Prólogo
Capítulo 1 · 4 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Cassian...
Eu nunca imaginei que morreria, não porque me considerasse invencível, bem, talvez um pouco. Mas era difícil acreditar no contrário quando se nascia como eu.
Príncipe imperial, filho amado do imperador, e da imperatriz, um tesouro da família real.
Desde pequeno, tudo me foi entregue antes mesmo que eu precisasse pedir.
Se eu gostava de algo, recebia. Se eu não gostava, desaparecia. Se alguém me desagradava, era afastado.
Era assim que o mundo funcionava, ou pelo menos era o que eu acreditava. Por isso, quando ouvi os primeiros sons de explosões ecoando pelo palácio, minha primeira reação não foi medo, foi irritação.
Quem estava fazendo tanto barulho? Eu estava tentando dormir.
Ainda me lembro de abrir a porta dos meus aposentos pronto para exigir explicações, mas ninguém parou.
Criados corriam pelos corredores, guardas passavam apressados, e servos carregavam caixas e documentos, mas nenhum deles sequer olhou para mim. E aquilo me irritou instantaneamente.
- Ei!
Minha voz ecoou pelo corredor, mas ninguém respondeu.
Franzi a testa.
- Eu estou falando com vocês!
Uma criada passou correndo ao meu lado, e eu agarrei seu braço antes que pudesse fugir.
- O que está acontecendo?
Ela ergueu os olhos, e imediatamente arrancou o braço da minha mão e continuou correndo. Sem responder, se desculpar, ou sequer se curvar.
Fiquei parado, aquilo não fazia sentido, eu era o príncipe.
As pessoas não me tratavam daquela forma, ou não deveriam me tratar daquela forma.
Outro estrondo sacudiu as paredes, desta vez mais próximo, uma sensação estranha começou a crescer dentro de mim, era desconfortável.
Como se algo estivesse profundamente errado, como se eu tivesse perdido o controle de uma situação sem perceber.
Caminhei pelos corredores em direção à sala do trono, quanto mais avançava, mais estranho tudo parecia.
Havia sangue no chão, espadas abandonadas, corpos de guardas imperiais.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Logo pensei que aquilo devia ser um erro, porque o Império de Aster não podia cair, meu pai sempre dizia isso.
Nosso exército era poderoso, nossa família era respeitada, nossos inimigos nos temiam, era impossível.
Quando alcancei as portas da sala do trono, senti minhas pernas congelarem.
O salão estava tomado, soldados estrangeiros, nobres ajoelhados, guardas desarmados. Meu pai estava cercado, e minha mãe pálida. Derrotados.
A palavra surgiu em minha mente antes que eu pudesse impedi-la.
- Pai...?
Centenas de olhares voltaram-se para mim e, pela primeira vez na vida, senti algo que nunca havia experimentado.
Ninguém parecia feliz em me ver. Ninguém parecia preocupado.
Era como se eu não importasse, como se minha chegada não mudasse absolutamente nada.
Então eu o vi, sentado no trono imperial. No trono do meu pai.
Kael Valdrik, o rei que iniciou a guerra, o homem que destruiu meu império. Meu sangue ferveu.
- Tire-se daí!
Minha voz ecoou pelo salão.
- Como ousa sentar-se no trono imperial?!
Silêncio absoluto.
Olhei ao redor, esperando que alguém reagisse, atacasse, ou que me apoiasse.
Mas ninguém se moveu, foi naquele momento que comecei a sentir medo, porque, pela primeira vez, percebi algo terrível.
Ninguém se importava com minhas ordens, e meu título não significava mais nada.
Diante daquela situação, Kael me observou por alguns segundos, com curiosidade, como se eu fosse um animal estranho.
Algo digno de estudo.
- Então você é o príncipe Cassian.
Eu odiei o tom dele imediatamente. Era calmo, e controlado, como se tudo já estivesse decidido.
Ergui o queixo.
- Você vai se arrepender disso.
Algumas pessoas desviaram o olhar, outras pareceram conter risadas.
Meu estômago afundou.
Kael inclinou levemente a cabeça.
- Onde estão aqueles que deveriam protegê-lo?
Abri a boca, mas nenhuma resposta saiu. Porque eu não sabia, porque não havia ninguém.
O silêncio respondeu por mim, e o pior foi perceber que todos naquele salão entenderam.
- Entendo.
Foi só isso que ele disse, mas aquelas palavras me atingiram mais forte do que qualquer golpe.
Porque naquele instante eu finalmente compreendi, eu estava sozinho, completamente sozinho.
Meus pais me deram tudo, menos pessoas que realmente gostassem de mim. E agora, diante da morte, não existia uma única pessoa disposta a se levantar por mim.
Quando Kael começou a caminhar em minha direção, senti minhas pernas tremerem, eu estava tão assustado que mal conseguia respirar.
Ele parou diante de mim, seus olhos vermelhos escarlate encontraram os meus.
- Você sabe por que vai morrer hoje?
A pergunta me fez congelar.
- Porque você é um príncipe tirano.
Sua voz permaneceu calma, mas o canto de seus lábios se moveu, quase como um sorriso.
- Você vai morrer porque ninguém pediu por sua vida.
As palavras ecoaram dentro da minha cabeça, e doeram mais do que deveriam, porque eu sabia que eram verdade.
Quando vi a espada se erguer, uma parte infantil de mim ainda acreditou que alguém apareceria, alguém sempre aparecia.
Era assim que minha vida funcionava, mas ninguém veio. E quando a lâmina atravessou meu peito, a última coisa que pensei não foi em vingança, ou ódio.
Foi uma pergunta, se eu tivesse sido alguém melhor...
Alguém teria pelo menos chorado por mim?.