Capítulo 2: Incerteza.
Capítulo 3 · 6 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Cassian...
Se alguém me perguntasse qual foi a pior parte de voltar no tempo, eu não responderia "morrer", e também não responderia "reviver tudo novamente".
A pior parte era a dúvida. Porque, por mais que eu tivesse cada vez mais provas de que havia voltado no tempo, uma parte de mim continuava se recusando a acreditar, era simplesmente impossível.
Então, durante os dias seguintes, passei a observar tudo, absolutamente tudo.
Cada conversa, cada acontecimento, cada pequeno detalhe.
Eu observava os criados, os guardas, e até os nobres. E, dia após dia, as coisas continuavam acontecendo exatamente como eu lembrava.
Uma dama da corte torceu o tornozelo durante um passeio pelo jardim.
Um dos ministros recebeu uma carta do reino do norte e passou o resto do dia reclamando.
Dois criados brigaram por causa de um vaso quebrado.
Acontecia exatamente como eu lembrava. Às vezes com diferenças mínimas, mas sempre igual, era o suficiente para me fazer perder o sono.
Eu acordava durante a madrugada, andava pelo quarto, tentava encontrar alguma explicação lógica. Mas não encontrava, e no fim, só me restavam penas uma conclusão.
Eu realmente tinha voltado, e isso tornava tudo aterrorizante, porque significava que tudo aquilo poderia acontecer novamente.
A guerra, a minha morte e aquela maldita espada. Só de pensar nela, minha mão instintivamente tocava o peito, como se esperasse encontrar a cicatriz, porque parece que meu corpo, ainda se lembrava daquela sensação perfurante.
—-
Enquanto eu lidava com minha própria paranoia, o palácio inteiro mergulhava em uma agitação constante.
Os preparativos para a visita de Valdrik haviam começado.
Criados corriam pelos corredores, jardins eram organizados, salões eram decorados, tapetes eram trocados, e novas flores chegavam diariamente.
Era impossível escapar daquilo. Kael estava vindo, mesmo sem vê-lo, eu sentia sua presença, como uma sombra que se aproximava lentamente. E eu odiava isso, a cada segundo.
Por isso comecei a investigar discretamente os preparativos, não porque estivesse interessado.
Longe disso. Eu queria apenas confirmar que tudo estava acontecendo exatamente como da primeira vez, e estava.
Quanto mais observava, mais certeza tinha, tudo seguia o mesmo caminho e aquilo me deixava inquieto, porque significava que a chegada de Kael também aconteceria. E depois disso, muito mais próxima do futuro que eu conhecia.
Eu estava tão distraído observando alguns servos carregando móveis quando ouvi uma voz familiar atrás de mim.
- Cassian?
Congelei, era a minha mãe.
Virei-me lentamente. A imperatriz sorriu ao me ver, um sorriso bonito, e caloroso, o mesmo sorriso que eu lembrava da minha infância.
Por um momento senti uma pontada estranha no peito. Na minha vida passada, eu nunca tinha dado muito valor àquilo e agora, eu sabia exatamente como ela terminaria.
Executada após a queda do império, a lembrança foi suficiente para me deixar desconfortável.
- Mãe. - Tenho visto você andando por toda parte ultimamente.
Ela se aproximou, observando-me com atenção.
- Está acontecendo alguma coisa? - Não. - Tem certeza? - Sim.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, pensativa. E então seus olhos suavizaram, e eu soube imediatamente que ela havia entendido tudo errado.
- Ah...
Lá vinha.
- Eu sabia que estava te negligenciando.
Pisquei.
- O quê? - Tenho estado tão ocupada com os preparativos da visita que quase não passei tempo com você.
Ah, era isso. Minha mãe suspirou.
- Desculpe, querido.
Antes que eu pudesse reagir, ela me abraçou forte, como se eu ainda fosse uma criança.
- Mãe... - Eu sei, eu sei. Você está chateado comigo. - Não estou. - Está sim. - Não estou. - Está.
Fechei os olhos, ela nem sequer estava me ouvindo, como sempre.
Minha mãe tinha o estranho hábito de decidir o que eu estava sentindo e ignorar qualquer opinião contrária.
- Se quiser, pode participar dos preparativos comigo.
Instantaneamente balancei a cabeça.
- Não.
Ela piscou.
- Não? - Não. - Tem certeza? - Absoluta.
*Por que eu ajudaria? Por que ajudaria a preparar uma recepção para aquele homem?
* Só de pensar em Kael, senti meu maxilar travar.
A imagem voltou imediatamente. Os olhos escarlates, a voz.
"Você vai morrer porque ninguém pediu por sua vida."
Idiota e arrogante. Eu podia jurar que ele devia ter rido depois, talvez tivesse comemorado aquilo como uma piada para seus generais.
Quanto mais pensava nisso, mais irritado ficava.
- Cassian?
Voltei à realidade, minha mãe estava me encarando preocupada.
- Você fez essa cara porque ainda está brava comigo? - O quê? - Eu realmente sinto muito.
Antes que eu pudesse responder, ela voltou a me abraçar.
- Vou compensar você.
Eu suspirei, claro que iria. Sempre foi assim, por eu ser o único filho que nasceu diferente.
- O que você quer ganhar? - perguntou ela. - Nada. - Um cavalo novo? - Não. - Joias? - Não. - Livros? - Também não.
Ela parecia genuinamente chocada.
- Você está doente? - Não. - Tem certeza? - Sim.
Aquilo só a deixou mais preocupada.
—-
Pouco depois, enquanto caminhávamos pelos corredores, aconteceu outra coisa que me fez parar.
Um criado virou uma esquina carregando uma pilha enorme de tecidos. Ele não me viu, e acabou esbarrando diretamente em mim.
Os tecidos caíram no chão, e o homem empalideceu.
- M-Me perdoe, Alteza!
Minha mãe olhou para mim, claramente esperando minha reação.
Na vida passada, eu teria gritado, provavelmente muito. Talvez até exigisse punição, mas agora eu só senti desconforto.
Eu era realmente assim que as pessoas me viam? Como alguém que precisava ser temido a esse ponto?
O criado estava praticamente tremendo. Respirei fundo.
- Está tudo bem.
O homem congelou.
- A-Alteza? - Apenas recolha os tecidos.
Ele me encarou como se eu tivesse enlouquecido.
O criado agradeceu várias vezes antes de praticamente fugir dali, e eu fiquei observando suas costas desaparecerem pelo corredor.
Pensativo, talvez mudar o futuro fosse impossível, se tudo estivesse destinado a acontecer novamente. Talvez exista a menor chance de alterar alguma coisa, e se fosse assim, seria bom eu começar por mim mesmo.
Mesmo que fosse difícil. Seria bom morrer sendo lembrado pelo menos como uma pessoa decente, né?
—-
Os dias continuaram passando, rápidos demais para o meu gosto. E então, chegou a manhã que eu mais temia, o dia da chegada da comitiva de Valdrik.
Abri os olhos antes mesmo do amanhecer, sem conseguir voltar a dormir, meu estômago estava embrulhado.
Meu coração parecia pesado, e a sensação era horrível, como se eu estivesse aguardando uma execução.
Talvez estivesse, porque da última vez que vi Kael Valdrik, eu morri. E, conforme os primeiros raios de sol atravessavam a janela do meu quarto, eu só conseguia pensar em uma coisa.
Desta vez, eu não deixaria aquele homem chegar perto de mim.