Capítulo 03 O estranho
Capítulo 3 · 16 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Cristian continuava parado. O corpo da criatura estava alguns metros à sua frente, imóvel. Por alguns segundos, ele não conseguiu fazer mais nada além de respirar. Seu peito doía. As pernas tremiam. As mãos estavam suadas e ainda apertavam o bastão com tanta força que os dedos começavam a doer. Ele olhou para a criatura mais uma vez. Ela realmente estava morta. Cristian engoliu em seco. Até aquela noite, a coisa mais perigosa que ele costumava enfrentar era uma conta atrasada, uma discussão com Carlos ou um cliente mal-humorado no bar. Agora havia acabado de lutar contra um monstro. E, de alguma forma, tinha sobrevivido. - Eu... matei isso? Sua voz saiu baixa. Ele não esperava uma resposta. Mas ouviu: - Sim. Cristian virou o rosto imediatamente. Thales estava parado alguns metros atrás dele. Calmo. Calmo demais. A espada que havia usado durante a luta estava abaixada ao lado do corpo. Cristian ficou olhando para ele. A pergunta veio antes mesmo que pudesse pensar direito. - Quem é você? Thales levantou os olhos. - Meu nome é Thales. Cristian franziu a testa. - Eu sei. Ele apontou o bastão para o rapaz. - Estou perguntando quem você é. Thales permaneceu em silêncio. Cristian respirou fundo. Agora que o perigo imediato havia passado, sua cabeça começava a juntar as peças. Aquele cara tinha aparecido do nada. Sabia lutar. Sabia o que aquela criatura era. Não parecia assustado. E, principalmente... Tinha chamado Cristian pelo nome. - Como você sabia que eu estava aqui? Thales desviou o olhar por um instante. Foi rápido. Mas Cristian percebeu. - Eu estava procurando você. Cristian sentiu o estômago apertar. - Por quê? - Porque eu precisava encontrar você antes que fosse tarde demais. - Tarde demais para quê? Thales não respondeu. Cristian soltou uma risada nervosa. - Ótimo. Ele passou a mão pelo cabelo. - Monstros aparecem do nada, um sistema começa a falar comigo, eu quase morro e agora um estranho aparece dizendo que estava me procurando, mas não quer explicar o motivo. Thales ficou observando-o. - Você não deveria confiar em mim. Cristian parou. - Pelo menos nisso nós concordamos. Pela primeira vez, Thales pareceu quase sorrir. Mas o sorriso desapareceu rapidamente. - Eu não espero que confie. Cristian abaixou um pouco o bastão, mas continuou segurando-o. - Então por que me ajudou? Thales demorou para responder. - Porque você não estava pronto. - Para quê? - Para isso. Thales fez um gesto discreto em direção à estação destruída. Cristian olhou ao redor. As paredes estavam rachadas. Os vidros espalhados pelo chão refletiam as luzes que ainda piscavam no teto. Havia marcas profundas nas paredes, como se alguma coisa tivesse arranhado o concreto. E o cheiro de fumaça ainda permanecia no ar. Cristian sentiu um arrepio. - Você fala como se já tivesse passado por isso. - Já. - Há quanto tempo? - O suficiente. Cristian estreitou os olhos. - Você percebe que isso não é uma resposta, né? - Percebo. - E vai continuar fazendo isso? - Provavelmente. Cristian bufou. - Você é irritante. Thales deu de ombros. Cristian voltou a olhar para a própria mão. Ainda sentia aquela sensação estranha. A sombra. Aquela voz. A ordem que havia surgido dentro de sua cabeça. Mate. Ele não sabia se aquilo tinha sido realmente uma voz ou apenas o medo falando. Mas sabia que alguma coisa havia acontecido. - Aquilo... Thales o observou. - O quê? Cristian hesitou. - Quando eu estava lutando. Thales não respondeu. - Eu ouvi uma voz. O olhar de Thales mudou. Foi quase imperceptível. Mas Cristian percebeu. - Que voz? - Não sei. Cristian apertou os lábios. - Ela mandou que eu matasse a criatura. Thales ficou em silêncio. Cristian imediatamente percebeu que aquela reação significava alguma coisa. - Você sabe o que foi. - Talvez. - Thales. - Cristian. Os dois se encararam. Cristian percebeu que não conseguiria arrancar uma resposta dele daquele jeito. Então decidiu mudar de pergunta. - Você sabe o que está acontecendo? Thales respirou fundo. - Sei algumas coisas. - E vai me contar? - Não tudo. Cristian soltou uma risada sem humor. - Claro. Ele olhou para a saída da estação. Precisava ir embora. Precisava ver os pais. Precisava descobrir se Carlos estava bem. Precisava... pensar. De preferência longe daquele lugar. Começou a caminhar. - Aonde você vai? - perguntou Thales. - Para casa. - Não acho que seja seguro. Cristian parou. - Minha família está lá. - Então eu vou com você. Cristian virou lentamente. - Não. Thales pareceu surpreso. - Não? - Você não vai para minha casa. - Cristian... - Eu não conheço você. Ele apontou para a espada. - Você apareceu no meio de uma estação destruída, sabe lutar contra essas coisas e diz que estava me procurando. Desculpa, mas isso não é exatamente o tipo de pessoa que eu convido para conhecer minha família. Thales ficou alguns segundos em silêncio. Então assentiu. - Justo. Cristian esperava uma discussão. Não veio. Aquilo o deixou ainda mais desconfiado. - Você vai simplesmente aceitar? - Por enquanto. Cristian estreitou os olhos. - Por enquanto? Thales não respondeu. Cristian começou a andar novamente. Dessa vez, Thales não o acompanhou. Antes de sair, Cristian olhou para trás. - Thales. - Sim? - Se você realmente estava me procurando... Ele hesitou. - Não faça isso de novo. - O quê? - Aparecer do nada e agir como se soubesse mais sobre a minha vida do que eu. Thales o encarou. - Vou tentar. Cristian não gostou da resposta. Mas não tinha energia para discutir. Saiu da estação. —- Do lado de fora, Belo Horizonte parecia outra cidade. As ruas estavam cheias de pessoas. Algumas corriam. Outras gritavam ao telefone. Havia carros parados no meio da avenida, buzinas tocando sem parar e sirenes espalhadas pela cidade. Cristian caminhou sem saber exatamente para onde olhar. Naquela manhã, ele havia acordado preocupado com dinheiro. Tinha discutido com Carlos. Tinha trabalhado no bar. Tinha reclamado do cansaço. Tudo parecia tão normal. Agora... Nada parecia normal. Ele caminhou alguns metros e parou. Olhou para o céu. As nuvens escondiam parte das estrelas. Por um instante, Cristian teve a sensação de que havia alguma coisa enorme por trás delas. Algo que ele ainda não conseguia enxergar. Ele balançou a cabeça. - Estou ficando maluco. Continuou andando. A cada passo, a pergunta voltava. Quem era Thales? E, mais importante: Por que ele estava procurando justamente por Cristian? Ele não tinha respostas. Só tinha uma certeza. Aquele estranho havia salvado sua vida. Mas isso não significava que ele fosse seu amigo. Talvez, naquele novo mundo, uma das primeiras coisas que Cristian precisasse aprender fosse justamente aquela: sobreviver também significava saber em quem não confiar. Cristian continuou caminhando. Tentava manter os olhos na rua, mas era impossível ignorar o caos ao redor. Pessoas se amontoavam nas calçadas. Algumas choravam. Outras tentavam ligar para familiares. Havia carros abandonados no meio da avenida e sirenes que pareciam vir de todos os lados. Cristian apertou o celular na mão. Precisava chegar em casa. Precisava ver sua mãe. Seu pai. Até Carlos. Por mais irritante que o irmão fosse, naquele momento Cristian só queria ter certeza de que todos estavam vivos. Foi quando percebeu que as pessoas ao redor começaram a parar. Uma mulher apontou para cima. - Olha! Cristian levantou o rosto. Um dos enormes telões instalados em um prédio comercial havia deixado de transmitir propagandas. A imagem ficou preta. Por alguns segundos, apenas uma mensagem apareceu: CONEXÃO ESTABELECIDA. As pessoas ficaram em silêncio. Então uma figura surgiu na tela. Cristian parou. Seu coração pareceu esquecer de bater. Ele conhecia aquele rosto. Conhecia aquela voz. Mesmo depois de tantos anos vendo o próprio pai cada vez menos dentro de casa, Cristian jamais esqueceria. - Não... A imagem mostrava Eliéser. Seu pai. Vestido de maneira formal, sentado diante de uma estrutura que Cristian nunca tinha visto antes. Atrás dele havia telas, equipamentos e símbolos que pareciam pertencer ao mesmo sistema que havia aparecido diante dos seus olhos. Cristian ficou imóvel no meio da calçada. - Pai...? Ao redor, as pessoas começaram a murmurar. Eliéser olhou diretamente para a câmera. - Boa noite. Sua voz estava calma. Controlada. Como se o mundo não estivesse desmoronando. - Se vocês estão vendo esta transmissão, significa que o processo de transição já começou. Cristian sentiu um frio percorrer a espinha. Transição? - Durante muitos anos, a humanidade acreditou que compreendia o mundo em que vivia. No telão, imagens começaram a aparecer. Cidades. Florestas. Oceanos. Depois, imagens de destruição. - Mas nós estávamos errados. Cristian deu um passo para trás. - O que você está fazendo...? Ninguém respondeu. Eliéser continuou: - A humanidade chegou ao limite. Os sinais foram ignorados por tempo demais. As consequências de nossas escolhas finalmente chegaram. Uma nova imagem surgiu. Um símbolo semelhante ao que Cristian havia visto no sistema apareceu no centro do telão. - A partir desta noite, as antigas regras deixaram de existir. O murmúrio da multidão aumentou. - O mundo que vocês conheciam acabou. Cristian sentiu a garganta secar. Eliéser fez uma pequena pausa antes de dizer: - E um novo mundo começou. As palavras apareceram no telão atrás dele: BEM-VINDOS AO NOVO MUNDO. Cristian não conseguia desviar os olhos. Aquele homem era seu pai. O mesmo homem que quase nunca estava em casa. O mesmo homem que dizia estar ocupado demais para conversar. O mesmo homem que Cristian acreditava simplesmente trabalhar demais. Mas ele estava ali. No centro de tudo. Como se soubesse que aquilo aconteceria. Como se estivesse esperando por aquela noite. Eliéser continuou: - Algumas pessoas receberão habilidades. Outras serão escolhidas para participar deste novo sistema. Haverá aqueles que serão capazes de se adaptar... Ele fez uma pausa. - E haverá aqueles que não conseguirão. Cristian sentiu o estômago revirar. Por algum motivo, aquelas últimas palavras pareceram diferentes. Mais frias. Mais definitivas. Eliéser então concluiu: - Não resistam ao que já começou. A transmissão terminou. O telão voltou a ficar preto. Por alguns segundos, ninguém se mexeu. Cristian continuou parado. O barulho da cidade voltou aos poucos. Mas ele já não conseguia ouvir direito. Só conseguia pensar em uma coisa. Seu pai sabia. Talvez soubesse há muito tempo. E, pela primeira vez naquela noite, Cristian teve medo de voltar para casa. Não por causa das criaturas. Não por causa do sistema. Mas porque talvez houvesse muito mais escondido dentro daquela família do que ele jamais imaginou Sim. Nesse caso, não precisamos criar um novo capítulo. O capítulo 3 continua exatamente dali. E eu gosto mais dessa opção porque o leitor acompanha o Cristian saindo da estação, vendo o pai nos telões, chegando em casa e então sofrendo a rejeição - tudo como uma sequência daquela mesma noite. Eu continuaria assim, depois de: > "Talvez houvesse muito mais escondido dentro daquela família do que ele jamais imaginou." —- Cristian continuou caminhando. Não sabia exatamente para onde estava indo. Só sabia que precisava chegar em casa. Precisava ver a mãe. Precisava ver Carlos. Precisava entender por que o pai estava aparecendo nos telões de toda a cidade falando sobre aquele novo mundo. A mochila ainda estava nas costas, pesada o suficiente para incomodá-lo. A cada passo, Cristian sentia o corpo reclamar. A luta na estação parecia ter acontecido há horas, embora não tivesse passado tanto tempo. Ele estava cansado. Com fome. Assustado. E agora tinha uma quantidade absurda de perguntas na cabeça. Quem era Thales? O que era aquela voz? Por que seu pai sabia de tudo aquilo? E, principalmente: Por que ele? Cristian passou a mão pelo rosto. - Eu só queria chegar em casa... A frase saiu quase como um sussurro. —- Quando finalmente chegou à rua onde morava, diminuiu o passo. A casa estava ali. As mesmas paredes. O mesmo portão. A mesma luz acesa na sala. Por alguns segundos, Cristian ficou parado do outro lado da rua. Era estranho. Depois de tudo o que havia acontecido, aquela casa parecia exatamente igual. Como se o mundo não tivesse acabado. Como se ele ainda pudesse abrir o portão, entrar, jogar a mochila no quarto e reclamar do dia. Como se amanhã ainda fosse acordar às seis e quinze para trabalhar. Mas ele sabia que não era mais assim. Respirou fundo. Atravessou a rua. Abriu o portão. E entrou. - Mãe? Silêncio. Cristian fechou o portão atrás de si. - Mãe? Dessa vez ouviu passos. Abigail apareceu no corredor. Ela olhou para o filho. Depois para a mochila nas costas dele. Seu rosto não demonstrou alívio. Nem preocupação. Cristian percebeu. - A senhora está bem? Abigail permaneceu em silêncio. - Eu estava preocupado. Ela cruzou os braços. - Carlos está na sala. Cristian franziu a testa. - E a senhora? - Eu estou bem. Ele assentiu. Então olhou para a sala. Carlos estava sentado no sofá. Mas havia algo diferente nele. Cristian percebeu quase imediatamente. Carlos parecia mais confiante. Mais... satisfeito. - O que aconteceu? Carlos levantou os olhos. - Eu fui escolhido. Cristian ficou parado. - O quê? Carlos sorriu. Uma pequena luz surgiu sobre a palma de sua mão. Cristian sentiu o coração apertar. Poder. Era a mesma sensação que havia sentido na estação. Mas aquilo vinha do próprio irmão. - O sistema apareceu para mim - disse Carlos. - Eu recebi uma classe. Cristian ficou olhando para aquela luz. Por alguns segundos, ninguém falou. Então Abigail se aproximou de Carlos. - Ele foi escolhido. A maneira como ela disse aquilo fez Cristian perceber algo. Orgulho. Ela estava orgulhosa. Muito orgulhosa. Cristian olhou para a mãe. - E eu? O silêncio foi imediato. Abigail não respondeu. Carlos também não. Cristian entendeu antes mesmo que ela dissesse. - Você não recebeu nada - falou Abigail. Cristian abaixou os olhos. Aquilo deveria doer menos. Afinal, ele sabia que tinha recebido. Sabia que o sistema havia aparecido. Sabia que havia habilidades dentro dele. Mas ninguém naquela sala sabia. E ele não pretendia contar. Não depois de perceber a maneira como estavam olhando para Carlos. Carlos tinha sido escolhido. Carlos tinha valor. Cristian não. Pelo menos era isso que eles acreditavam. Abigail então falou: - Você precisa entender que as coisas mudaram. Cristian levantou os olhos. - Mudaram? - Carlos agora tem uma responsabilidade. Ela colocou a mão no ombro do filho. - Ele precisa aprender a controlar os poderes dele. Cristian olhou para Carlos. - E eu? Abigail respondeu sem hesitar: - Você precisa seguir seu próprio caminho. Cristian ficou alguns segundos em silêncio. Então olhou para a própria mochila. Era quase tudo que possuía. - Você quer que eu vá embora? Abigail não respondeu imediatamente. Mas o silêncio foi suficiente. Cristian assentiu devagar. - Entendi. Carlos pareceu desconfortável. - Cristian... Ele olhou para o irmão. Carlos abriu a boca, mas não encontrou o que dizer. Abigail falou antes: - Não torne isso mais difícil. Cristian sentiu algo quebrar dentro dele. Não gritou. Não discutiu. Não perguntou por quê. Apenas subiu para o quarto. Ele abriu o armário. Ficou olhando para suas coisas. Não havia muito para levar. Algumas roupas. Um par de tênis. Documentos. Carregador. Celular. Uma pequena nécessaire. Pegou o dinheiro que tinha guardado. Contou. Pouco. Muito pouco. Guardou tudo na mochila. Parou por alguns segundos diante da cama. Aquele quarto tinha sido seu por anos. Ali estavam algumas das poucas lembranças de uma vida que, naquela manhã, ainda parecia normal. Cristian passou a mão sobre a mesa. Depois olhou para a porta. Não sabia se voltaria. Talvez voltasse. Talvez nunca mais. Ele não sabia. Pegou a mochila. Desceu. Carlos ainda estava na sala. Dessa vez, os dois ficaram em silêncio. Cristian passou por ele. Carlos falou: - Para onde você vai? Cristian parou perto da porta. Olhou para trás. - Não sei. E era verdade. Ele não fazia ideia. Não tinha um amigo para procurar. Não tinha dinheiro suficiente para um hotel. Não tinha outro lugar para chamar de casa. Só tinha uma mochila nas costas e algumas notas no bolso. Carlos abaixou os olhos. - Cristian... Ele esperou. Mas Carlos não disse mais nada. Cristian abriu a porta. Antes de sair, olhou uma última vez para a casa. Para a sala. Para o corredor. Para a porta que tantas vezes havia aberto depois de um dia cansativo de trabalho. Então saiu. O portão se fechou atrás dele. Cristian ficou parado na calçada. A cidade continuava em caos. As sirenes ainda ecoavam ao longe. Os telões continuavam exibindo informações sobre o novo mundo. E ele... Não tinha para onde ir. Apertou a alça da mochila. Começou a caminhar. Sem destino. Sem saber onde dormiria. Sem saber o que faria no dia seguinte. Sem saber em quem poderia confiar. Mas havia uma coisa que ninguém sabia. Cristian não estava tão indefeso quanto sua família imaginava. Ele tinha o sistema. Tinha poderes. E tinha uma voz dentro das sombras que ainda não compreendia. Só que, naquela noite, ele não queria ser um escolhido. Não queria ter nada à ave com o sistema. Não queria ser especial. Queria apenas encontrar algum lugar onde pudesse sobreviver. E, pela primeira vez na vida, Cristian caminhou sem saber para onde voltar.. Não sabia para onde estava indo. A mochila pesava em seus ombros, e o pouco dinheiro que tinha no bolso não seria suficiente para resolver o problema que acabara de surgir em sua vida. Precisava encontrar algum lugar para passar a noite. Só isso. Depois pensaria no resto. Ele atravessou uma avenida quase vazia e entrou em uma rua mais tranquila. Parou diante de uma loja fechada. Olhou para o relógio do celular. Tarde demais. Cristian soltou o ar devagar. — Onde eu vou dormir agora...? Guardou o celular. Continuou andando. Do outro lado da rua, alguns metros atrás, uma figura surgiu entre as sombras. Thales. Ele havia visto Cristian sair de casa. Não sabia o que tinha acontecido. Mas sabia que alguma coisa estava errada. Cristian caminhava sozinho, carregando uma mochila diferente da tinha quando os dois se encontraram na estação. Thales manteve distância. Não queria assustá-lo. Cristian continuou andando por mais alguns minutos. Parou novamente. Olhou para trás. Nada. A rua estava vazia. Ele franziu a testa. Por algum motivo, tinha a sensação de que estava sendo observado. — Estou ficando paranoico... Voltou a caminhar. Thales esperou alguns segundos antes de continuar. Sempre mantendo distância. Cristian entrou em outra rua. Thales acompanhou. Mais alguns minutos. Cristian parou diante de uma praça pequena. Sentou-se em um banco. Colocou a mochila ao lado e passou as mãos pelo rosto. Estava exausto. — Que droga... Ele abaixou a cabeça. — Eu não tenho nem para onde ir. Foi então que ouviu passos. Cristian levantou o rosto imediatamente. Thales estava parado alguns metros à frente. Cristian ficou encarando-o. Depois olhou para os lados. Voltou a olhar para Thales. — Você está me seguindo? Thales não tentou negar. — Sim. Cristian levantou-se imediatamente. — Por quê? — Porque você saiu de casa sozinho. — E daí? — Você não sabe para onde vai. Cristian ficou irritado. — Isso não é problema seu. — Eu sei. Thales manteve a calma. — Mas também não vou fingir que não vi. Cristian apertou a alça da mochila. — Você não me conhece. — Ainda não. A resposta fez Cristian ficar em silêncio por um instante. — Então para de me seguir.
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