Reencarnei no BL que Eu Nunca Li
Capítulo 10
Capítulo 11 · 8 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Água. Eu precisava de água, ar fresco e, se possível, um transplante de cérebro.
Fiquei perto da janela enquanto um criado me entregava um copo. Bebi quase tudo de uma vez, ignorando o olhar de reprovação de Helena quando ela voltou e me encontrou segurando o recipiente como se tivesse acabado de atravessar um deserto.
— Melhor?
— Muito.
— Então tente não beber mais por enquanto.
— Você fala como se eu tivesse tomado um barril inteiro.
— Você está exalando lírios pelo salão inteiro, Lith.
Olhei para o copo.
Depois para ela.
Depois para o copo de novo.
Certo. Aquilo ainda era um problema.
Mas, enquanto o ar fresco ajudava a colocar minha cabeça no lugar, uma coisa começou a fazer sentido. Não toda a situação, claro. Eu não tinha milagre para oferecer. Mas uma parte.
Eu era um homem.
Um homem ômega.
Se homens podiam ser ômegas, então não havia motivo para presumir que todas as mulheres fossem betas ou ômegas. Algumas precisavam ser alfas. Era lógico. Afinal, aquele mundo não tinha sido organizado para atender às minhas expectativas pessoais.
Porra. Eu tinha acabado de descobrir que o universo não girava em torno do meu pau.
Uma experiência humilhante.
Ainda assim, a dedução resolvia uma parte do mistério do banheiro. Não explicava por que eu não tinha entendido isso antes, mas, considerando a quantidade de informação que eu estava tentando processar desde que acordei, decidi me dar um desconto.
Um pequeno desconto.
Não precisava exagerar.
— Está sorrindo por quê? — Helena perguntou.
— Porque acabei de resolver uma questão importante.
— Que questão?
— Não interessa.
Ela me olhou com desconfiança.
— Você realmente não é mais o mesmo.
— Já estabelecemos isso.
— Não, Lith. Não estabelecemos.
A voz dela ficou um pouco mais baixa. Por um instante, o sorriso desapareceu, e eu vi de novo aquela preocupação que ela tentava esconder.
Eu não sabia o que dizer. Então fiz o que qualquer homem sensato faria diante de uma conversa desconfortável.
— Acho que preciso comer alguma coisa.
Helena me encarou.
— Você acabou de beber água.
— Água não é comida.
Ela soltou um suspiro tão profundo que quase senti pena.
Quase.
— Vou voltar para perto de Seraphina. Fique aqui e tente não arrumar problemas.
— Você fala como se eu fosse uma criança.
— Não. Crianças costumam dar menos trabalho.
Ela se afastou antes que eu pudesse responder. Fiquei observando minha irmã atravessar o salão e encontrar a noiva. As duas trocaram algumas palavras, e Seraphina tocou discretamente o braço dela.
Eu sorri.
Pelo menos aquele relacionamento parecia funcionar. Nada de joguinhos, nada de fingir desinteresse, nada de ficar esperando a outra pessoa adivinhar o que você queria. Duas pessoas adultas, aparentemente felizes, vivendo suas vidas.
Uma raridade em qualquer mundo.
— Lith?
Virei-me ao ouvir meu nome.
Três jovens se aproximavam. Eu reconheci vagamente uma delas das apresentações anteriores, mas as outras duas eram rostos que eu não sabia de onde tirar. Todas estavam muito bem vestidas, com penteados elaborados e joias delicadas.
A primeira, uma moça de cabelos castanhos presos num coque baixo, abriu um sorriso ao me ver.
— Finalmente encontramos você! Estávamos começando a achar que tinha fugido do baile.
— Ainda estou considerando a possibilidade.
Ela riu, como se eu tivesse feito uma brincadeira particularmente espirituosa.
— Você está se sentindo melhor? Ficamos sabendo que passou mal.
Olhei para as três.
— Quem disse que passei mal?
As jovens trocaram um olhar rápido.
— Bem… você parece um pouco corado — respondeu a segunda.
— Está quente.
A frase saiu tão automaticamente que eu quase revirei os olhos para mim mesmo.
A primeira inclinou a cabeça, estudando meu rosto.
— Você sempre dizia que gostava de noites como essa.
Merda.
Era uma informação sobre Lith. Uma informação banal, provavelmente conhecida por qualquer pessoa que convivesse com ele.
— Ainda gosto!? — respondi.
A moça pareceu aceitar a resposta, mas continuou me observando por um instante antes de sorrir novamente.
— De qualquer forma, estamos felizes que tenha vindo. Sentimos sua falta.
A sinceridade na voz dela me pegou desprevenido.
Não porque eu fosse incapaz de despertar saudade. Era óbvio que as pessoas sentiriam falta de mim. Eu era uma presença inesquecível. Mas havia algo diferente ali: elas pareciam sentir falta de alguém que conheciam de verdade, alguém com quem tinham compartilhado momentos que eu jamais poderia recordar.
Era uma sensação estranha.
Afastei o pensamento antes que pudesse se tornar inconveniente.
— E vocês são…?
O sorriso da primeira jovem vacilou.
Só por um instante.
— Livia — ela respondeu. — Você está brincando?
— Claro.
Eu não fazia ideia se estava.
Livia me estudou por mais um segundo, então soltou uma risada curta, embora seus olhos continuassem atentos.
— Você está com um humor peculiar.
— Estou tentando coisas novas.
— Percebi.
A segunda jovem se apresentou como Celeste, e a terceira como Marianne. Celeste tinha uma expressão doce e um jeito delicado de falar; Marianne, por outro lado, parecia muito mais interessada em observar tudo ao redor. As três começaram a conversar sobre o baile, as roupas dos convidados e a música, e logo eu estava ouvindo uma discussão bastante séria sobre os bordados de um vestido.
Eu nunca tinha imaginado que alguém pudesse falar tanto sobre mangas.
— O corte é muito bonito — Celeste comentou, apontando discretamente para uma convidada do outro lado do salão. — Mas o acabamento nos punhos poderia ser melhor.
Olhei para a mulher.
Depois para Celeste.
— Você consegue perceber isso daqui?
— Claro.
— Impressionante.
— Você costumava notar essas coisas antes de todo mundo — Livia comentou.
Fiquei quieto por meio segundo.
— Talvez eu esteja cansado.
— Provavelmente.
A resposta dela veio com um sorriso, mas senti que estava guardando aquela informação em algum canto da cabeça.
Ótimo. Agora eu tinha uma investigadora particular.
A conversa continuou, e, quando Celeste começou a explicar por que os tecidos leves combinavam melhor com determinados cortes, decidi prestar atenção. Não porque me interessasse. Mas porque eu precisava aprender o suficiente para não me denunciar a cada cinco minutos.
Foi então que vi o brasão.
Estava bordado no peito de um homem que conversava com outro convidado, perto de uma coluna. Um escudo escuro, com detalhes prateados e uma flor estilizada no centro. Não era grande nem chamativo, mas havia alguma coisa na combinação das formas que me fez olhar duas vezes.
Meu cérebro produziu uma pequena faísca.
Eu conhecia aquilo.
Ou, pelo menos, tinha a impressão de conhecer.
O desenho parecia familiar de um jeito irritante, como uma palavra que você sabe que já leu, mas não consegue lembrar onde. Fiquei olhando para o brasão enquanto tentava puxar a lembrança.
Um escudo.
Prata.
Uma flor.
Talvez eu tivesse visto aquele símbolo em alguma imagem na internet. Uma ilustração, uma publicação, uma daquelas montagens que apareciam no meio da minha rolagem infinita de redes sociais.
O homem se moveu, e o brasão desapareceu parcialmente sob a dobra do casaco.
Pisquei.
— Você está ouvindo? — Livia perguntou.
Virei-me para ela.
— Claro.
— O que eu acabei de dizer?
— Que… o vestido da mulher ali está malfeito.
Livia olhou na direção que eu tinha indicado, depois voltou a olhar para mim.
— Eu estava falando sobre o chá da tarde.
— Então o vestido deve estar malfeito também.
Celeste cobriu a boca para esconder uma risada. Marianne soltou uma gargalhada sem qualquer tentativa de disfarçar.
Livia, porém, não riu imediatamente. Ela me observou com aquela mesma expressão de antes, como se estivesse comparando a minha resposta com alguma lembrança antiga.
Depois balançou a cabeça.
— Você está impossível.
— Finalmente alguém reconhece minhas qualidades.
— Não foi um elogio.
— Vou aceitar mesmo assim.
Ela suspirou, mas dessa vez sorriu de verdade.
— Nós vamos organizar um chá daqui a alguns dias. Só nós, sem toda essa gente. Você precisa aparecer.
— Vai ter comida?
— Naturalmente.
— Então estarei lá.
— Lith, eu ainda nem terminei de explicar.
— Não precisa. Você mencionou comida. O resto são detalhes.
Celeste riu, e Marianne começou a falar sobre os doces que pretendia levar. Livia continuou me olhando de vez em quando, mas não voltou a perguntar sobre meu comportamento.
Ainda bem.
Eu não sabia o que havia de tão estranho em mim para aquelas pessoas, mas, considerando que eu estava vivendo uma espécie de coma aristocrático dentro do corpo de um ômega, seja lá o que isso signifique, talvez elas devessem agradecer por eu ainda conseguir manter uma conversa.
Do outro lado do salão, o homem com o brasão prateado continuava perto da coluna, participando pouco das conversas ao redor. Em determinado momento, virou ligeiramente o corpo, e o desenho voltou a aparecer por um instante.
Meu olhar passou por ele sem se deter no rosto.
Aquela sensação familiar retornou, breve como um espirro.
Eu conhecia aquele brasão.
Tinha certeza.
Ou quase.
Decidi que pensaria nisso depois. No momento, tinha assuntos mais urgentes: precisava descobrir por que meu cheiro estava se espalhando pelo salão, como impedir que acontecesse de novo e se o chá da tarde teria bolinhos.
Principalmente os bolinhos.
Porque, se eu ia continuar preso naquele coma, pelo menos não pretendia passar fome.
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