Reencarnei no BL que Eu Nunca Li
Capítulo 4
Capítulo 5 · 11 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Acordei com alguém abrindo as cortinas.
— Bom dia, jovem mestre.
Fechei os olhos com tanta força que quase vi estrelas.
Não.
Não, não, não.
Eu tinha dormido. Dormido de verdade. Sem sonhos esquisitos, sem pesadelos, sem nada que justificasse continuar naquela situação.
Então, por que caralhos eu ainda estava ali?
— Jovem mestre?
Puxei o cobertor por cima da cabeça.
— Vai embora.
Houve uma pausa.
— Como?
— Vai. Embora. Quero dormir.
— Mas já é manhã.
— Parabéns por descobrir, porra.
Silêncio.
Abri um olho por baixo do cobertor. A figura perto da janela continuava parada, provavelmente tentando decidir se eu tinha enlouquecido de vez.
Ótimo. Mais um para a coleção.
— Jovem mestre, a senhora Eva pediu que o senhor se levantasse. O desjejum será servido em breve.
Eva.
Levei alguns segundos para lembrar que aquele era o nome da mulher que me tratava como se eu fosse um bibelô de porcelana.
— Fala para ela que eu estou doente.
— Mas o senhor já está melhor.
— Piorou de ontem para hoje. Uma tragédia.
A pessoa não respondeu.
Tirei o cobertor do rosto e encarei o teto.
Talvez eu estivesse morto.
Não que eu acreditasse nisso. Quer dizer, eu lembrava de ter caído. Lembrava da pancada, da dor e de pensar que viraria meme. Depois, nada.
Mas eu não podia estar morto. Gente morta não sentia fome, não sentia dor e, pelo que eu sabia, não precisava lidar com funcionários inconvenientes logo cedo.
Além disso, se aquilo fosse o paraíso, alguém tinha cometido um erro administrativo gravíssimo.
Eu não estava vendo nenhuma mulher gostosa.
Só homens e mulheres vestidos como se tivessem saído de uma peça de teatro.
E um corpo que ainda me devia explicações.
— Jovem mestre, devo ajudá-lo a se vestir?
Virei a cabeça tão rápido que senti o pescoço estalar.
— O quê?
A pessoa pareceu confusa com a minha reação.
— Suas roupas estão preparadas.
Olhei para o móvel próximo à cama. Havia uma pilha de tecidos claros cuidadosamente dobrados, junto de outras peças que eu não fazia a menor ideia de como usar.
— Eu sei me vestir sozinho.
— Naturalmente, senhor.
A resposta veio tão depressa que desconfiei dela.
— Então por que perguntou?
— Porque, desde a queda, o senhor tem demonstrado um comportamento diferente.
Ah, pronto.
Até o funcionário estava fazendo diagnóstico.
Sentei na cama e passei a mão pelo cabelo.
— Olha, eu bati a cabeça. Acontece. Agora, se ninguém aqui souber me dizer onde fica um hospital, pelo menos me deixa em paz por cinco minutos.
A pessoa baixou a cabeça.
— Como desejar, senhor Lith.
E saiu.
Esperei a porta fechar antes de soltar um suspiro.
Lith.
Aquele nome estava começando a me dar nos nervos.
Eu precisava descobrir quem era aquele sujeito, de onde tinha vindo e por que todo mundo agia como se eu fosse ele.
Ou talvez não.
Talvez fosse melhor não descobrir nada. Se eu continuasse fingindo que aquilo era um sonho, cedo ou tarde acordaria.
Era uma estratégia excelente.
Eu só precisava ignorar o pequeno detalhe de que meu cérebro parecia estar empenhado em me contrariar.
Levantei e fui até as roupas.
A primeira peça parecia uma camisa comprida. A segunda, uma espécie de casaco. A terceira tinha tantas partes que comecei a desconfiar de que alguém havia desmontado uma cortina para fazer aquilo.
Peguei uma das camisas e tentei vesti-la.
Enfiei a cabeça no lugar errado.
Tentei de novo.
Dessa vez, consegui passar a cabeça, mas fiquei com um braço preso.
— Mas que porra é essa?
Puxei o tecido.
O tecido puxou de volta.
Comecei uma luta corporal com a roupa e, por alguns segundos, considerei seriamente a possibilidade de sair daquele quarto usando apenas a camisa amarrada na cintura.
Foi quando a porta se abriu.
— Lith?
Congelei.
Helena estava parada na entrada.
Ela olhou para mim. Depois para a roupa embolada nos meus braços. Depois para mim de novo.
Eu olhei para ela.
— Nem uma palavra.
A boca dela se abriu um pouquinho.
— O que você está fazendo?
— Me vestindo. Não está vendo?
Helena entrou e fechou a porta atrás de si.
— Você está usando a camisa ao contrário.
Olhei para a peça.
Olhei para ela.
— Eu sei.
— Sabe?
— Estou testando um estilo novo.
Ela ficou me encarando com uma expressão que me fez desejar que o chão abrisse e me engolisse.
Não porque eu estivesse com vergonha. Claro que não.
Eu só não gostava de ser observado durante experiências fashion.
Helena se aproximou, pegou a roupa das minhas mãos e a desvirou com uma facilidade humilhante.
— Levante os braços.
— Por quê?
— Para que eu possa ajudá-lo.
— Eu não sou uma criança.
— Então pare de se comportar como uma.
Abri a boca.
Fechei.
Aquela garota tinha uma língua afiada. Definitivamente, não era uma característica que eu apreciava em mulheres.
Ainda assim, ergui os braços.
Só porque eu estava com fome. E porque, aparentemente, minha vida tinha chegado ao ponto em que precisava de assistência para colocar uma camisa.
Helena me ajudou a vestir a peça e ajeitou o tecido nos meus ombros. Era clara, de um tom próximo ao marfim, com mangas compridas e um caimento leve. Bonita, até. Não que eu fosse admitir isso em voz alta.
Depois vieram outras camadas de roupa, uma faixa na cintura e um casaco delicado que parecia ter sido feito para alguém que nunca precisou carregar uma caixa na vida.
Quando terminou, Helena recuou para me observar.
— Pronto.
Olhei para baixo.
Eu parecia um daqueles personagens de fantasia que aparecem em jogos quando você escolhe a opção de roupa elegante.
Passei a mão pelo tecido.
Era macio. Leve. E provavelmente custava mais do que todas as roupas que eu tinha no meu antigo guarda-roupa.
— Pelo menos isso aqui é confortável.
Helena ergueu uma sobrancelha.
— Você nunca reclamou das suas roupas antes.
— As pessoas mudam.
Ela não pareceu convencida.
— Você mudou bastante desde ontem.
Lá vinha.
Aquela conversa de novo.
— Eu caí, Helena. Bati a cabeça. Já falamos sobre isso.
— Não estou falando apenas da queda.
O jeito como ela me observou fez alguma coisa se remexer desconfortavelmente no meu estômago.
Não era medo.
Eu não tinha medo de uma garota.
Mas havia algo naquela expressão que me incomodava. Como se ela estivesse comparando duas pessoas e tentando descobrir por que não eram iguais.
— O que você quer dizer com isso?
Helena demorou um instante para responder.
— Nada. Vamos tomar o desjejum. Mamãe está esperando.
Ela caminhou até a porta.
Eu a segui, ainda tentando entender o que havia de tão estranho no meu comportamento.
Quer dizer, além de tudo.
O corredor era comprido, com paredes claras, quadros enormes e móveis que pareciam ter sido escolhidos por alguém com dinheiro demais e tempo de menos. Havia vasos de flores em pequenos aparadores e janelas altas por onde entrava a luz da manhã.
A mansão era bonita.
Bonita pra caralho.
Eu não fazia ideia de quem eram os Inoar, mas, se aquilo fosse uma alucinação, meu cérebro tinha decidido investir pesado em decoração.
Descemos uma escadaria e chegamos a uma sala onde algumas pessoas organizavam a mesa.
Helena caminhava à minha frente com a naturalidade de quem conhecia cada canto da casa.
Eu, por outro lado, precisei me concentrar para não tropeçar nos próprios pés.
A roupa era comprida demais.
Ou talvez minhas pernas fossem curtas demais.
Eu não queria pensar nisso.
— Lith!
Eva se levantou assim que me viu.
Seu rosto se iluminou com um sorriso tão carinhoso que, por um segundo, fiquei sem saber o que fazer.
Ela veio até mim e segurou minhas mãos.
— Meu pequeno lírio. Como está se sentindo hoje?
Pequeno lírio.
Olhei para ela.
Olhei para Helena.
Voltei a olhar para ela.
— Melhor — respondi, porque parecia a resposta que esperavam.
Eva tocou meu rosto com delicadeza.
— Que bom, meu querido. Fiquei tão preocupada.
Aquela mulher tinha um jeito de olhar para mim que fazia parecer que eu era a coisa mais preciosa do mundo.
Era estranho.
Muito estranho.
Eu não estava acostumado a receber aquele tipo de atenção sem precisar fazer absolutamente nada para merecê-la.
Não que eu precisasse merecer. Eu era naturalmente encantador.
Mas, ainda assim, era estranho.
— Venha se sentar — ela pediu. — Preparei algumas das suas coisas favoritas.
Sentei.
Maximus estava à mesa, lendo alguma coisa. Quando me aproximei, ele ergueu os olhos por cima do papel.
— Espero que hoje esteja se sentindo melhor, Lith.
— Estou ótimo.
Ele me observou por um momento.
— Então espero que também consiga se comportar melhor.
Parei com a mão a caminho de uma fruta.
— Como é?
— Ontem você tratou os criados com uma grosseria desnecessária.
Ah.
Então era isso.
Eu tinha sido grosso.
Bom, talvez porque ninguém ali soubesse responder a uma pergunta simples sem falar em reinos misteriosos e casas nobres.
— Eu estava me sentindo mal.
— Isso não justifica desrespeitar as pessoas.
Eva lançou um olhar discreto ao marido, como se pedisse que ele não insistisse no assunto.
Maximus suspirou e voltou à leitura.
Peguei a fruta.
Não ia discutir com um homem que parecia capaz de me expulsar de casa com uma única sobrancelha levantada.
Além disso, eu ainda não tinha certeza se aquela era mesmo a minha casa.
Comi em silêncio por alguns segundos.
A comida era boa. Muito boa, aliás. Havia pães, frutas, queijos, doces e uma bebida quente cujo nome eu não sabia. Se aquilo fosse um sonho, eu precisava reconhecer que meu cérebro tinha um talento impressionante para gastronomia.
Foi então que Eva comentou:
— Ah, Lith, quase me esqueci. Recebemos um convite esta manhã.
Continuei mastigando.
— Hm?
— Haverá um baile na residência dos marqueses de Valenne daqui a alguns dias. Uma celebração em homenagem ao aniversário da marquesa. Nossa família foi convidada, naturalmente.
Parei com a fruta no meio do caminho.
Baile?
Como assim, baile?
— E daí?
Helena ergueu os olhos do prato.
— Como assim, e daí?
— Ué. Você acabou de falar que vai ter um baile. E daí?
Minha irmã me encarou como se eu tivesse acabado de anunciar que pretendia comer a mesa.
— Você vai comparecer, obviamente.
— Eu vou o quê?
— Comparecer ao baile — ela repetiu, devagar, como se estivesse explicando alguma coisa para uma criança particularmente lerda.
Olhei para Eva, esperando que ela desmentisse aquilo.
Ela apenas sorriu.
— Será uma ótima oportunidade para você sair um pouco de casa depois do que aconteceu.
Ah, sim. Uma ótima oportunidade.
Para quê? Tropeçar em mais alguma coisa e acabar em outro cenário esquisito?
— Não estou interessado.
Maximus dobrou o papel que estava lendo e pousou-o sobre a mesa.
— Não se trata de estar interessado, Lith. É um compromisso social da nossa família.
Lá vinha o discurso.
Eu conhecia aquele tipo de conversa. Muda o cenário, muda a roupa, mas sempre tem alguém querendo decidir o que você deve fazer da própria vida.
— E se eu não quiser ir?
— Então terá de explicar pessoalmente aos marqueses por que está recusando o convite — respondeu Maximus, sem alterar a voz.
Fiquei olhando para ele.
Desgraçado.
Ele nem precisou levantar o tom. A ameaça veio embrulhada em boas maneiras, mas continuava sendo uma ameaça.
— Tá. E o que exatamente eu tenho que fazer nesse baile?
Helena apoiou o cotovelo na mesa.
— Cumprimentar os anfitriões, conversar com os convidados, dançar se for solicitado e, por favor, tentar não passar vergonha.
Virei o rosto para ela.
— Eu não passo vergonha.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você tentou vestir uma camisa ao contrário.
— Aquilo foi um experimento.
— Claro.
— Você está muito debochada para alguém que ainda não descobriu o significado da palavra privacidade.
— E você está muito mal-humorado para alguém que costumava adorar esses eventos.
A frase me fez parar.
Costumava adorar?
Eu?
Aquele corpo gostava de baile?
Meu cérebro estava mesmo empenhado em construir uma realidade ofensiva.
— Talvez eu tenha mudado de ideia — respondi.
Helena não pareceu convencida, mas não insistiu.
Eva voltou a falar sobre os preparativos, mencionando roupas, horários e a necessidade de confirmar nossa presença. Maximus concordou com tudo, como se organizar um baile fosse tão simples quanto escolher o que comer no almoço.
Eu, por outro lado, já estava imaginando a quantidade de gente que teria de suportar.
Pessoas desconhecidas.
Conversas intermináveis.
Roupas desconfortáveis.
E, pelo que eu tinha entendido até ali, um monte de regras que ninguém se dava ao trabalho de explicar antes de exigir que eu as seguisse.
Uma maravilha.
Terminei o desjejum em silêncio, tentando encontrar uma maneira de escapar daquele compromisso.
Talvez eu pudesse fingir outra doença.
Talvez pudesse me esconder em algum quarto.
Talvez, se eu dormisse o suficiente, finalmente acordasse no hospital.
Era uma esperança pequena, mas ainda era uma esperança.
Só havia um problema.
Eu estava começando a desconfiar de que, mesmo se aquilo fosse um sonho, meu cérebro não pretendia me deixar descansar tão cedo.
E agora eu tinha um baile para enfrentar.