Capítulo 02 Primeira missão
Capítulo 2 · 10 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Cristian não sabia quantas vezes pensou em voltar para casa durante o caminho. Talvez dez. Talvez vinte. A cada esquina, seu corpo parecia encontrar um novo motivo para desistir. Uma sirene passava em alta velocidade. Ele se assustava. Uma janela quebrava em algum prédio distante. Ele parava. Um cachorro latia. Seu coração disparava. Era ridículo. Ele sabia que era. Mas, naquela noite, qualquer barulho parecia anunciar que outra criatura estava prestes a aparecer. Cristian apertou o cabo do bastão de beisebol dentro da mochila. Não era uma arma de verdade. Não contra aquelas coisas. Mesmo assim, segurá-lo fazia com que se sentisse um pouco menos indefeso. O caminho até a estação, que normalmente levaria pouco mais de dez minutos, parecia interminável. As ruas estavam diferentes. Algumas lojas haviam fechado às pressas. Portas permaneciam abertas. Carros estavam abandonados no meio da rua. Uma motocicleta estava caída na calçada. Havia vidro espalhado pelo chão. E, em alguns lugares, manchas escuras que Cristian preferiu não olhar por muito tempo. Ele respirou fundo. - Só preciso descobrir o que está acontecendo. Era mentira. Ele não acreditava que encontraria uma resposta. Mas precisava dizer alguma coisa para si mesmo. Quando chegou perto da estação, parou. O lugar estava irreconhecível. Parte da entrada havia desabado. Uma fumaça escura saía de dentro do metrô. As luzes de emergência piscavam. Vermelho. Escuro. Vermelho. Escuro. Cristian ficou atrás de um carro abandonado. Observou. Havia pessoas escondidas. Algumas choravam. Outras tentavam ligar para familiares. Um homem segurava o braço ensanguentado enquanto uma mulher pressionava um pedaço de tecido contra o ferimento. Cristian engoliu em seco. Ele queria ir embora. Queria fingir que nunca tinha visto aquela mensagem. Queria acordar no dia seguinte e descobrir que tudo aquilo havia sido apenas um pesadelo. Então o Sistema apareceu novamente. [MISSÃO INICIAL] Objetivo: Derrote uma criatura. Localização: Estação de metrô. Recompensa: ??? Cristian fechou os olhos. - Eu odeio você. Nenhuma resposta. - Não, sério. Eu realmente odeio você. Nada. Ele passou a mão pelo rosto. - Claro. A única coisa pior do que enfrentar uma criatura era enfrentar uma criatura sem saber sequer o que deveria fazer. Cristian saiu de trás do carro. Deu dois passos. Parou. - Talvez eu consiga encontrar uma criatura pequena. Ele olhou para dentro da estação. - Uma bem pequena. Um rugido respondeu. Cristian congelou. - ...Ou não. Algo bateu contra uma das paredes internas. BOOM. Cristian deu um passo para trás. Outro impacto. BOOM. A estrutura tremeu. Então uma criatura atravessou uma das portas de vidro. Cristian reconheceu imediatamente. Era semelhante à que havia visto antes. Mas aquela parecia maior. Tinha o corpo coberto por placas escuras, como se sua pele tivesse se transformado em uma espécie de armadura natural. Os braços eram longos demais e terminavam em garras curvas. Ela levantou a cabeça. Os olhos vermelhos percorreram a rua. Cristian ficou imóvel. A criatura olhou diretamente para ele. - Não. Ela avançou. Cristian virou e correu. - NÃO! Ele disparou pela rua sem sequer pensar. A criatura veio atrás. Os passos dela eram pesados. Rápidos. Cada impacto fazia o chão vibrar. - Socorro! Cristian olhou para trás. Erro. A criatura estava muito mais perto. - Merda! Ele virou novamente e correu ainda mais. Seus pulmões começaram a arder. As pernas doíam. A mochila batia contra suas costas. Ele não era atleta. Nunca tinha sido. Naquele momento, porém, corria como se a própria morte estivesse atrás dele. Porque estava. Cristian entrou em um estacionamento. Virou entre dois carros. Escorregou. Caiu. - Agh! O bastão saiu da mochila e rolou pelo chão. Ele tentou alcançá-lo. A criatura entrou no estacionamento. Cristian ficou de joelhos. Olhou para o bastão. Depois para a criatura. - Vamos... Ele se esticou. A mão quase alcançou. A criatura avançou. Cristian conseguiu agarrar o bastão no último segundo. Levantou-se e golpeou. TUM! O bastão acertou o braço da criatura. Cristian ficou olhando. A criatura olhou para ele. Nenhum dos dois pareceu impressionado. - Tá... Cristian engoliu em seco. - Isso não funcionou. A criatura abriu a boca. Um som grave saiu de sua garganta. Cristian recuou. - Eu sei. Eu também achei humilhante. Ela avançou. Cristian levantou o bastão. Dessa vez, não para atacar. Apenas para tentar se proteger. A garra veio em sua direção. Cristian fechou os olhos. E, por um instante... Tudo ficou escuro. Não apenas ao redor dele. Dentro dele. Como se alguma coisa tivesse puxado seu corpo para um lugar onde não existia som. Nem dor. Nem medo. A garra passou onde seu corpo deveria estar. Cristian abriu os olhos. Estava a alguns metros dali. Atrás de um carro. Ele ficou parado. - O quê? Olhou para as próprias mãos. Depois para o lugar onde estava segundos antes. A criatura também parecia confusa. Cristian respirou rapidamente. - Eu... Uma mensagem surgiu diante de seus olhos. [HABILIDADE DESBLOQUEADA] CAMINHANTE DAS SOMBRAS Descrição: Permite ao usuário deslocar-se através de áreas sombreadas. Cristian encarou a mensagem. - Eu fiz isso? A criatura rugiu. - Tá. Depois eu comemoro. Ela avançou novamente. Dessa vez, Cristian percebeu. As sombras no chão. As sombras dos carros. As sombras dos prédios. Elas pareciam diferentes. Mais profundas. Como se estivessem esperando por ele. Cristian não sabia como usar aquilo. Mas sabia que, quando estava prestes a morrer, seu corpo havia feito sozinho. Então tentou repetir. A criatura saltou. Cristian se jogou para o lado. Nada aconteceu. - Vamos! A garra passou raspando pelo seu braço. Uma dor quente percorreu sua pele. Cristian gritou. - CAMINHANTE DAS SOMBRAS! Nada. A criatura virou. Cristian correu. Tentou novamente. - Vai! Nada. A criatura o alcançou. Cristian tropeçou. Caiu de costas. A criatura levantou a garra. Foi então que uma luz dourada atravessou o estacionamento. CRASH! A criatura foi lançada para o lado. Cristian ficou olhando, sem entender. Um rapaz estava parado alguns metros à frente. Ele segurava uma espécie de espada formada por luz. Cristian piscou. - Quem é você? O desconhecido não respondeu. Manteve os olhos na criatura. - Fique atrás de mim. Cristian quase riu de nervoso. - Você quer que eu fique atrás de você? - Sim. - Eu nem sei quem você é! - E você prefere ficar na frente dela? Cristian olhou para a criatura. - ...Não. O rapaz sorriu de leve. - Então fique atrás. A criatura avançou. O rapaz levantou a espada. A luz explodiu. Cristian foi obrigado a cobrir os olhos. Quando tornou a enxergar, viu o desconhecido lutando. Ele era rápido. Muito rápido. Cada movimento parecia calculado. A espada de luz atingia a criatura e a fazia recuar. Mas não era suficiente. A criatura resistia. Cristian observava, ainda tentando entender o que estava acontecendo. - Você também é uma criatura? O rapaz desviou de uma garra. - Você pode dizer que sim. - "Pode dizer"? - Depois explico. - Todo mundo nessa cidade está falando "depois explico"! A criatura atacou novamente. O rapaz bloqueou. O impacto fez seu joelho tocar o chão. Cristian percebeu que ele também estava começando a perder forças. - Ei! O rapaz olhou rapidamente para ele. - O quê? - O que eu faço? - Use suas sombras. Cristian ficou imóvel. - Minhas o quê? - Suas sombras. - Eu não sei usar isso! - Você acabou de usar. Cristian olhou para o chão. A criatura avançou. O rapaz tentou bloqueá-la. Não conseguiu. Foi arremessado contra um carro. Cristian sentiu o medo voltar. Ele queria correr. Mas não conseguia. Não dessa vez. Porque aquele desconhecido havia acabado de salvá-lo. Cristian apertou o bastão. Olhou para a criatura. Depois para as sombras. Respirou. - Certo. Fechou os olhos. Tentou lembrar da sensação. Aquele instante. O momento em que seu corpo desapareceu. O frio. O silêncio. A sensação de cair sem sair do lugar. Nada. Cristian abriu os olhos. - Vamos... A criatura levantou a garra. Cristian sentiu o desespero crescer. - Por favor... A sombra sob seus pés se moveu. Cristian arregalou os olhos. - Ah. A criatura avançou. Cristian desapareceu. Por um segundo, o mundo deixou de existir. Então ele reapareceu atrás dela. O bastão acertou a parte de trás da cabeça da criatura. Não causou muito dano. Mas foi suficiente para fazê-la virar. Cristian também não perdeu a oportunidade. - Agora! O rapaz entendeu. Sua espada dourada atravessou o peito da criatura. Ela rugiu. Cristian sentiu alguma coisa dentro dele responder. Uma pressão. Uma voz. Não uma voz que vinha de fora. Era como se alguém sussurrasse dentro da própria alma. Mate. Cristian recuou. - Não. A sombra ao redor de seus pés se espalhou. A criatura tentou se levantar. Cristian ouviu novamente. Mate. Ele apertou os olhos. - Cala a boca. O rapaz olhou para ele. - Cristian? Cristian abriu os olhos. - Como você sabe meu nome? O rapaz ficou em silêncio por um instante. Antes que pudesse responder, a criatura rugiu. Cristian sentiu a pressão aumentar. A sombra subiu por seu corpo. Passou pelos braços. Pelo peito. Pelo pescoço. Seus olhos ficaram escuros por um instante. E então sua voz saiu diferente. Mais profunda. Mais distante. - Ajoelhe-se. O ar mudou. A criatura congelou. O rapaz também. Uma onda de energia sombria atravessou o estacionamento. A criatura começou a tremer. Cristian sentiu medo da própria voz. Não sabia o que havia acabado de fazer. Mas sabia que aquilo não era normal. A criatura caiu de joelhos. As sombras a envolveram. Cristian ergueu a mão. - Eu... Ele não terminou. A energia desapareceu. A criatura caiu. Silêncio. Cristian ficou olhando. Seu peito subia e descia rapidamente. O rapaz se aproximou devagar. - Você está bem? Cristian não respondeu. Continuava olhando para as próprias mãos. - O que foi isso? - Uma habilidade. - Eu não pedi por isso. - Eu sei. Cristian levantou os olhos. - Quem é você? O rapaz estendeu a mão. - Thales. Cristian olhou para a mão estendida. Não a segurou imediatamente. - Você já sabia quem eu era. Thales abaixou lentamente a mão. - Sabia. - Como? Thales olhou para a criatura caída. Depois voltou os olhos para Cristian. - Porque eu estava procurando você. Cristian sentiu um arrepio. - Por quê? Thales demorou alguns segundos para responder. - Ainda não é seguro conversar aqui. Como se o próprio mundo tivesse esperado aquela frase, o Sistema apareceu novamente. [MISSÃO CONCLUÍDA] Cristian arregalou os olhos. [RECOMPENSA RECEBIDA] +10 XP +1 HABILIDADE BÁSICA Ele respirou fundo. Então outra mensagem apareceu. [HABILIDADE: VOZ DA ESCURIDÃO] Status: Desbloqueada Cristian ficou em silêncio. Thales observava a expressão dele. - Você recebeu? - Recebi. - Então agora você sabe. - Sei o quê? Thales olhou para o céu. Ao longe, outros portais começavam a surgir. Um. Dois. Três. A cidade inteira parecia estar se transformando. - Que aquela criatura não era o pior que estava vindo. Cristian sentiu o estômago afundar. - Como assim? Thales voltou a olhar para ele. - Essa foi apenas a sua primeira missão. Cristian apertou o bastão. - E você sabe o que vem depois? Thales não respondeu. Apenas caminhou em direção à saída. Depois de alguns passos, parou. - Se quiser sobreviver, Cristian... Ele olhou por cima do ombro. - Pare de tentar entender tudo sozinho. E desapareceu na escuridão da rua. Cristian ficou parado. Sozinho novamente. Ou quase. Porque, diante de seus olhos, uma última mensagem apareceu. [ATENÇÃO] [USUÁRIO CRISTIAN IDENTIFICADO COMO ANOMALIA.] Cristian franziu a testa. - Anomalia? A mensagem desapareceu. Mas aquela palavra permaneceu. Anomalia. E, pela primeira vez desde que tudo começou, Cristian teve a sensação de que talvez o Sistema não tivesse escolhido a pessoa certa. Talvez tivesse escolhido a pessoa errada. Ou talvez... Tivesse escolhido exatamente quem queria.