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Destino Escarlate

Capítulo 1: Uma sonho

Destino Escarlate

Capítulo 1: Uma sonho

Capítulo 2 · 6 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Cassian...

A primeira coisa que senti foi dor, uma dor estranha que se espalhou pelo peito. E instintivamente, levei a mão ao lugar onde a espada havia atravessado meu corpo, mas não encontrei sangue, ou ferida.

Abri os olhos bruscamente, o teto familiar dos meus aposentos apareceu diante de mim. Por alguns segundos permaneci imóvel, confuso e desorientado.

Tentando entender o que estava acontecendo, eu estava morto. E eu lembrava perfeitamente, a espada, o sangue, o frio.

Meu coração começou a disparar, sentei-me na cama tão rápido que quase caí.

- O quê...?

Minha própria voz saiu rouca.

Olhei ao redor, analizando o meu quarto, os móveis que eu costumava ter anos atrás, as cortinas azuis que mandei trocar porque as considerava feias e, o vaso de flores que minha irmã mais nova insistia em me enviar toda semana.

Tudo estava exatamente como antes, um arrepio percorreu minha espinha, e eu praticamente me joguei para fora da cama e caminhei até o espelho.

Quando olhei meu reflexo, congelei. Era eu, mas ao mesmo tempo não, meu rosto parecia mais jovem, arredondado.

Meu corpo ainda não possuía a mesma altura, nem os mesmos traços, parecia que eu tinha voltado vários anos no passado.

Fiquei encarando meu reflexo por um longo tempo, até que uma conclusão surgiu. Um pesadelo, tinha sido apenas um pesadelo, um pesadelo absurdamente real.

Suspirei aliviado.

Era a única explicação possível, mortos não voltavam à vida, e pessoas não viajavam no tempo. Eu apenas tive um sonho terrível, ou melhor dizendo um pesadelo horrível.

Fechei os olhos por um instante. Quando os abri novamente, meu reflexo continuava jovem.

Estranho, muito estranho.

Mas continuei repetindo para mim mesmo que aquilo era apenas coincidência, talvez eu tivesse me olhado pouco no espelho ultimamente.

Talvez estivesse exagerando. Talvez...

Era melhor não pensar muito nisso.

—-

Ao longo da manhã, porém, comecei a me sentir cada vez mais inquieto.

Pequenas coisas aconteciam, detalhes, momentos insignificantes, mas que me deixavam desconfortável.

Um guarda tropeçou exatamente no mesmo corredor.

Uma criada deixou cair uma pilha de lençóis exatamente na mesma curva da escadaria.

Um dos jardineiros discutiu com outro usando exatamente as mesmas palavras que eu lembrava ter ouvido, era como se tudo estivesse se repetindo.

Como uma sensação de déjà vu irritante, como se eu já tivesse vivido aquele dia, e essa sensação me acompanhou durante toda a manhã, mas eu me recusei a pensar muito nela.

Afinal, não era com se fosse realmente possível voltar no tempo. Né?! Sem falar que isso significaria que minha morte foi real, e eu não queria acreditar nisso.

Não queria sequer considerar essa possibilidade, por isso continuei meu dia normalmente, ou o mais normalmente possível.

Reclamei do café da manhã. Recusei duas roupas diferentes.

Mandei trocar as flores do meu quarto porque não combinavam com a decoração.

Nada fora do comum, apenas mais um dia normal. Quando chegou a hora do almoço, fui chamado para a refeição familiar, aquilo também era algo comum.

Meu pai insistia que todos os filhos comessem juntos pelo menos uma vez ao dia, segundo ele, fortalecia os laços familiares. E segundo meus irmãos, era apenas uma desculpa para ele controlar nossas vidas, eu tendia a concordar com a segunda opção.

Ao entrar na sala de jantar, encontrei todos já sentados.

Meu irmão mais velho, Adrian, um Alfa, um futuro imperador, educado e responsável. Tudo o que eu não era.

Depois vinha minha irmã mais velha, Selene, uma Ômega elegante e inteligente.

Logo depois eu, o terceiro filho. O único sem um segundo gênero na família imperial.

Depois vinham isabel e Evelyn, as duas princesas mais novas, e também Ômegas.

Lembro-me de quando os médicos anunciaram a minha falta de gênero secundário.

O palácio inteiro entrou em pânico, nenhum membro da linhagem imperial havia nascido sem um gênero secundário a gerações.

Meus pais ficaram devastados, por algum tempo. Depois decidiram compensar aquilo.

Com amor, presentes, dinheiro, permissões especiais, e favores.

Enquanto meus irmãos estudavam política, economia e administração, eu recebia brinquedos caros, enquanto eles aprendiam etiqueta, eu era poupado das aulas, e enquanto eram cobrados por seus erros, eu era protegido deles.

Na época parecia maravilhoso, hoje. Bem. Talvez não tenha sido tão maravilhoso assim.

- Cassian.

A voz da minha mãe interrompeu meus pensamentos.

- Está nos ignorando? - Estou pensando. - Isso é raro.

Isabel respondeu imediatamente, recebendo algumas risadas.

- Engraçadinha.

Ela mostrou a língua, como uma criança, apesar de já ter idade suficiente para casar.

A refeição seguiu normalmente, até que meu pai pousou os talheres, e instantaneamente todos ficaram em silêncio.

Aquilo nunca era um bom sinal.

- Tenho um anúncio a fazer.

Pronto, lá vinha.

- Dentro de algumas semanas receberemos uma visita diplomática importante.

Ninguém pareceu muito surpreso, visitas diplomáticas eram comuns.

- Trata-se do príncipe herdeiro de Valdrik.

Meu corpo congelou, o nome atingiu meu peito como uma martelada. Meu pai continuou falando, mas por alguns segundos mal consegui ouvi-lo.

- O príncipe Kael visitará nosso império em busca de possíveis alianças matrimoniais. Como todos sabem, ele assumirá o trono em breve.

Meu estômago afundou. Kael.

Aquele nome ecoava dentro da minha cabeça. Eu conhecia aquele nome, aqueles olhos escarlates.

Todo voltou de uma vez, aquele pesadelo. Meu coração começou a disparar, aquilo não podia ser coincidência.

- Cassian?

Levantei a cabeça, todos estavam olhando para mim.

- Você está pálido. - Estou bem.

Mentira.

Eu definitivamente não estava bem, porque pela primeira vez comecei a considerar algo impossível.

E se não tivesse sido um pesadelo? E se eu realmente tivesse morrido? E se...

Uma movimentação ao meu lado interrompeu meus pensamentos.

Um dos criados se aproximava para servir minha bebida, ele parecia nervoso, e então aconteceu. A bandeja escorregou, e o copo virou, fazendo o líquido cair diretamente sobre minhas roupas.

O criado empalideceu imediatamente, as mãos começaram a tremer, seus olhos arregalaram-se de puro terror. E eu conhecia aquela cena, conhecia perfeitamente.

Meu coração falhou uma batida, porque aquilo também tinha acontecido, exatamente daquela forma no pesadelo.

Não.

Na minha vida passada. Eu me lembrava de ter me levantado furioso de ter gritado, dos insultos, o homem chorando e fugindo da sala.

Lembrava de ouvir, no dia seguinte, que ele havia pedido demissão, e também lembrava dos comentários que surgiram depois.

"Príncipe mimado." "Príncipe arrogante." "Príncipe insuportável."

Mais uma pequena mancha na minha reputação já horrível. Porém, agora o mesmo está parado diante de mim, tremendo, e esperando, preparando-se para a explosão que certamente viria, porque aquele era o tipo de pessoa que eu era.

A sala inteira aguardava, mas eu apenas fiquei olhando para ele, por um longo momento sem dizer nada, sem gritar, ou me levantar.

O homem parecia ainda mais assustado, como se o silêncio fosse pior.

Por fim, respirei fundo.

- Limpe isso.

Foi tudo o que falei.

O criado piscou confuso.

- S-Sim, Alteza.

Rapidamente começou a recolher a bagunça. Enquanto isso, eu permanecia imóvel, olhando para o vinho espalhado sobre a mesa, sentindo um frio estranho percorrer meu corpo, porque aquela era a prova.

Eu não estava sonhando, e muito menos louco. Aquilo não tinha sido um pesadelo, eu realmente havia morrido. E, de alguma forma impossível, eu tinha voltado.

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