Capítulo 01 Antes do Eclipse
Capítulo 1 · 13 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Às 6h15 da manhã, o despertador tocou pela terceira vez. Cristian abriu os olhos, mas não se levantou. Ficou alguns segundos encarando o teto, tentando convencer o próprio corpo de que valia a pena sair da cama. O quarto ainda estava escuro. A cortina permanecia fechada e apenas uma pequena faixa de luz atravessava a fresta da janela, anunciando que Belo Horizonte já começava a acordar. O celular continuava vibrando ao lado do travesseiro. Cristian estendeu a mão, desligou o despertador e deixou o aparelho cair novamente sobre o colchão. - Só mais cinco minutos... Ele sabia que não seriam cinco. Seriam dez. Talvez quinze. Até ouvir a voz da mãe do outro lado da porta. - Cristian! Você vai perder a hora! Ele abriu os olhos novamente. - Já acordei! - Você fala isso todo dia! Cristian soltou um suspiro. - Hoje eu acordei de verdade. - Então levanta! - Tá bom! Silêncio. Ele ficou parado por mais alguns segundos. - Cristian! - EU TÔ LEVANTANDO! Dessa vez, levantou. O quarto era pequeno e simples. Uma cama de solteiro encostada na parede, um guarda-roupa antigo, uma escrivaninha que também servia como espaço de estudos e trabalho e um computador que já havia passado da idade de ser chamado de novo. Sobre a mesa havia duas coisas que Cristian parecia incapaz de manter longe uma da outra: contas e café. Uma conta de energia. Uma de internet. Um aviso de vencimento. Um caderno cheio de anotações. E, no canto, uma caneca esquecida da noite anterior. Ele pegou o celular. Havia três notificações. Uma mensagem do bar. Duas cobranças. Cristian fechou as notificações de cobrança sem abrir. Não porque não se importasse. Justamente pelo contrário. Se abrisse, teria que pensar nelas. E ele ainda não tinha dinheiro para resolver nenhuma. - Depois eu vejo isso. Era uma frase que ele repetia com frequência. Depois. Depois ele pagaria. Depois procuraria outro trabalho. Depois ajudaria a mãe. Depois resolveria a situação do Carlos. Depois teria tempo para si mesmo. O problema era que o "depois" de Cristian nunca parecia chegar. Ele vestiu uma camiseta simples, uma calça escura e saiu do quarto. Na cozinha, a mãe já estava preparando o café. - Finalmente. - Bom dia pra você também. Ela olhou para ele por cima do ombro. - Dormiu tarde de novo? - Trabalhei até tarde. - Você precisa descansar. Cristian puxou uma cadeira. - Eu descanso quando puder. - Você sempre fala isso. Ela colocou uma xícara diante dele. - Come alguma coisa. Cristian pegou um pedaço de pão. - Cadê o pai? - Saiu cedo. - De novo? - Disse que precisava resolver umas coisas. Cristian assentiu. O pai fazia isso com frequência. Saía cedo. Voltava tarde. Quando Cristian perguntava sobre o trabalho, recebia respostas vagas. "Coisa do trabalho." "Depois eu explico." "Não precisa se preocupar." Cristian já havia parado de insistir. Ou pelo menos fingia ter parado. A mãe sentou-se à sua frente. - Você recebeu? Cristian parou de mastigar. - Ainda não. Ela baixou os olhos. - Ah. Aquele "ah" dizia mais do que qualquer pergunta. Cristian conhecia a mãe bem demais. - Eu vou dar um jeito. - Eu não falei nada. - Mas pensou. Ela sorriu de leve. - Você puxou seu pai. - Isso é elogio ou crítica? - Ainda estou decidindo. Cristian sorriu. Por alguns segundos, tudo pareceu normal. Era isso que ele gostava naquela cozinha. Mesmo com as contas. Mesmo com o cansaço. Mesmo com os problemas. Ali ainda existia uma sensação de casa. Até Carlos aparecer. O irmão mais velho entrou na cozinha arrastando os pés, ainda com a mesma roupa da noite anterior. Cristian olhou para ele. Depois olhou para a mãe. A mãe fingiu que não viu. Carlos abriu a geladeira. - Tem alguma coisa pra comer? - Bom dia para você também - Cristian respondeu. Carlos ignorou. Pegou uma garrafa de água e bebeu diretamente dela. - Cristian. - Hm? - Você consegue me emprestar trezentos reais? Cristian abaixou o pão. - Não. Carlos franziu a testa. - Nem sabe pra quê. - Porque eu não tenho trezentos reais. - Você recebe hoje? - Não. - Amanhã? - Também não. Carlos fechou a geladeira. - É só até sexta. Cristian soltou uma risada sem humor. - Você falou isso da última vez. - Dessa vez é sério. - Todas as outras também eram. Carlos cruzou os braços. - É uma dívida. - Que dívida? - Não interessa. - Então não tenho. Carlos olhou para a mãe. - Mãe... Ela imediatamente desviou o olhar. Cristian percebeu. - Não coloca ela no meio. - Eu só pedi dinheiro. - E eu disse que não tenho. - Você trabalha. - E daí? Cristian levantou. - Você acha que porque eu trabalho significa que sobra dinheiro? Carlos ficou calado. Cristian respirou fundo. Ele não queria discutir. Não naquela manhã. Não antes de passar o dia inteiro trabalhando. - Eu tenho conta pra pagar, Carlos. - Eu também. - Então paga as suas. Carlos deu uma risada curta. - Você se acha melhor que todo mundo, não é? Cristian ficou olhando para ele. Aquilo doeu mais do que deveria. - Não. Ele pegou a mochila. - Só estou cansado de pagar pelas escolhas dos outros. A mãe levantou. - Cristian... Ele já estava indo. - Eu volto mais tarde. - Leva alguma coisa pra comer. - Eu como no bar. - Cristian. Ele parou na porta. Olhou para a mãe. O rosto dela estava cansado. - Eu vou ficar bem. Ela sorriu. - Eu sei. Mas os dois sabiam que nenhum deles tinha certeza. —- Cristian chegou ao bar pouco antes das quatro da tarde. O lugar ainda estava relativamente vazio. Era assim todos os dias. Aquela pequena tranquilidade antes de a noite começar. Ele abriu a porta dos fundos, entrou e deixou a mochila no armário. - Chegou cedo - disse Marcelo, que estava organizando algumas caixas atrás do balcão. - Você que chegou tarde. - Cinco minutos. - Quinze. - Detalhes. Cristian riu. Colocou o avental, prendeu o cabelo e começou a rotina. Primeiro, conferiu as bebidas. Depois, organizou os copos. Pegou um pano e limpou o balcão. Conferiu as mesas. Recolheu duas garrafas esquecidas da noite anterior. Verificou o caixa. Separou moedas. Conferiu os pedidos que seriam entregues naquela noite. Era uma rotina repetitiva. Mas Cristian gostava dela. Não porque fosse fácil. Era cansativa. Às vezes, irritante. Clientes bêbados eram especialmente difíceis. Mas havia alguma coisa confortável em saber exatamente o que fazer. Ele sabia qual garrafa ficava em qual lugar. Sabia quais clientes pediam sempre a mesma coisa. Sabia que o homem da mesa quatro reclamaria do gelo. Sabia que a mulher que costumava sentar perto da janela pediria uma bebida sem álcool e passaria quase duas horas lendo no celular. Sabia até que Marcelo esqueceria de repor os guardanapos. - Marcelo. - O quê? - Guardanapo. Marcelo olhou para o suporte vazio. - Ah. - Você ia esperar acabar? - Tecnicamente, já acabou. Cristian balançou a cabeça. - Você é impossível. - E você reclama demais. - Porque alguém precisa trabalhar aqui. Marcelo riu. Pouco depois, os primeiros clientes começaram a chegar. Cristian foi de mesa em mesa. Anotou pedidos. Levou bebidas. Recolheu pratos. Limpou mesas. Voltou para o balcão. Um casal discutia baixinho perto da entrada. Dois homens falavam sobre futebol. Um grupo de jovens ria alto demais. Um senhor que frequentava o bar quase todos os dias levantou a mão. - Cristian! - Já sei. - Então sabe o que eu quero? - Sei. Cristian colocou a bebida diante dele. - Você é assustadoramente previsível. O homem sorriu. - É porque você é bom no que faz. Cristian sorriu de volta. - Ou porque o senhor pede a mesma coisa há dois anos. A noite avançou sem que ele percebesse. O movimento aumentou. O bar ficou cheio. A música precisou ser aumentada. Os pedidos começaram a se acumular. Cristian mal teve tempo de olhar o celular. Quando finalmente conseguiu, havia uma mensagem da mãe. "Não esquece de jantar." Ele respondeu: "Não vou." Mentira. Provavelmente comeria alguma coisa quando chegasse em casa. Talvez. Guardou o celular e voltou ao trabalho. Uma mulher reclamou da bebida. Um cliente pediu a conta três vezes. Alguém derrubou um copo. Marcelo pediu ajuda no caixa. Cristian resolveu tudo. Não porque fosse o responsável. Mas porque, de alguma maneira, sempre acabava sendo ele. Quando conseguiu parar por alguns segundos, apoiou as duas mãos no balcão. Sentia os pés doerem. As costas também. Ele olhou para o relógio. 21h03. Ainda faltava bastante para terminar. Cristian soltou o ar devagar. - Só mais algumas horas. Foi quando as luzes piscaram. Uma vez. Duas. Na terceira, apagaram completamente. O bar inteiro ficou em silêncio. - Caiu a energia? Alguém perguntou. Cristian levantou a cabeça. - Deve ter sido. Então veio o barulho. Não parecia uma explosão comum. Foi um estrondo profundo. Tão forte que as garrafas atrás do balcão tremeram. Algumas caíram. O chão vibrou. Cristian se segurou no balcão. - Que porra foi essa? Outro estrondo. Dessa vez, acompanhado de gritos. As pessoas correram para a porta. - Todo mundo pra fora! Cristian não sabia quem tinha gritado. Só sabia que queria fazer exatamente aquilo. Sair. Ele tirou o avental. - Marcelo! - Eu tô indo! Cristian correu para a rua junto com os outros. E então viu. A estação de metrô, algumas ruas adiante, estava cercada por uma fumaça escura. Mas não era fumaça. Havia alguma coisa se movendo dentro dela. Uma luz avermelhada rasgou o céu. O ar pareceu se dobrar. E, no meio da rua, surgiu uma abertura. Um círculo escuro. Como se alguém tivesse rasgado o próprio espaço. Cristian ficou parado. - O que é isso? Ninguém respondeu. Uma criatura atravessou a abertura. Ela caiu sobre um carro. O teto afundou com o impacto. As pessoas começaram a gritar. Cristian sentiu o corpo inteiro gelar. A criatura levantou. Era grande. Grande demais. Tinha braços compridos, pele escura e olhos que brilhavam em um vermelho intenso. Cristian não conseguia respirar direito. - Corre! Alguém gritou. Foi o suficiente. Cristian correu. Não pensou. Não tentou entender. Não tentou ajudar. A única coisa que existia na cabeça dele era uma palavra. Corre. Ele correu junto com a multidão. Pessoas empurravam umas às outras. Alguém caiu. Cristian quase caiu também. - Sai da frente! Um homem bateu no ombro dele. Cristian tropeçou. Caiu de joelhos. Sentiu a palma da mão arder contra o asfalto. - Ai... Olhou para trás. A criatura estava vindo. Ela não corria. Não precisava. Cada passo fazia o chão vibrar. Cristian tentou se levantar. As pernas não obedeceram imediatamente. - Vamos... Ele se levantou cambaleando. Correu novamente. Entrou em uma pequena loja que estava com a porta aberta. - Me deixa entrar! Ninguém respondeu. As pessoas estavam desesperadas. Cristian procurou alguma coisa. Qualquer coisa. Se aquela coisa entrasse ali, ele precisava ter algo. Seus olhos encontraram um cabo de vassoura quebrado. Ele pegou. Olhou para aquilo. - Isso não vai servir pra nada... Mesmo assim, apertou o cabo com força. A criatura passou pela rua. Cristian se abaixou atrás de um balcão. Prendeu a respiração. Ouviu gritos. Vidros quebrando. Um carro sendo esmagado. Alguém chorando. O coração dele batia tão forte que parecia que todos podiam ouvi-lo. Então uma mensagem apareceu diante de seus olhos. Um retângulo translúcido. Flutuando no ar. Cristian piscou. A mensagem continuou ali. [SISTEMA ATIVADO] Ele ficou imóvel. [USUÁRIO IDENTIFICADO] Cristian olhou para os lados. Ninguém parecia reagir. [NOME: CRISTIAN] Sua mão começou a tremer. [CLASSE: INDETERMINADA] [HABILIDADES: EM DESENVOLVIMENTO] - O que... A voz saiu quase como um sussurro. Ele levou a mão ao rosto. Talvez estivesse tendo uma alucinação. Talvez fosse o medo. Talvez tivesse batido a cabeça. A mensagem desapareceu. Cristian respirou fundo. - Eu preciso ir pra casa. Ele saiu da loja assim que percebeu que a criatura havia se afastado. Não olhou para trás. Correu. Correu até os pulmões queimarem. Quando finalmente chegou em casa, suas mãos ainda tremiam. Abriu a porta. - Mãe? Nada. - Pai? Silêncio. Os dois estavam dormindo. Cristian ficou alguns segundos parado no corredor. A casa parecia exatamente igual. O sofá. A televisão desligada. O relógio na parede. As fotografias. Tudo normal. Era quase pior. Ele foi até a cozinha e bebeu água diretamente da garrafa. Depois entrou no quarto e ligou o computador. Pesquisou. Primeiro, sobre a explosão. Depois, sobre a estação. Depois, sobre as criaturas. As notícias começaram a aparecer. Vídeos. Fotos. Relatos. Pessoas falando sobre portais. Monstros. Desaparecimentos. Cristian passou as mãos pelo cabelo. - Não pode ser real. O computador travou. A tela ficou preta. Então uma nova mensagem surgiu. Dessa vez, não era pequena. O texto ocupava quase toda a tela. [VOCÊ FOI SELECIONADO.] Cristian ficou olhando. Outra linha apareceu. [O NOVO MUNDO ESTÁ SENDO INICIADO.] Seu coração acelerou. [CONDIÇÕES DE ASCENSÃO: INDISPONÍVEIS.] [AGUARDE A PRIMEIRA MISSÃO.] Cristian recuou da mesa. - Não. A palavra saiu automaticamente. Ele olhou para a porta do quarto. Pensou na mãe. No pai. Até em Carlos. Pensou na criatura. Na rua. Nas pessoas correndo. Naquele corpo enorme atravessando o portal. Então a mensagem mudou. [MISSÃO INICIAL DISPONÍVEL.] Cristian ficou imóvel. Objetivo: Derrote uma criatura. Recompensa: ??? Ele encarou a tela. - Você só pode estar de brincadeira. Não havia botão para recusar. Não havia opção de ignorar. Apenas uma frase permanecia piscando. [MISSÃO ATIVA.] Cristian sentou na cama. As mãos tremiam. Ele não era um herói. Não sabia lutar. Não tinha poderes. Não sabia o que aquele sistema queria. E, acima de tudo, estava com medo. Muito medo. Mas então ouviu um barulho vindo da sala. Cristian levantou imediatamente. Por alguns segundos, ficou parado. Pegou o cabo de vassoura que ainda segurava desde que fugira da criatura. Caminhou até a porta. Era apenas Carlos, sonolento, indo beber água. - Que cara é essa? - Carlos perguntou. Cristian abriu a boca. Queria contar. Queria dizer que alguma coisa estava acontecendo. Queria perguntar se ele também tinha visto aquelas mensagens. Mas olhou para o irmão e desistiu. - Nada. Carlos deu de ombros. - Estranho. Cristian voltou para o quarto. Olhou para a cama dos pais através da porta entreaberta do corredor. Depois olhou para o sistema. A missão continuava lá. Ele não queria ir. Seu corpo inteiro dizia para ficar em casa. Trancar as portas. Se esconder. Esperar que aquilo acabasse. Mas Cristian já tinha visto o que acontecia quando alguém não estava preparado. Pegou uma mochila. Colocou uma garrafa de água. Uma lanterna. O celular. Um pequeno kit de primeiros socorros. E, depois de hesitar, pegou um velho bastão de beisebol que ficava guardado no armário. Olhou para ele. - Isso é ridículo. Mesmo assim, colocou dentro da mochila. Antes de sair, passou novamente pelo quarto dos pais. A mãe dormia. O pai também. Cristian ficou alguns segundos observando os dois. - Eu volto. Não sabia se estava prometendo a eles ou a si mesmo. Abriu a porta. O ar frio da madrugada tocou seu rosto. A cidade que conhecia parecia a mesma. Mas não era. Ao longe, luzes vermelhas iluminavam o céu. Sirenas ecoavam pelas ruas. E, em algum lugar além dos prédios, alguma coisa rugiu. Cristian apertou a alça da mochila. Seu coração queria voltar. Suas pernas queriam fugir. Mesmo assim, ele começou a caminhar. Não como um escolhido. Apenas como um rapaz assustado tentando descobrir como sobreviver à primeira noite do fim do mundo. E, sem que Cristian soubesse, aquela seria a última vez que sua vida seria apenas sua. Porque o mundo que existia antes daquela noite estava prestes a desaparecer.