Capítulo 3: A recepção.
Capítulo 4 · 5 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Cassian...
Eu não queria estar ali. Essa era a única coisa da qual tinha certeza naquela manhã.
Enquanto os criados terminavam de organizar os últimos detalhes da recepção, eu estava parado ao lado da minha família diante dos portões principais do palácio, tentando ignorar a sensação desagradável que se acumulava no meu estômago.
O vento soprava suavemente pelos jardins, os estandartes imperiais tremulavam, e os guardas estavam alinhados.
Tudo parecia grandiosamente perfeito, exatamente como eu lembrava. E era justamente isso que me incomodava, até aquele momento, uma pequena parte de mim ainda insistia em procurar explicações.
Talvez fosse coincidência, talvez minhas lembranças estivessem influenciando minha percepção, ou talvez eu estivesse enlouquecendo mesmo. Mas agora, eu estava prestes a descobrir a verdade.
- Cassian, endireite os ombros.
A voz da minha mãe soou ao meu lado. Revirei os olhos.
- Eles estão retos. - Não estão. - Estão sim. - Não estão.
Meu pai suspirou.
- Por favor, não comecem.
Normalmente eu teria discutido mais, mas naquele dia, simplesmente permaneci em silêncio, porque minha atenção estava fixa na estrada principal.
Até que finalmente aprimeira carruagem surgiu no horizonte, e depois outra. Meu coração disparou, a comitiva de Valdrik.
As carruagens avançavam lentamente pela estrada de pedra, cercadas por cavaleiros de armaduras negras e prateadas, os estandartes do reino de Valdrik balançavam ao vento.
Quando as carruagens finalmente pararam diante dos portões, senti minhas mãos ficarem frias.
Então a porta da carruagem principal se abriu, e ele apareceu.
Kael. Por um instante, o mundo pareceu parar, ele era exatamente como eu lembrava.
Alto, cabelos negros levemente caídos sobre as suas sobrancelhas. Seus traços tão marcantes, quanto elegantes.
Bonitos de uma forma quase irritante, mas os olhos eram o que chamavam mais atenção.
Olhos vermelhos escarlate, os mesmos olhos que eu tinha visto pela última vez enquanto uma espada atravessava meu peito.
O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões, e foi naquele instante, que toda dúvida desapareceu. Eu não estava sonhando, enlouquecendo, ou confundindo lembranças.
Eu realmente tinha voltado no tempo, porque o homem diante de mim era real.
Senti um arrepio percorrer minha espinha, meu coração parecia querer escapar do peito. Mas obriguei meu rosto a permanecer neutro, eu não daria a ele a satisfação de perceber meu desconforto.
Nem naquela vida, ou em nenhuma outra.
—-
As apresentações formais aconteceram exatamente como eu lembrava, houve troca de formalidades, algumas palavras diplomáticas, sorrisos educados e elogios vazios.
Tudo perfeitamente encenado. Depois disso, a família imperial acompanhou os visitantes até a grande sala de recepções.
O ambiente estava preparado para impressionar, lustres enormes, tapetes importados, e móveis luxuosos. Praticamente um desfile de riqueza, meu pai adorava esse tipo de coisa, mas Kael parecia indiferente, sentado em sua poltrona, observava tudo com uma calma quase irritante.
Eu estava sentado alguns lugares adiante, tentando parecer interessado na conversa. Mas, na verdade, não conseguia parar de observá-lo, talvez porque parte de mim queria ter certeza de que ele era real, e a outra queria encontrar alguma diferença, alguma prova de que aquele não era exatamente o mesmo homem.
Mas não encontrei nenhuma, era ele, sem tirar e nem pôr. O mesmo rosto, a mesma postura, a mesma expressão calma, e o mesmo olhar calculista.
- Sua Alteza.
A voz do meu pai me trouxe de volta à realidade, o imperador sorriu educadamente para Kael.
- Preparamos um itinerário para sua estadia de duas semanas.
Duas semanas, quase revirei os olhos. Ele não ficaria duas semanas, nem perto disso.
- Haverá jantares, eventos sociais, passeios e algumas festividades - continuou meu pai. - Esperamos que isso permita conhecer melhor nossa família e nossas filhas.
Minhas irmãs sorriram educadamente, e Kael inclinou levemente a cabeça.
- Agradeço a consideração. - Além disso, teremos tempo suficiente para discutir possíveis alianças entre nossos reinos e os benefícios que elas podem trazer.
Mentira, na minha vida passada ele foi embora antes mesmo da primeira semana terminar, e não apenas isso. Lembrava perfeitamente das palavras que usou.
"Não vejo vantagem em uma aliança com um reino tão fútil."
Na época aquilo havia gerado uma crise diplomática enorme, e meu pai ficou furioso durante semanas, e minha mãe quase desmaiou de tanta vergonha.
Cruzei os braços, uma semana no máximo, e ainda assim já parecia tempo demais.
Eu simplesmente me manteria longe dele, evitaria os eventos, conversas, qualquer interação, e pronto. Problema resolvido. Ou pelo menos era o que eu pensava, até sentir um olhar sobre mim.
Levantei os olhos, e encontrei os dele. Kael estava me observando.
Meu corpo inteiro enrijeceu, porque aqueles olhos vermelhos permaneceram fixos em mim.
Curiosos, exatamente como eu lembrava.
A mesma expressão da minha vida passada, como se estivesse analisando algo interessante.
Meu estômago se revirou, e desviei o olhar imediatamente, mas a sensação permaneceu. Incômoda e persistente. Era irritante.
Voltei a encará-lo, a penas por um segundo, tempo suficiente para perceber que ele ainda estava olhando. E então desviei novamente.
Eu definitivamente, não queria sua atenção. Quanto menos ele soubesse da minha existência, melhor.
—-
Felizmente, a reunião não durou muito mais tempo. Pouco depois, um homem de aparência séria aproximou-se de Kael, seu chanceler.
- Vossa Alteza - disse o homem. - A viagem foi longa. Talvez seja melhor descansar antes dos eventos desta noite.
Kael assentiu, e se levantou calmamente.
Meu coração apertou involuntariamente, porque, mesmo sabendo que era irracional, toda vez que ele ficava de pé eu lembrava da última vez que o vi fazendo aquilo.
Os membros da corte também se levantaram, as despedidas formais foram trocadas. E, então Kael foi conduzido até seus aposentos.
Observei sua figura desaparecer pelos corredores, e somente quando ele sumiu completamente da minha vista consegui respirar direito outra vez.
Uma semana, no máximo. Era só aguentar uma semana, e depois ele iria embora.
Assim como aconteceu da primeira vez, e eu nunca mais precisaria vê-lo. Pelo menos era isso que eu continuava tentando dizer a mim mesmo.