Capítulo 1
Capítulo 1 · 29 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Mais um dia estava terminando. Liam, saindo do escritório, percorria o mesmo caminho que fazia todos os dias ao voltar do trabalho. Ele sempre passava em uma cafeteira; o nome era coffebook. O lugar era um paraíso pra ele, pois ele amava café e livros, e na cafeteria também tinha uma livraria em que os clientes podiam comprar livros, ler ali mesmo tomando seu café, só que, claro, não era só por isso que ele amava esse lugar.
O motivo era Adam, um belo funcionário por quem Liam nutria uma paixão platônica havia um ano. Adam era 100% o seu tipo: um homem alto, com um corpo definido e atlético, cabelos pretos caindo sobre a testa e a nuca, e olhos cor de mel, um amarelo brilhante que fazia Liam sentir como se enxergasse a luz do sol neles. Ele só sabia seu nome por causa do crachá de funcionário; nunca haviam trocado mais do que poucas palavras quando ele fazia seu pedido.
Liam era gay, obviamente. Desde que teve seu primeiro interesse amoroso, já havia descoberto sua sexualidade. Faz um ano que ele se mudou para aquele bairro por causa do trabalho. Ele era administrador de um escritório muito famoso de marketing e propaganda.
Liam era bem-sucedido; havia terminado a faculdade fazia cinco anos e começado nesse mesmo escritório como estagiário, subindo de cargo até chegar à administração, apenas uma posição abaixo do CEO. A empresa abriu uma nova filial e o transferiu para lá. Para ele, aquilo havia sido a melhor coisa que poderia ter acontecido. Conseguiu seu apartamento e conheceu Adam, embora ainda não soubesse o quanto aquele encontro mudaria sua vida. Aliás, Liam acreditava que era feliz apenas admirando-o de longe. Nunca tinha encontrado alguém tão próximo do homem que sempre imaginou. Nem ele mesmo sabia explicar por que gostava tanto de Adam sem sequer conhecê-lo. Não era apenas a beleza surreal; havia algo mais.
Adam chamava atenção por onde passava. Mulheres e homens sorriam para ele, ficavam corados e tentavam chamar sua atenção. Além disso, era um funcionário exemplar, educado e gentil com todos os clientes.
Liam passava horas imaginando quem Adam realmente era. Como agia fora do trabalho? Quais segredos escondia? Como era sua vida amorosa? Aos olhos de Liam, ele parecia o típico homem que todos imaginariam ser um macho alfa: confiante, atraente, hétero e conquistador.
Mas essas respostas estavam fora de alcance. Liam nunca teve coragem de iniciar uma conversa além do necessário.
Sempre que ia à cafeteria, pedia seu café e se sentava na mesa do canto. Às vezes levava um livro; outras, seu caderno. Nele, registrava desejos, conquistas e pensamentos. Também desenhava. Na verdade, desenhava muito bem. Houve uma época em que acreditou que faria faculdade de artes, mas a vida o levou por outro caminho. E sempre fazia desenhos de Adam: de perfil, de costas, sem camisa. Muitas vezes, sua imaginação ia além daquilo que seus olhos realmente conheciam. Desenhava cada traço como se soubesse exatamente como ele era, completando no papel os detalhes que nunca tivera a chance de ver.
Ele tinha terminado mais um desenho quando seu telefone tocou.
— Alô?
Do outro lado da linha estava Emma, sua melhor amiga desde os tempos de colégio, com quem mantinha amizade até hoje.
— Oi, como você está? Faz uma semana que você não manda mensagem. Estava preocupada, achei que você estivesse doente.
— Eu estou bem, andei ocupado com o trabalho. Desculpa não entrar em contato. E você e o Henry, estão bem?
Henry era o marido de Emma e também um dos melhores amigos de Liam.
— Sim, estamos ótimos e com saudade de você. Faz tempo que não nos vemos. O que acha de vir jantar em casa?
— Hoje eu não posso. Vou pra casa agora, estou cansado e amanhã estou atolado de trabalho, mas podemos fazer alguma coisa no fim de semana.
— Não me diga que você está na cafeteria?
— Sim, você sabe que é minha rotina passar aqui.
— Eu sei muito bem que é mais do que rotina. Liam, eu fico preocupada. Você já tem 29 anos, faz um ano que você gosta da mesma pessoa com quem nunca trocou uma palavra além de pedir café e dizer obrigado. Você tem que sair e conhecer pessoas novas. O que acha de a gente ir pra algum bar no fim de semana? A gente te acompanha e te ajuda a achar um cara gato pra você. Não vai ser difícil, já que você também é lindo, o gay mais lindo que eu conheço.
— Você fala isso porque é minha amiga, mas vou pensar no que você disse. Talvez sair um pouco seja bom mesmo.
— Você sabe muito bem que não é só porque eu sou sua amiga. Quanta gente eu já vi interessada em você, homens e mulheres. Desde que estivemos na faculdade. No ensino médio, nem parecia que você ia virar um homem desse.
— É que eu só fui crescer depois do colégio. Quando a gente estudava junto, eu era magro igual um graveto. Depois vieram o trabalho, a faculdade, a bicicleta pra todo lado... Acho que meu corpo mudou por causa disso.
— Seu rosto também evoluiu. Eu queria ter tido um glow up igual ao seu — Emma disse, rindo do outro lado da linha.
— Você também é linda, Emma, você sabe. Mas, enfim, no fim de semana eu te ligo pra gente marcar o lugar e o horário.
— Vou ficar esperando. Você que não me dê um bolo, hein.
— Não vou. Até mais, Emma. Beijo.
Emma também se despediu e desligou.
Após desligar a ligação, Liam passou os olhos pelo reflexo da vitrine. Os cabelos loiros já estavam grandes demais e precisavam de um corte. Os olhos claros pareciam cansados depois de mais um dia de trabalho, mas ele não se importava.
Liam sorriu. Não se considerava tudo isso. Sabia que havia mudado muito desde o colégio. Naquela época era magro demais, com os ossos aparecendo sob as camisetas largas que insistia em usar. Hoje, porém, os anos de trabalho, as longas pedaladas e a rotina corrida haviam moldado seu corpo. Seus ombros estavam um pouco mais largos, os músculos mais definidos, e seu rosto perdera os traços adolescentes que carregava na juventude. Não era musculoso, mas tinha um corpo decente. Tinha 1,80 de altura, o que também chamava a atenção, e a grande maioria das pessoas achava que ele era hétero.
Liam nunca entendeu muito bem o motivo. Talvez fosse o jeito como se vestia ou a forma como agia. Na verdade, aquilo nem o incomodava tanto. O problema era outro.
Aos vinte e nove anos, Liam já havia tido dois relacionamentos sérios, mas nenhum deles deu certo. Também teve alguns casos sem compromisso, porém, ultimamente andava tão ocupado que fazia bastante tempo que não se envolvia com ninguém. Com o passar dos anos, passou a acreditar que encontrar alguém realmente compatível era muito mais difícil do que imaginava.
Pensando nisso, Liam olhou para Adam, vendo-o sorrir e atender os outros clientes. As pessoas o encaravam admiradas, mas ele também era uma daquelas pessoas. Liam pensou: duvido que algumas delas gostem dele há mais tempo do que eu.
Surpreso consigo mesmo ao perceber que aquilo podia ter sido ciúme, Liam riu de si mesmo, sem notar que estava encarando Adam. Então, Adam encontrou seus olhos.
Liam não desviou o olhar. Seu coração começou a bater forte enquanto Adam continuava atendendo os clientes. A atenção dele durou apenas um segundo, mas foi suficiente para fazer seu coração disparar. Era a primeira vez que o encarava daquela forma. Antes, seus olhares já haviam se cruzado por estarem no mesmo ambiente, mas nunca tinham permanecido conectados por mais de um segundo.
Eu tô ficando maluco.
Lembrando das palavras de Emma, Liam pensou que talvez precisasse mesmo sair e tentar conhecer outras pessoas.
Estava na hora de voltar para casa. Liam saiu da cafeteria e, indo para casa, fez o mesmo de sempre. Todos os dias, quando saía da cafeteria, tinha um ritual.
Em silêncio, fazia seu pedido mentalmente:
"Deusa do amor, eu desejo receber o amor de Adam. Que ele seja meu e eu seja dele. Faça ele me enxergar, por favor."
Era ridículo, ele sabia. Ainda assim, repetia aquelas palavras todos os dias, como se, em algum momento, o universo finalmente resolvesse escutá-lo.
Já em casa, depois de tomar banho e jantar, Liam se deitou na cama com um livro nas mãos. Adorava romances. Sempre adorou. No fundo, era um romântico nato. Amava histórias com finais felizes e acreditava que todo mundo merecia um, mesmo que ele não viesse nesta vida.
Naquela noite, Liam adormeceu muito rápido. Quando abriu os olhos, viu que estava em um lugar diferente. Parecia um palácio acima das nuvens. Estátuas de mármore se erguiam por todos os lados, cercadas por vasos ornamentados e flores preciosas que ele jamais havia visto, cada uma mais bela que a outra. O ar era tomado por um perfume floral, adocicado e refrescante, tão agradável que parecia impossível existir na Terra.
Caminhando por um corredor extenso, Liam observou o chão completamente branco, tão polido que quase conseguia ver seu próprio reflexo nele. Olhando para os lados, ele viu uma imensidão azul da cor do céu. Não havia nada além das nuvens e daquele horizonte infinito. Liam franziu a testa e chegou à única conclusão que fazia sentido:
— Só pode ser um sonho.
Seguindo em frente, ele finalmente chegou a uma sala enorme. Era ainda mais surpreendente contemplar a beleza daquele lugar, todo iluminado. Uma brisa fresca acariciava sua pele, enquanto a temperatura agradável tornava o ambiente acolhedor.
"Será que eu morri e vim para o paraíso?", Liam se perguntou.
Olhando para o centro Liam avistou uma mulher com uma beleza surreal, sentada em um divã. Liam nunca havia visto alguém como ela na Terra. Seus longos cabelos prateados caíam suavemente sobre os ombros, enquanto seus olhos eram de um azul tão intenso que pareciam irreais. Era uma cor tão pura e vívida que ele duvidava que algo semelhante pudesse existir no mundo real.
Ele ficou sem palavras. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviu a mulher chamá-lo:
— Olá, Liam.
Liam arregalou os olhos e deu um passo para trás, completamente atordoado.
— Quem é você? O que está acontecendo? Isso é um sonho? Eu morri?
A mulher começou a rir. Sua risada ecoou pela sala como uma melodia celestial, fazendo Liam se sentir estranhamente à vontade.
— Você é engraçado Liam, você me chama todos os dias já faz um ano e não faz ideia de quem eu sou?
Liam ainda tentava entender o que estava acontecendo quando uma lembrança lhe veio à mente. Naquele dia fazia exatamente um ano desde que havia se mudado para a cidade. Também havia sido o dia em que entrou naquela cafeteria pela primeira vez e começou a fazer o mesmo pedido todos os dias.
Seu coração acelerou.
Não...
Era impossível.
O pedido.
Adam.
Todos os dias, ao entrar naquela cafeteria, ele fazia exatamente o mesmo pedido à deusa do amor.
— Você é mesmo real?
— Claro que sou. Essa é a única forma de eu me manifestar. Mas isso não importa agora, Liam. Vamos ao que interessa?
— Claro. Você vai atender ao meu pedido, é isso?
A mulher sorriu.
— Liam, vou explicar como isso funciona. A Deusa do Amor ajuda aqueles que nasceram para ser amantes. Se Adam não for sua alma gêmea, não importa o que você faça, vocês nunca ficarão juntos.
Liam sentiu o coração apertar.
— Então quer dizer que existe a possibilidade de ele não ser?
— Claro que sim. Mas nunca saberemos se não tentarmos, não é?
— Então você vai atender ao meu pedido?
— Digamos que eu vou te dar uma pequena ajuda para que vocês tenham o primeiro contato.
— Mas nós já tivemos o primeiro contato.
A mulher soltou uma leve risada.
— Na cafeteria não vale, Liam.
Liam desviou o olhar, sem graça. Na verdade, sabia que ela estava certa. Adam só falava com ele porque trabalhava na cafeteria. Se não fosse por isso, talvez nem soubesse de sua existência.
— Então, o que eu preciso fazer?
A mulher lançou um olhar de canto antes de responder:
— Nada. Apenas deixe isso com a gente.
Um sorriso travesso surgiu em seus lábios. Apesar da expressão maliciosa, era o sorriso mais lindo que Liam já tinha visto.
A mulher sinalizou para o lado.
Só então Liam percebeu a pequena figura que estava ao lado do divã. Parecia um anjo. Era difícil acreditar no que estava vendo. Assim como a deusa, ele era incrivelmente belo, com cachos dourados e olhos claros que brilhavam suavemente.
O anjo abriu um sorriso e fez uma pequena reverência.
— Pode deixar comigo, minha deusa.
— Prazer em conhecê - lo, aliás qual o nome de vocês?
— Eu sou Vênus, e este é Eros.
Os dois seres divinos sorriram.
Liam ficou de boca aberta. Por um instante, foi incapaz de dizer qualquer coisa.
— Vênus? A deusa do amor?
— A própria — respondeu ela, divertindo-se com a reação dele.
Liam apenas ficou de boca aberta. Não conseguia acreditar que estava diante da Deusa do Amor e de seu filho.
— Então, Liam, não se esqueça do que eu disse. Agora, deixo tudo nas mãos do destino. Desejo-lhe sorte.
— Até o próximo encontro.
Assim que Liam desapareceu, o sorriso de Vênus sumiu.
— Limpe a sua bagunça.
Eros engoliu em seco.
— Mãe...
— Por sua causa tive que me revelar para Liam antes da hora. E se isso não der certo? Você sabe que ainda não era o momento.
O jovem deus abaixou a cabeça.
Naquele mesmo dia, Vênus havia descoberto que Eros descera à Terra sem permissão.
Durante um ano inteiro, mãe e filho ouviram os pedidos de Liam. Talvez por pena, talvez por curiosidade, Eros decidiu interferir por conta própria.
E então cometeu um erro.
Sem autorização, disparou uma de suas flechas em Adam.
Liam não sabia disso.
Não fazia ideia de que tudo havia começado por causa de um acidente.
Agora, sentindo-se culpada pela imprudência do filho, Vênus estava determinada a ajudá-lo a consertar as consequências.
No instante seguinte, Liam abriu os olhos.
Já havia amanhecido.
Liam já estava em seu escritório. Mal havia começado o expediente e uma montanha de documentos já ocupava sua mesa. Entre assinaturas, aprovações de projetos e ordens para sua equipe, o trabalho parecia não ter fim.
Ainda bem que era o último dia da semana. No dia seguinte, ele sairia com Emma e Henry. Os três haviam combinado por mensagem de ir a um bar para comer, beber e se divertir.
Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos.
— Entre — disse Liam.
Oliver abriu a porta e entrou no escritório com uma pasta nas mãos.
— Ah, Liam, preciso que você assine este projeto. O cliente acabou de aprová-lo.
— Achei que ele fosse dar trabalho desta vez.
— E deu. Mas, no fim, ninguém resiste ao meu charme.
Oliver piscou com um sorriso convencido.
— Deixe Owen ouvir isso.
— Ele vai concordar.
Oliver respondeu com uma risada, e Liam não conseguiu evitar rir junto.
Oliver era o único amigo que Liam tinha no escritório. Embora tivesse entrado na empresa um ano depois dele, os dois haviam se aproximado rapidamente.
Na época, Oliver trabalhava como subordinado em sua equipe. Porém, quando Liam foi promovido para a administração, indicou Oliver para assumir sua antiga posição. Além de ser extremamente eficiente, ele era um excelente profissional.
Fora do trabalho, Oliver também era seu único amigo gay. Assim como Emma, Henry e Owen, ele mantinha um relacionamento sério.
Liam tinha apenas quatro amigos próximos.
E os quatro eram casados.
O único solteiro da turma era ele.
— Então, vai fazer alguma coisa no fim de semana? Você está precisando sair um pouco. Ainda está apaixonado pelo cara da cafeteria?
— Por que todo mundo resolveu falar isso para mim esta semana? Emma disse a mesma coisa. Ela sugeriu que fôssemos a um bar neste fim de semana para ver se eu conheço alguém. E sim, ainda gosto do cara da cafeteria. Inclusive, tive um sonho bem estranho sobre isso esta noite.
— E que sonho foi esse?
Liam hesitou.
Não sabia se deveria contar. Tinha certeza de que Oliver não acreditaria nele ou acharia que estava delirando.
Por fim, soltou um suspiro.
— Deixa pra lá.
Oliver arqueou uma sobrancelha.
— É porque estamos preocupados com você. Aposto que Emma também está. Você não pode ficar preso a uma paixão platônica para sempre.
— É, eu sei. Eu vou aceitar sair amanhã. Quer ir com a gente?
— Claro, se você pagar a bebida.
Oliver respondeu em tom de brincadeira.
— Podemos negociar isso. Te mando o endereço amanhã.
— Fechado.
Depois de horas assinando documentos, revisando projetos e resolvendo problemas, o expediente finalmente chegou ao fim.
No caminho para casa, Liam passou na cafeteria, como de costume.
Ao entrar, seus olhos percorreram o balcão automaticamente.
Adam não estava lá.
Liam não estranhou. Afinal, ele também devia ter seus dias de folga.
Ainda assim, pediu seu café habitual. Mas, sem Adam por perto, não havia motivo para ficar observando o movimento ou prolongar a visita. Assim que recebeu o pedido, seguiu para casa.
Liam seguiu para casa e, chegando lá, telefonou para Emma.
— Oi, Emma, tudo bem? Eu pensei no que você disse e aceito sair amanhã. Até chamei o Oliver e o Owen também, se você não se importa.
— Claro que não, você sabe. Que notícia boa! Também estou com saudades deles. E estou feliz que você tenha aceitado. Achei que iria recusar.
— Eu também achei, mas o Oliver me disse a mesma coisa que você. Talvez eu realmente precise sair e conhecer alguém.
— A gente só fala isso porque se preocupa com você. Eu quero ver você feliz e encontrar alguém que goste de você do mesmo jeito que você gosta dele.
— Já entendi. Eu vou tentar, tá bom? No fundo, eu sei que vocês estão certos. Mesmo gostando do Adam, sei que não vai acontecer e não posso continuar preso nisso.
As palavras saíram mais pesadas do que ele esperava. Admitir aquilo doía. Parte dele ainda acreditava que, de alguma forma, Adam acabaria olhando para ele. Mesmo assim, queria tentar seguir em frente. Talvez conhecer pessoas novas fosse exatamente o que precisava.
— Sei que você vai conseguir. E amanhã vista uma de suas roupas mais chiques. Não que você precise se esforçar muito, mas tenho certeza de que algum cara vai se interessar por você.
— Certo, amanhã então a gente se encontra. Pesquise um lugar legal e mande o endereço pra mim e pro Oliver. Você conhece mais lugares do que eu.
— Pode deixar, já vou procurar um lugar e mando pra vocês. Então, até amanhã. Vê se descansa bem, porque amanhã à noite promete.
Emma se despediu animada e desligou.
Liam suspirou depois da ligação, imaginando como seria o dia seguinte. Se aquele sonho havia sido real, alguma coisa deveria acontecer. Ou talvez não. Talvez não fosse amanhã, nem na semana seguinte. Talvez nunca acontecesse.
Mesmo assim, ele havia tomado uma decisão.
No dia seguinte, as horas passaram mais rápido do que Liam esperava. Cortou o cabelo, passou no supermercado para fazer as compras da semana e descansou um pouco. Quando percebeu, já era noite.
Ele se arrumou e se olhou no espelho. Pela primeira vez em muito tempo, gostou do que viu. Liam sabia que era bonito, mas nunca deu muita importância para isso.
Ele chegou ao bar que Emma havia escolhido no horário combinado. O lugar era moderno e elegante. A decoração sofisticada, as luzes suaves e o movimento de pessoas bem vestidas deixavam claro que aquele era um lugar mais caro do que os bares comuns.
— Oi, Liam! Quanto tempo!
Henry viu Liam chegando e imediatamente se levantou para cumprimentá-lo. Emma veio logo atrás e também o envolveu em um abraço.
— Oi, Henry, Emma. Oliver e Owen também já chegaram?
— Ainda não — respondeu Emma. — Mas vamos entrar e esperar por eles lá dentro.
Liam concordou e acompanhou os amigos para o interior do bar.
— Vocês estão lindos. Se arrumaram tanto só pra sair comigo? — Liam perguntou, admirando o casal de amigos.
— Olha quem fala. Você está maravilhoso. Claro que a gente tinha que vir à altura. E não escolhi esse bar à toa. Pelo que me disseram, aqui vive cheio de gays solteiros procurando alguém interessante.
Liam olhou para ela, meio surpreso, e disse:
— Imaginei que você teria levado isso em consideração na hora de escolher o bar.
— Você teria chance em qualquer lugar, se gostasse de mulheres também — respondeu Henry. — Mas a Emma está fora de cogitação.
Logo em seguida, ele se inclinou e deu um beijo rápido na esposa.
Emma e Liam caíram na risada. Henry adorava fazer esse tipo de piada. Além disso, Emma e Liam tinham uma relação tão fraterna que a ideia de qualquer interesse romântico entre eles era simplesmente absurda. Os dois se consideravam irmãos como se fossem de sangue.
Nesse momento, Oliver e Owen chegaram. Os dois também estavam belíssimos. Assim que se aproximaram da mesa, cumprimentaram todos com abraços e sorrisos.
No fim, os casais acabaram sentados um de cada lado da mesa, enquanto Liam ficou na ponta.
— Já que todos chegaram, vamos pedir umas bebidas. Hoje eu não aceito ninguém sair daqui sóbrio.
Emma falou com animação e chamou o garçom.
— Liam disse que ia pagar as bebidas, então eu vou beber até não aguentar mais — disse Oliver.
Liam lançou um olhar para o amigo.
— Ainda estou pensando nisso.
— Se você não fosse pagar, já teria dito não na mesma hora — respondeu Oliver.
Liam acabou rindo. Infelizmente, o amigo estava certo.
— Owen, dá um jeito no seu marido para ele não passar mal depois — avisou Liam.
Owen apenas sorriu.
— Se ele passar mal, eu cuido dele.
Aquilo não surpreendia ninguém. Owen era um amor com Oliver. Mais sério e tímido do que o marido, transmitia uma calma que fazia qualquer pessoa confiar nele.
— Eu realmente não entendo como o Oliver conquistou você — brincou Liam.
— Você sabe muito bem que ninguém resiste ao meu charme — respondeu Oliver, passando a mão pelos próprios cabelos como se estivesse se exibindo.
Todos na mesa caíram na risada.
Depois de um tempo, todos já estavam um pouco bêbados. Liam se divertia contando histórias da época do colégio dele e da Emma. Entre risadas e comentários, todos prestavam atenção e participavam das lembranças. Liam, quando bebia, ficava muito mais falante.
Emma, que sempre observava tudo ao redor, percebeu rapidamente que um homem no balcão não tirava os olhos dele. Discretamente, ela cutucou Liam e se inclinou em sua direção.
— Liam, aquele cara no bar está te encarando faz um tempão. O que acha de ir lá pedir uma bebida? Tenho certeza de que ele vai puxar conversa. E até que é bonito.
Liam seguiu a direção indicada por Emma.
Bonito.
Talvez fosse.
Mas não era Adam.
A comparação surgiu imediatamente em sua mente, antes mesmo que pudesse evitá-la. Ainda assim, o homem estava longe de ser feio.
Liam resolveu tentar. Disse que iria até o bar pagar as bebidas do grupo e pedir mais uma para si.
Assim que se levantou, os amigos começaram a incentivá-lo.
— Boa sorte! — disse Emma.
— E se ele for um babaca, eu soco na cara dele — declarou Oliver.
— Oliver, eu só vou conversar — Liam respondeu, rindo. — Não é como se fosse acontecer alguma coisa.
— Não se preocupe em voltar para a mesa caso role alguma coisa a mais. Eu tomo conta deles — disse Owen com um sorriso tranquilo.
Liam agradeceu e se afastou da mesa. Atrás dele, os amigos continuaram fazendo gestos para que ele fosse logo até o bar.
— Tenho certeza de que aquele cara vai chegar no Liam — disse Emma.
Henry assentiu.
— Eu também acho.
— Só espero que essa noite faça bem para ele — comentou Oliver, surpreendentemente sério. — Mesmo que não dê em nada, já é um começo.
Por alguns segundos, todos concordaram em silêncio.
Então Oliver bateu as mãos na mesa.
— Mas chega de sentimentalismo. Vamos continuar bebendo às custas do Liam enquanto torcemos por ele!
Todos caíram na risada.
Liam chegou ao balcão e acertou a conta, como havia prometido. Aproveitou para pedir mais bebidas para os amigos e um drink para si.
Enquanto aguardava o pedido, ouviu alguém se aproximar.
— Oi.
Ao virar o rosto, encontrou o homem que Emma havia apontado mais cedo.
Liam olhou para ele e o observou por um instante. Era um homem bonito, alto, com cabelos loiros e olhos castanhos. Devia ter aproximadamente a mesma altura que ele e aparentava estar na mesma faixa etária.
Não era lindo como Adam, mas era atraente. E, pela primeira vez em muito tempo, Liam tentou não fazer comparações.
— Ah, oi. Como vai? — disse Liam, demorando um segundo para reagir.
Por um instante, Liam havia ficado perdido nos próprios pensamentos.
— Eu me chamo Josh. E você? Vi que você estava com seus amigos, mas era o único sem companhia. Está solteiro?
— Prazer, Josh. Eu sou Liam. E sim, estou solteiro. Meus amigos insistiram para que eu viesse. Acabei não conseguindo recusar.
— Então, Liam, eu te achei muito bonito. Faz tempo que não vejo alguém tão atraente quanto você — disse Josh, aproximando-se um pouco mais.
Ao falar, tocou de leve a orelha dele.
Liam ficou sem graça. Fazia tempo que alguém flertava tão abertamente com ele. Fazia tempo que não sentia o toque de alguém claramente interessado.
— O que acha de a gente ir tomar um ar lá fora? — sugeriu Josh.
Liam pensou por um instante.
Se eu vim até aqui, preciso pelo menos tentar.
Seu olhar foi automaticamente para a mesa dos amigos. Todos estavam observando a conversa. No momento em que percebeu isso, Henry, Oliver e Owen trataram de desviar o olhar, fingindo estar concentrados nas bebidas.
Emma, porém, nem tentou disfarçar.
Ela sustentou o olhar e levantou o polegar em sinal de aprovação.
Liam precisou conter uma risada. Ele sabia muito bem o que aquele convite significava. Não era inocente, e a forma como Josh o olhava deixava poucas dúvidas sobre suas intenções.
Talvez fosse o álcool. Talvez fossem as palavras de Emma ecoando em sua cabeça.
— Faz tempo que eu não beijo ninguém — admitiu, antes mesmo de perceber que havia falado em voz alta.
Um sorriso surgiu no rosto de Josh.
— Então vamos resolver isso.
Sem soltar sua mão, ele o conduziu para fora do bar.
Assim que chegaram aos fundos do bar, Josh segurou a cintura de Liam e o encostou contra a parede. Sem hesitar, inclinou-se e o beijou.
Liam foi pego de surpresa. Por um instante, pensou em se afastar. Porém, havia prometido a si mesmo que tentaria seguir em frente.
Por isso, correspondeu ao beijo.
Ainda assim, uma parte dele não conseguia deixar de pensar que tudo aquilo estava acontecendo rápido demais.
Liam afastou o rosto por um instante para recuperar o fôlego.
— Calma — disse, tentando sorrir. — Não precisa ser tão rápido assim.
Josh franziu levemente a testa, como se não entendesse a hesitação.
— Mas você veio aqui para isso, não foi? — retrucou. — Você sabia onde isso poderia acabar.
As palavras de Josh deixaram Liam desconfortável por um instante.
Quando Josh tentou beijá-lo novamente, ele ergueu uma das mãos entre os dois e interrompeu a aproximação.
— Calma — disse. — A gente acabou de se conhecer. E, além disso, estamos no meio da rua. Aqui não é lugar para isso.
Liam tentou falar de forma leve, mas queria deixar claro que não gostava de ser pressionado.
Josh deu mais um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre eles.
Liam imediatamente percebeu que a situação estava ficando desconfortável.
Quando Josh tentou beijá-lo novamente, ele desviou o rosto e se afastou o suficiente para encará-lo.
— Não. É melhor eu voltar para dentro.
Desta vez, sua voz saiu firme.
Liam havia vindo disposto a tentar conhecer alguém, mas isso não significava ignorar os próprios limites.
— Agora você quer ir embora? Depois de me deixar assim? — retrucou Josh, irritado. Antes que Liam pudesse reagir, ele segurou sua mão e a pressionou contra o próprio corpo. — Acha que pode brincar comigo só porque é bonito?
O desconforto de Liam aumentou imediatamente.
— Eu não estava brincando com você. Só quero voltar para dentro.
Ele tentou puxar a mão de volta e se afastar, mas Josh continuou segurando seu braço.
Pela primeira vez naquela noite, Liam sentiu que a situação havia deixado de ser apenas um flerte que deu errado.
Seu coração disparou.
Não sabia se devia gritar, correr ou tentar se soltar de qualquer jeito. A única certeza era que queria sair dali.
Foi então que uma voz surgiu atrás deles.
— Acho melhor você respeitar a decisão dele. Ele não quer mais você.
Por um segundo, Liam esqueceu até mesmo o aperto no braço.
Aquela voz.
Ele conhecia aquela voz.
Lentamente, virou a cabeça na direção de quem havia falado.
E seu mundo pareceu parar.
Adam.
De todas as pessoas que poderiam aparecer naquela rua, era Adam quem estava ali.
Josh soltou uma risada debochada, mas Adam já havia segurado seu braço e o afastou de Liam.
— Quem você pensa que é para se meter? — retrucou Josh, furioso.
Adam sequer pareceu intimidado.
— Ninguém. Só alguém que ouviu ele dizer "não" várias vezes.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Então Adam deu mais um passo à frente.
— Agora solte o braço dele. E, se continuar insistindo, eu chamo a polícia.
Josh soltou seu braço com irritação e foi embora resmungando.
Por alguns segundos, Liam permaneceu imóvel.
Tudo havia acontecido rápido demais.
O encontro com Josh. O desconforto. O medo. E, agora, Adam.
— Você está bem? — perguntou Adam.
A voz dele trouxe Liam de volta à realidade.
Seu coração, que já estava acelerado, pareceu disparar ainda mais.
De repente, Liam não sabia o que era mais constrangedor: quase ter sido forçado por Josh ou o fato de Adam ter presenciado toda a situação.
Principalmente porque isso significava que Adam agora sabia.
Sabia que ele era gay.
E, por algum motivo, isso o deixou absurdamente nervoso.
Quase gaguejando, Liam tentou responder.
— S-Sim, estou bem — disse, sentindo o rosto esquentar. — Desculpa você ter presenciado isso. E... obrigado por me ajudar.
Nem ele sabia por que estava se desculpando.
Talvez porque, diante de Adam, de repente tenha esquecido todas as palavras que costumava ensaiar em sua cabeça.
Adam continuava olhando para ele de um jeito que Liam não conseguia entender.
Aquilo só o deixava mais nervoso.
Sem saber o que fazer com as próprias mãos ou para onde olhar, decidiu que o melhor seria encerrar a conversa antes de passar mais vergonha.
— Então, eu acho que vou...
— Eu te conheço — Adam o interrompeu.
Liam congelou.
Por um instante, Liam teve certeza de que havia ouvido errado.
Adam continuou:
— Você é um cliente da cafeteria. Sempre aparece por lá no fim da tarde.
O coração de Liam acelerou.
Então ele realmente sabia quem eu era.
— Sim, sou eu mesmo — respondeu, tentando soar natural.
Por dentro, porém, mal conseguia acreditar.
Porque eu me lembro de você todos os dias, pensou.
— Eu costumo me lembrar dos clientes frequentes — explicou Adam. — Mas você é fácil de reconhecer. Sempre aparece no mesmo horário, bem vestido, pede praticamente a mesma coisa e senta-se naquela mesa do canto.
Liam sentiu o rosto esquentar.
Adam tinha reparado em tudo aquilo.
Liam ainda estava atordoado.
Tudo aquilo parecia surreal demais.
Primeiro Josh. Depois Adam aparecendo do nada. E agora estava ali, conversando com ele pela primeira vez.
Sentindo o nervosismo aumentar a cada segundo, soltou uma risada sem graça.
— Bom, Adam... obrigado por me ajudar. E desculpa por você ter presenciado tudo aquilo.
Adam balançou a cabeça.
— Não é sua culpa que exista gente sem noção por aí.
Liam sentiu um pequeno alívio.
Mas ele durou pouco.
— Aliás... como você sabe meu nome? — perguntou Adam.
Liam congelou.
Merda.
Tinha falado "Adam" tão naturalmente que nem percebeu.
Por um instante, entrou em pânico.
Será que ele percebeu?
— Pelo crachá da cafeteria — respondeu rapidamente.
Adam pareceu refletir por um segundo e então assentiu.
— Verdade.
O coração de Liam finalmente voltou a bater.
Então Adam sorriu de leve.
— Mas eu não sei o seu nome.
— Liam.
— Liam... — Adam repetiu, como se estivesse experimentando o nome.
Por algum motivo, ouvir Adam dizer seu nome fez o coração dele disparar novamente.
Um silêncio estranho pairou entre os dois.
Liam sentia que, se continuasse ali por muito mais tempo, acabaria dizendo alguma besteira.
— Então eu vou indo. Meus amigos devem estar me esperando.
— Eles já foram embora.
Liam piscou, surpreso.
— Como você sabe?
— Porque eu vi vocês lá dentro. Depois saí para fumar e, quando estava voltando, vi o que estava acontecendo.
O coração de Liam afundou.
Então Adam tinha visto mais do que ele imaginava.
— Entendi... — respondeu, sem graça. — Então vou chamar um táxi e ir para casa. Obrigado de novo.
Ele já estava se afastando quando ouviu seu nome.
— Liam.
Ao se virar, encontrou os olhos cor de mel fixos nos seus.
— Se cuida. Até mais.
E então Adam sorriu.
Foi um sorriso simples.
Mas, para Liam, teve o mesmo efeito de um raio.
Seu coração disparou de novo.
Sem coragem de permanecer ali por mais um segundo, virou-se e caminhou até a rua.
O que foi aquele sorriso?
A pergunta ficou martelando em sua mente durante todo o caminho.
Ao mesmo tempo, outra preocupação surgiu.
O que Adam pensaria dele agora?
Depois de um ano imaginando que era invisível para ele, Adam finalmente sabia quem ele era.
E a primeira lembrança que teria dele seria aquela cena constrangedora atrás de um bar. Continua...
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