curiosidade. Era como se aquele espaço, entre o asfalto e a máquina, fosse o único lugar onde ela realmente se sentisse em casa — onde, de uma forma ou de outra, ela realmente pertencesse.

— Hoje quem vai cuidar do seu carro vai ser minha filha — disse Rossi, com tranquilidade. Luca virou o rosto imediatamente, mas não havia desconfiança nem tensão em seu olhar — pelo contrário, um leve sorriso surgiu no canto da boca.

— Pelo visto a nossa Mini Rossi vai começar a trabalhar de verdade, então — respondeu Moretti, num tom mais leve e descontraído, sem traço de preocupação.

Rossi soltou uma risada baixa e seca, cruzando os braços firmes sobre o peito. Enquanto isso, Helena já se movia ao redor da Ferrari. Seus olhos cor de mel percorriam cada centímetro da lataria, das asas e das rodas como se estivesse lendo um livro aberto, onde cada risco, cada brilho e cada encaixe contava uma história.

— Sim, ela vai — continuou Rossi, acompanhando cada passo da filha com um orgulho contido, mas evidente. — Está indo muito bem na faculdade, e eu mesmo insisti para que começasse cedo… Ela aprende rápido demais para ficar só olhando de fora.

— E, sinceramente… Ela precisava mesmo dessa oportunidade.

Soltou o ar devagar pelo nariz, baixando um pouco o tom de voz.

— Por mais que eu tenha pedido, quase ninguém quis abrir espaço. Mesmo com todos esses anos de trabalho aqui, parece que a minha palavra ainda não vale o suficiente para que olhem para ela com seriedade.

Luca não respondeu de imediato. Apenas voltou o olhar para Helena, que estava completamente concentrada no carro, alheia ao peso da conversa que acontecia a poucos metros. Depois desviou o olhar de volta para Rossi, com uma expressão mais sincera:

— Dentro da Fórmula 1, o talento sempre acaba aparecendo — disse ele. — Acontece apenas que, às vezes, demora um pouco mais até que alguém pare e olhe de verdade.

Rossi assentiu devagar, mas logo seus olhos voltaram a se fixar na filha. E, por um instante, todo o cansaço e a frustração desapareceram, dando lugar apenas a um orgulho imenso — maior do que qualquer dificuldade ou porta fechada.

— Mas ela é melhor do que eu. Isso é fato, não há dúvida — disse Rossi, sem qualquer traço de falsa modéstia, apenas com uma convicção absoluta e tranquila. — Carrega o meu nome… E ainda vai fazê-lo brilhar muito mais do que eu jamais consegui fazer.

Luca ficou em silêncio, sem demonstrar surpresa. Não era algo que soasse exagerado aos seus ouvidos. Apenas concordou com um aceno leve e firme.

— Ela já está construindo o próprio nome aqui dentro da Ferrari — respondeu ele, voltando o olhar para onde Helena seguia completamente imersa no trabalho.

Era especial na forma como ela se movia ao redor da máquina. Não parecia apenas executar tarefas ou cumprir uma rotina. Era como se enxergasse muito além do metal, dos fios e das peças — como se conseguisse sentir o que o carro tinha a dizer, entendendo-o por inteiro, de dentro para fora. Luca respirou fundo, afastando um pouco o cansaço da corrida dos ombros.

— Vou falar com ela.

Deu alguns passos na direção do veículo. Helena estava ao lado da Ferrari, inclinada parcialmente sobre a abertura do cockpit, os olhos cor de mel fixos em cada detalhe do interior, numa atenção que nada mais parecia capaz de interromper. Suas mãos só se moviam quando havia um motivo claro: cada toque, cada aproximação tinha um propósito, nenhum gesto era feito por acaso.

Ela percebeu que alguém se aproximava, mas não desviou o olhar de imediato. Apenas quando terminou de analisar o que precisava, ergueu a cabeça devagar.

— Se vier reclamar da corrida, já adianto: não foi culpa do carro — disparou ela antes mesmo que ele pudesse abrir a boca, com um tom firme e seguro. Luca soltou uma risada curta e sincera.

— Não vim reclamar de nada.

— Isso já é um bom começo — respondeu ela, já voltando o olhar para dentro do cockpit, como se a conversa fosse apenas um detalhe secundário. Ele se aproximou mais um pouco, parando ao seu lado, observando também o interior do veículo.

— Vim ver o que a tal “Mini Rossi” anda fazendo com a minha Ferrari.

Ela finalmente parou o que fazia e olhou para ele de lado, sem perder a postura tranquila e decidida.

— Então está vendo.

— Seu pai tem certeza de que você vai ser melhor do que ele.

Helena deu de ombros, retomando o trabalho com uma precisão quase automática, aquilo já fazia parte do seu próprio ritmo.

— Ele sempre acha muitas coisas.

Luca abriu um sorriso leve, percebendo a discrição dela.

— E você? O que acha?

— Eu só gosto de entender como as coisas funcionam. De saber por que reagem de um jeito e não de outro.

Voltou a ajustar um componente no painel interno, como se a conversa não tivesse tanta importância assim — mas, no fundo, cada palavra dita tinha mais peso do que ela deixava transparecer.

Enquanto na área da Ferrari, Luca Moretti ainda permanecia no paddock, focado na conversa com Rossi e Helena, revisando dados no painel e repassando mentalmente cada curva, cada freada e cada decisão tomada ao longo da prova, o cenário do outro lado já tinha um ritmo completamente diferente.

Na Red Bull, Jungkook já havia encerrado tudo com a sua equipe. Ouviu o resumo final dos engenheiros, confirmou o estado do RB21 e trocou poucas palavras — sempre direto e objetivo.

Quando finalmente se afastou um pouco da agitação dos boxes só para respirar um ar mais livre, não teve tempo de realmente se afastar do clima da corrida. Foi cercado de imediato.

Dezenas de repórteres, equipes de filmagem e fotógrafos já o esperavam. Microfones foram estendidos na sua direção, lentes se apontaram ao mesmo tempo.

Já estava sem capacete há bastante tempo. Os cabelos escuros ainda estavam úmidos e grudados na testa e na nuca, levemente bagunçados pelo vento da pista e pelo calor intenso que havia suportado por mais de uma hora. Passou a mão por eles de forma automática, num gesto rápido e sem exagero, antes de parar diante da área reservada para as entrevistas.

A postura de Jungkook não deixava transparecer nada disso.

— Jungkook! Por aqui! — gritavam de todos os lados. — Mais uma vitória em Monza! Como você descreveria essa corrida tão disputada?

Ele levou o olhar direto para as câmeras, calmo e firme. Sem hesitação.

— Precisa

Os repórteres trocaram olhares rápidos e curiosos, esperando mais detalhes.

— Só isso? Apenas “precisa”? — insistiu uma jornalista, aproximando o microfone mais perto. — Mesmo com a pressão constante que Luca Moretti aplicou durante quase toda a segunda metade da prova?

O nome do rival ecoou, como se carregasse o peso de toda a disputa. Mas a expressão de Jungkook permaneceu a mesma — inalterada, fria e precisa.

— Pressão faz parte da corrida. É só mais um fator a ser administrado.

Outra pergunta veio logo em seguida, mais incisiva:

— E aquela manobra na chicane? Vocês dois passaram a poucos centímetros um do outro, parecia que não havia espaço para nenhum dos dois. Isso foi intencional?

Ele fez uma pausa breve, quase como se a pergunta fosse óbvia demais para exigir uma explicação longa, e inclinou levemente a cabeça.

— Foi corrida.

Mais perguntas se sobrepunham umas às outras — sobre estratégia, desgaste de pneus, velocidade nas retas, escolha de trajetórias — até que uma delas cortou todas as outras:

— Você acha que Moretti realmente chegou a te ameaçar de verdade hoje?

Dessa vez, Jungkook demorou um pouco mais para responder. Seus olhos se moveram levemente, então voltou a encarar as câmeras com a mesma firmeza de sempre.

— Ele fez uma boa corrida.

Fez uma pausa curta, deixando o silêncio crescer, antes de completar com uma certeza que não admitia nenhuma discussão:

— Mas não o suficiente.

— Jungkook! Aqui! Última pergunta!

A voz da jornalista tentava se sobrepor a barulheira constante do paddock, antes que ela pudesse completar a frase, um funcionário da organização apareceu ao seu lado, fazendo um sinal firme e urgente com a mão.

— Precisamos levá-lo para o procedimento do pódio. Agora.

As câmeras continuaram gravando, mas os microfones foram lentamente recolhidos e o foco coletivo começou a se afastar dali. Um dos repórteres ainda tentou insistir, levantando a voz:

— Apenas mais uma pergunta sobre a manobra com Moretti—

Foi interrompido de imediato pela equipe de apoio, que já guiava Jungkook para fora da área de imprensa:

— Sem mais perguntas. Ele precisa seguir.

Jungkook não esboçou nenhuma reação à interrupção. Apenas lançou um último olhar breve e direto para as lentes e microfones à sua frente — um olhar neutro, fechado, sem deixar escapar nenhuma emoção, sem abrir espaço para mais nada. Depois virou o corpo e começou a caminhar.

O caminho que percorria levava diretamente até a área de preparação, o chamado pré-pódio: o espaço reservado onde os três primeiros colocados aguardavam a ordem oficial para subir e receber suas premiações. O som alto da imprensa e das conversas ficou para trás, diminuindo cada vez mais até ser substituído apenas pelo som dos seus próprios passos ecoando pelo corredor.

Enquanto seguia, funcionários da organização passavam ao seu lado com pressa, ajustando detalhes, conferindo ordens, organizando a entrada dos pilotos e alinhando o cronograma da cerimônia.

O pódio de Monza já estava montado, iluminado por um sol que não dava trégua — forte e brilhante, que batia sobre a estrutura elevada e fazia tudo ali parecer maior, mais alto, mais visível para o mundo inteiro. Os três pilotos já aguardavam na área do pré-pódio, em silêncio, cada um com os próprios pensamentos, até que o primeiro anúncio rompesse a espera.

— Terceiro colocado… Mikhail Sokolov!

O piloto da McLaren encheu os pulmões de ar devagar. Por um instante ficou parado: não havia decepção explícita em seu rosto, mas também não havia uma alegria desmedida. Era o olhar de quem sabia que tinha feito uma corrida consistente, segura e sólida, mas que também estava consciente de ter ficado fora da disputa principal pela vitória.

Caminhou até o pódio com passos calmos, sem pressa — apenas com a aceitação tranquila de quem entende o que conquistou. Subiu ao terceiro degrau e acenou para as arquibancadas, mantendo um sorriso leve e contido. Não estava no topo, mas estava satisfeito com o resultado que aquele dia lhe tinha dado. Depois veio o segundo chamado.

— Segundo colocado… Luca Moretti!

O som do seu próprio nome ecoou mais grave e mais pesado do que o anterior. Luca não reagiu de imediato: apenas respirou fundo, fechou por um segundo os olhos e começou a caminhar. A mente carregava uma sensação incômoda e persistente: o gosto amargo do “quase”. Ele tinha estado lá, tão perto, tinha pressionado, tinha testado cada limite e disputado cada metro… Mas não o suficiente para chegar ao lugar que realmente queria.

Subiu até o segundo degrau. Olhou para frente, e depois levantou o olhar até o ponto mais alto — vazio ainda, mas onde sabia que o outro estaria em instantes.

— E agora… O vencedor do Grande Prêmio de Monza!

Imediatamente, a energia do circuito mudou de patamar. O som ficou mais alto, mais vibrante, mais intenso, como se todo o ar tivesse sido puxado para aquele ponto. Red Bull. Jungkook. A porta de acesso se abriu. E ele apareceu.

Caminhou com a expressão ainda séria no início, como se o corpo ainda estivesse preso ao ritmo da corrida, aos reflexos aguçados e à tensão acumulada. Subiu os degraus um por um, até chegar ao topo do pódio, e parou no lugar que lhe pertencia.

Ao seu lado, Sokolov parecia leve e tranquilo, satisfeito com o que tinha conquistado. Do outro lado, Luca permanecia fechado, contido, ainda carregando o peso de ter ficado tão próximo. Três posições, três histórias, três sentimentos diferentes — mas o silêncio de Jungkook dominava o centro de tudo.

Até que um funcionário entregou a garrafa de champanhe. Ele a segurou com firmeza, mas não abriu de imediato. Apenas olhou para ela, precisando absorver cada detalhe daquele momento, a vitória ainda estivesse descendo devagar por cada parte do seu corpo.

Então, girou a rolha. O estouro foi alto rompendo qualquer resto de tensão que ainda restasse. E foi assim que tudo mudou. Toda a máscara de controle caiu de uma vez. O sorriso apareceu primeiro pequeno, quase incrédulo, como se ele próprio estivesse se surpreendendo com o que sentia. Depois foi crescendo, se abrindo, se espalhando pelo rosto — sincero, amplo, real.

Ele riu. De verdade. Sem contenção, sem a frieza que o acompanhava desde a largada. Era um riso misto de alívio e de orgulho, a liberação de toda a pressão, toda a concentração e toda a energia que ele tinha segurado por mais de uma hora de corrida. Virou-se levemente para o lado, ainda sorrindo, e borrifou o champanhe para o alto, fazendo o líquido brilhar sob o sol. Cumprimentou Sokolov com um aceno descontraído e amigável… E voltou o olhar para Luca, no degrau abaixo.

No topo do pódio de Monza, Jungkook não parecia mais apenas o piloto inatingível, frio e imbatível que todos conheciam. Parecia apenas alguém que tinha lutado, superado e vencido…

Sempre o número um.

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