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Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Capítulo 9

Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Capítulo 9

Capítulo 10 · 9 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

A bebida era boa. Boa demais, na verdade. Tinha um gosto adocicado, um aroma frutado e descia tão fácil que eu mal percebia quando terminava uma taça. Quando dei por mim, já estava com a terceira na mão e começando a achar que os bailes aristocráticos talvez não fossem tão ruins quanto eu imaginava.

O segredo era simples: comida boa, bebida de graça e um monte de gente disposta a elogiar minha aparência. Eu podia viver assim.

— Lorde Inoar, aceita mais uma?

Olhei para a taça vazia que o homem segurava, depois para a minha.

— Por que não?

Ele sorriu e fez um sinal para um criado. Enquanto esperava, senti novamente aquele cheiro cítrico que parecia acompanhar o homem. Era agradável, mas, de vez em quando, ficava mais intenso, como se o ar ao redor dele se adensasse quando nossos olhos se encontravam.

Eu ainda não tinha entendido como aquilo funcionava. Só sabia que meu nariz parecia ter desenvolvido uma personalidade própria desde que eu acordara naquele corpo.

A taça chegou. Tomei um gole generoso.

— Você está aproveitando a noite? — perguntou o homem.

— Bastante.

— Fico feliz. Ouvi dizer que, antes da queda, você era bastante diferente.

Quase engasguei.

Aquele Lith devia ser um sujeito muito esquisito.

— As pessoas mudam — respondi, porque era uma frase vaga o bastante para servir de resposta para praticamente qualquer coisa.

— Sem dúvida.

Ele me olhou por um instante a mais do que o necessário. O cheiro cítrico se intensificou, e senti um calor estranho subir pelo pescoço.

Não era desagradável. Na verdade, era até bom. O problema era que eu não fazia ideia do motivo.

Talvez fosse o álcool.

Decidi que era o álcool.

Afinal, aquela bebida devia ser forte. Eu estava acostumado a beber, mas talvez o corpo de Lith não tivesse a mesma resistência que o meu. Uma pena. Mais uma característica inferior que teria de suportar durante o coma.

— Com licença — falei, entregando a taça vazia a um criado que passava. — Preciso encontrar minha irmã.

O homem pareceu decepcionado, mas se despediu com educação.

Dei alguns passos pelo salão e precisei desviar de um casal que dançava. A música estava mais alta, o ar parecia mais quente e os cheiros tinham ficado insuportavelmente intensos. Perfumes florais, madeira, frutas, especiarias… tudo se misturava numa confusão que me fez torcer o nariz.

Passei a mão pela testa.

Que inferno. O salão precisava de ventilação.

Foi então que senti o cheiro de lírios.

O meu cheiro.

Só que estava mais forte do que antes. Muito mais forte.

Olhei para a gola da roupa, como se pudesse encontrar algum frasco de perfume escondido ali. Não havia nada. Mesmo assim, o aroma doce parecia se espalhar ao meu redor.

Uma senhora que passava diminuiu o passo. Um homem interrompeu a conversa para olhar na minha direção. Outro, que estava perto de uma coluna, virou a cabeça tão depressa que quase perdeu o que o companheiro dizia.

Olhei por cima do ombro.

Não havia ninguém atrás de mim.

Voltei a andar.

Os olhares continuaram.

— Que foi? — murmurei, ajeitando a manga. — Nunca viram um homem bonito?

Talvez fosse isso. Minha aparência era excepcional, e a sociedade daquele lugar provavelmente não estava acostumada a tanta perfeição reunida numa única pessoa.

Encontrei Helena perto de uma das portas laterais, conversando com Seraphina. Minha irmã percebeu minha aproximação e imediatamente estreitou os olhos.

— Lith, quantas taças você tomou?

— Não sei. Três. Quatro.

— Você não sabe?

— Eu estava ocupado aproveitando a festa, Helena. Não estava fazendo um inventário.

Ela olhou para a taça vazia na minha mão e depois para o meu rosto.

— Você está vermelho.

— Está quente.

— Você já disse isso.

— E continua estando.

Seraphina aproximou-se um pouco, franzindo o nariz como se tentasse identificar alguma coisa no ar.

— Você está se sentindo bem?

— Perfeitamente. Só preciso encontrar um banheiro.

Helena pareceu prestes a dizer alguma coisa, mas eu já estava olhando ao redor.

— Onde fica?

— Eu vou com você — ela respondeu.

— Para quê? Eu sei usar um banheiro sozinho.

— Não duvido. Mas venha.

O tom dela não admitia discussão. Dei de ombros e a acompanhei pelo corredor.

A música foi ficando distante à medida que nos afastávamos do salão. O ar ali era mais fresco, o que já melhorou consideravelmente minha opinião sobre a arquitetura daquela casa. Havia portas dos dois lados do corredor, algumas com pequenos símbolos prateados fixados na madeira.

Helena parou diante de uma delas.

— Espere aqui um instante.

— Por quê?

Ela apontou para a porta.

Só então reparei no símbolo: uma figura masculina estilizada, acompanhada de uma inscrição que eu não consegui ler direito. Mais adiante, outra porta tinha um símbolo semelhante, mas diferente.

Helena abriu uma terceira porta, marcada com um emblema que eu reconheci dos livros da biblioteca.

O símbolo dos alfas.

Entrei atrás dela por alguns passos, até que meu cérebro finalmente resolveu trabalhar.

— Espera aí.

Helena parou.

Olhei para a porta. Depois para ela.

— Você vai entrar aí?

— Vou.

— Mas… isso é o banheiro dos alfas.

— Exatamente.

Fiquei olhando para minha irmã.

Minha irmã, que era uma mulher.

Uma mulher prestes a entrar no banheiro dos alfas.

— Helena.

Ela virou o rosto, impaciente.

— O que foi agora?

Apontei para a porta, depois para ela, depois para a porta outra vez.

— Você é mulher.

— Que observação brilhante, Lith.

— Não, espera. Você não pode simplesmente entrar aí!

— E por que não?

— Porque é o banheiro dos homens!

Ela me encarou por alguns segundos. Então olhou para a placa e voltou a olhar para mim.

— É o banheiro dos alfas.

— Sim! Dos alfas! Eu sei ler!

Ela entrou e fechou a porta na minha cara.

Fiquei parado no corredor, encarando a madeira.

Não.

Não, não, não.

Eu tinha entendido alguma coisa muito errada.

Voltei a olhar para as outras portas. Uma trazia o símbolo dos ômegas. Outra, o dos betas, acompanhado de uma figura masculina. Mais adiante, havia uma porta semelhante com uma figura feminina.

Quatro banheiros.

Alfas, ômegas, homens beta e mulheres beta.

O meu cérebro tentou organizar a informação, tropeçou nela e caiu de cara no chão.

Então os banheiros eram separados pelo gênero secundário para alfas e ômegas, mas pelo sexo para betas?

Que tipo de sistema maluco era aquele?

Enquanto esperava Helena sair, outra dúvida surgiu na minha cabeça.

— Espera. Seraphina é o quê?

A porta se abriu, e Helena apareceu ajeitando a manga.

— Como assim?

— Sua noiva. O que ela é?

Minha irmã me encarou como se eu tivesse acabado de perguntar se a água era molhada.

— Obviamente, ômega.

Ah.

Fiquei em silêncio.

Duas mulheres noivas. Eu tinha achado estranho, mas talvez naquele mundo ninguém ligasse para isso. Afinal, meus pais não pareciam ter feito nenhuma objeção, e Helena e Seraphina estavam juntas como qualquer casal.

Só que havia um detalhe.

Helena era alfa.

Seraphina era ômega.

Espere.

Minha irmã era alfa.

Olhei para ela.

Depois para a porta do banheiro.

Depois para ela outra vez.

Se alfa não era simplesmente outro nome para homem, então…

Puta que pariu.

O que aquela mulher tinha entre as pernas?

Meu cérebro parou.

Não, porque calma. Calma. Eu tinha lido sobre os gêneros secundários. Sabia que alfas, betas e ômegas eram categorias diferentes. Só que, na minha cabeça, alfa continuava sendo praticamente sinônimo de homem. Era automático. Eu ouvia a palavra e imaginava um sujeito alto, forte, cheio de si e provavelmente com o ego do tamanho de uma geladeira.

Não minha irmã.

Minha irmã era uma mulher. Uma mulher que usava vestidos, tinha uma noiva e acabara de entrar no banheiro dos alfas como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

Eu precisava de respostas.

Muitas respostas.

De preferência, respostas que não envolvessem olhar para a região íntima de nenhum membro da minha família.

— Por que está me olhando assim? — Helena perguntou.

Desviei os olhos tão depressa que quase torci o pescoço.

— Não estou olhando de jeito nenhum.

— Está, sim.

— Estou pensando.

— Esse é justamente o problema.

Ela começou a andar pelo corredor. Fui atrás, ainda tentando resolver a questão.

— Mas você é uma mulher!

— Lith...

Abri a boca para responder, mas um criado passou por nós carregando uma bandeja, e precisei me desviar para não esbarrar nele.

Foi nesse momento que senti o cheiro de lírios.

Forte.

Doce.

Meu.

Helena parou de andar.

— Lith…

— O quê?

Ela olhou para mim com uma expressão que não gostei nem um pouco.

— Você precisa se acalmar e voltar para o salão.

— Eu estou calmo.

— Seus feromônios estão se espalhando pelo corredor inteiro.

Fiquei imóvel.

Meus feromônios?

Olhei para a gola da roupa. Depois para as mangas. Cheirei discretamente o próprio ombro.

Helena pressionou os lábios, como se estivesse escolhendo as palavras.

— Não adianta cheirar suas roupas.

Ah, não.

Lá vinha outra explicação que eu deveria ter recebido antes de sair de casa.

— Então?

Ela me lançou um olhar demorado.

— Você realmente não se lembra de nada, não é?

Meu estômago afundou por um instante.

Merda.

Será que ela estava falando da queda? Do passado de Lith? De alguma coisa que eu deveria saber?

Antes que eu pudesse inventar uma resposta, Helena suspirou.

— Venha. Vamos encontrar um lugar mais fresco. Você bebeu demais.

— Eu não bebi demais.

— Claro que não.

O tom dela dizia exatamente o contrário.

Voltamos na direção do salão. Eu ainda sentia os lírios ao meu redor, a situação parecia muito mais irritante.

Como diabos um cheiro podia escapar do corpo de alguém?

Eu precisava de um manual. Um manual decente, de preferência, com desenhos e instruções para pessoas que não tinham nascido naquele mundo.

Quando entramos novamente no salão, alguns convidados olharam para mim. Um deles interrompeu a conversa. Outro pareceu prestes a se aproximar, mas desistiu quando Helena me conduziu para perto de uma janela aberta.

O ar fresco ajudou um pouco.

— Fique aqui — ela ordenou. — Vou buscar água.

— Eu não sou criança.

— Então pare de agir como uma.

Ela se afastou antes que eu pudesse responder.

Fiquei perto da janela, tentando respirar sem sentir que estava dentro de um jardim de lírios. A música continuava tocando, os convidados continuavam conversando e, do outro lado do salão, meus pais ainda pareciam empenhados em apresentar pessoas umas às outras.

Tudo normal.

Exceto pelo fato de que eu estava num corpo que cheirava a flor, tinha um amendoim no lugar do meu antigo orgulho e acabara de descobrir que mulheres podiam entrar em banheiros identificados como masculinos.

Eu precisava muito acordar daquele coma.

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