Zéfiro Vermelho contra o Rei de Xibalba
01 - Do Topo
Capítulo 1 · 3 min de leituraClassificação +13
Observo minha cidade a mais de quarenta metros de altitude, Fortaleza inteira está abaixo de mim. Daqui vejo o beira-mar, todo iluminado, mas desta vez não estou aqui para tocaia. Helicópteros serpenteiam o prédio como moscas, seus holofotes concentrados em mim que não faz menção de fugir.
Dezenas e dezenas de pessoas evacuaram o prédio assustadas com minha presença no topo. Não tiro razão delas, agora hão de ficar apavoradas na presença do homem mais procurado do Brasil.
O meu nome é Thiago Luís Camelo de Moura, Thiago com H para você não errar. Atualmente encontro-me numa posição delicada, extremamente sensível, de canto a canto no estado do Ceará haverá pelo menos quatro televisões ligadas transmitindo à população a face do capacete vermelho do herói que ninguém pediu. Do terrorista urbano que patrulhava as ruas da cidade em busca de gente para bater e dentes para arrancar. Narizes para entortar, ossos para quebrar.
Por debaixo dessa máscara, escondo a verdadeira pessoa por detrás do Zéfiro Vermelho. Muitos especularam quem seria: um bilionário rebelde que construiu sua própria armadura para bater nos pobres? Um demônio saído do inferno para punir pecadores? Um justiceiro miliciano que decidiu desafiar a competência das instituições de segurança do Estado para fazer justiça com as próprias mãos? Talvez um fascista reacionário, como li em alguns perfis?
Lembro de escutar um jornalista questionando: Se ele não é tudo isso, se tudo isso está errado, então quem ele é? Principalmente depois de ter hospitalizado mais de quatro mil pessoas e assassinado Luison, o ex-alfa do cangaço.
Agora aqui estou, no topo de um dos maiores prédios residenciais do Aldeota. Não o maior, daqui posso ver outros tão altos quanto, mas quem se importa com altura quando qualquer queda deles têm o mesmo resultado? Passando dos vinte metros de altura, tamanho não é mais documento. É dessa altura que eu preciso, passando dos cinquenta.
A fila lá embaixo congestionou. Todo este exaspero também engarrafou o trânsito nas ruas adjacentes e pessoas começaram a tentar capturar a minha gravação. Todo o foco em apenas um cara: eu.
Ainda que bufem sobre o Zéfiro Vermelho, aqui retorna uma pergunta que eu enterrei para não me perturbar. Ao longo de toda minha história como o Mosquito, colecionei várias vitórias, decepções, feridas que nunca vou me recuperar. Mas tudo valeu a pena? Quem as viveu foi eu, Thiago? Ou o meu personagem? Jamais consegui um equilíbrio entre o que sou com ou sem a máscara, porque decidi que Thiago não combate o crime, mas o Zéfiro sim. Mas sou o motor para o Zéfiro fazer as coisas, então eu também sou o Zéfiro. A verdade é que se existem duas faces de mim, e uma apenas influencia ou intervém na outra com frequência, as duas estão cansadas.
À beira do precipício, por algum motivo, ainda olhando para o abismo, pareceu-me bastante conveniente reassistir as memórias do que me trouxe a pular daqui. Desde que peguei a pedra vermelha, descobrir quem era o Rei de Xibalba, e matar Luison, até chegar aqui.
Me pergunto o que teria acontecido se eu não tivesse ido visitar a casa de férias de Júnior em julho de 2022.
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