Reencarnei no BL que Eu Nunca Li
Capítulo 5
Capítulo 6 · 9 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Se tinha uma coisa que eu não aceitava era ficar perdido.
Eu podia estar num coma, numa alucinação muito elaborada ou até ter sido vítima de uma pegadinha criminosa dos meus amigos invejosos, mas, enquanto estivesse preso naquela situação, precisava entender as regras do jogo.
E, para isso, precisava de informação.
Foi assim que decidi ir à biblioteca.
Não porque eu fosse um homem particularmente estudioso. Longe disso. Minha relação com livros se resumia a ler mensagens no celular, consultar cardápios e, ocasionalmente, pesquisar se uma mulher estava dando mole ou só sendo educada. Mas, considerando que eu estava numa mansão gigantesca, cercado por pessoas que falavam como se tivessem saído de uma novela de época, achei que alguns livros poderiam ajudar.
Além disso, se aquilo fosse mesmo um sonho, eu tinha certeza de que meu cérebro não seria inteligente o bastante para inventar uma biblioteca tão grande sem colocar alguma informação útil lá dentro.
A biblioteca dos Inoar ocupava quase uma ala inteira da mansão. Estantes altas cobriam as paredes, havia uma escada móvel de madeira e poltronas perto das janelas. O lugar tinha cheiro de papel, madeira encerada e... flores.
Flores de novo.
Desde que eu acordara naquele corpo, sentia um cheiro adocicado vindo de mim. No começo, achei que fosse perfume. Depois, considerando a quantidade de tecido caro, lençóis impecáveis e gente disposta a me chamar de pequeno lírio, comecei a suspeitar de algum amaciante importado.
Não que eu entendesse muito de amaciante. Minha experiência com lavanderia se resumia a separar as roupas claras das escuras e reclamar quando alguma camiseta encolhia.
Mas aquele cheiro era agradável. Meio doce, meio floral. Lírio, talvez.
O que fazia sentido, considerando que aparentemente eu tinha virado um enfeite de jardim com pernas.
— Preciso de livros sobre este lugar — avisei ao funcionário que me acompanhava.
Ele inclinou a cabeça.
— Algum assunto específico, jovem mestre?
— Tudo. História, costumes, como as pessoas vivem, essas coisas. E, se tiver, alguma coisa sobre doenças que fazem um sujeito acordar com outra cara.
O homem piscou.
— Outra cara?
— Esquece. Começa pelo básico.
Ele me conduziu até uma seção com livros sobre Avelor, a história das grandes famílias e os costumes da nobreza. Peguei alguns volumes, escolhi uma poltrona confortável e me preparei para descobrir que tipo de maluquice meu cérebro havia inventado.
A primeira meia hora foi um saco.
Aparentemente, Avelor tinha reis, duques, marqueses, condes, viscondes e barões. Uma quantidade absurda de gente com títulos pomposos e tempo livre suficiente para transformar um jantar em uma questão diplomática.
Também descobri que a família Inoar era respeitada, possuía terras e tinha relações com outras casas nobres. Isso explicava a mansão, as roupas caras e o fato de ninguém parecer preocupado com o preço da comida.
Até aí, tudo bem. Meu cérebro tinha bom gosto para cenários.
O problema começou quando peguei um livro sobre a organização social de Avelor.
Abri numa página qualquer, li o primeiro parágrafo e franzi a testa.
Voltei ao início.
Li de novo.
Depois, virei algumas páginas, na esperança de que o autor estivesse fazendo uma piada muito longa.
Não estava.
— Ômega? — murmurei.
A palavra apareceu tantas vezes que comecei a desconfiar de que aquele povo tinha uma obsessão com a letra grega.
Segundo o livro, as pessoas eram classificadas em três categorias biológicas: alfa, beta e ômega.
Fiquei olhando para a página.
— Tá. E eu sou o quê? Um beta?
Continuei lendo.
Alfas costumavam ocupar posições de prestígio, sobretudo entre as grandes famílias nobres. Betas estavam presentes em praticamente todos os setores da sociedade, inclusive em funções administrativas e serviços. Já os ômegas eram tratados com uma delicadeza que, segundo o autor, estava relacionada às suas características biológicas.
Delicadeza.
Olhei para minhas mãos finas.
Olhei para o livro.
Olhei para minhas mãos de novo.
— Ah, não.
Continuei lendo, porque infelizmente eu sabia ler.
O texto explicava que os ômegas possuíam características próprias, incluindo a produção de feromônios, que podiam ser percebidos por outras pessoas. Esses aromas variavam de indivíduo para indivíduo e podiam influenciar as interações sociais.
Parei.
Li aquela parte mais uma vez.
Feromônios.
Aromas naturais.
Influência nas interações sociais.
Devagar, muito devagar, levantei a cabeça.
— Não.
A biblioteca permaneceu em silêncio.
— Não, não, não. Pera aí.
Apoiei o livro no colo e comecei a juntar as peças.
O cheiro adocicado que eu sentia desde que acordara. Aquele perfume de lírio que eu tinha atribuído a algum produto de lavanderia absurdamente caro. Os aromas que percebera nas outras pessoas, sempre achando que cada um usava uma colônia diferente.
O cheiro amadeirado de Maximus. O perfume floral de Eva. A fragrância mais fresca que Helena parecia carregar.
Não eram perfumes.
Ou, pelo menos, não necessariamente.
E eu não estava usando amaciante de lírio.
— PUTA QUE PARIU!
Uma senhora que consultava um livro numa poltrona próxima ergueu os olhos na minha direção.
Endireitei a postura.
— Desculpe. Me empolguei com a leitura.
Ela me encarou por alguns segundos, aparentemente sem saber o que fazer com aquela informação, e voltou ao livro.
Ótimo. Primeira descoberta: eu tinha perdido a capacidade de me comportar como uma pessoa normal. Segunda descoberta: aparentemente, eu era um ômega.
Um ômega.
A palavra parecia ridícula até dentro da minha cabeça.
Eu, Carlos Duarte, homem hétero, musculoso, dono de uma presença capaz de fazer qualquer ambiente melhorar com a minha chegada, agora era uma dessas criaturas delicadas que precisavam ser tratadas com cuidado?
Era isso?
Era por isso que todo mundo me olhava como se eu fosse quebrar se alguém batesse uma porta com força?
Passei a mão pelo rosto.
— Meu Deus, eu virei uma princesa.
A senhora da poltrona fez um ruído de reprovação.
— Um ômega não é uma princesa, jovem mestre.
Virei a cabeça tão depressa que quase derrubei o livro.
— A senhora está ouvindo meus pensamentos?
Ela ergueu uma sobrancelha.
— O senhor falou em voz alta.
Ah.
Justo.
— Certo. Claro. Obrigado pela informação.
A mulher voltou à leitura, provavelmente decidida a fingir que não conhecia o sujeito esquisito sentado a poucos metros dela.
Eu, por outro lado, já tinha problemas demais para me preocupar com a opinião de uma desconhecida.
Voltei ao livro.
Se aquela classificação era real naquele mundo, precisava entender exatamente o que significava. Peguei outro volume, depois mais um. Consultei um tratado sobre características biológicas e um manual sobre costumes sociais. Em pouco tempo, espalhei tantos livros ao redor da poltrona que parecia estar preparando uma tese.
Não que eu quisesse virar um especialista no assunto.
Eu só precisava descobrir o tamanho da merda em que estava metido.
Os alfas, pelo que entendi, tendiam a ocupar posições de poder e eram associados a determinadas características físicas e biológicas. Os betas não apresentavam as mesmas particularidades dos outros dois grupos e compunham uma parcela importante da população. Já os ômegas tinham um organismo diferente, com feromônios próprios e períodos de cio.
Parei de ler.
Voltei duas linhas.
Li de novo.
— Períodos de quê?
A resposta estava impressa ali, preta no branco, sem a menor vergonha.
Cio.
Eu precisava de um minuto.
Levantei da poltrona, dei três passos, voltei e sentei outra vez.
— Não. Isso não existe. Isso é coisa de animal.
Olhei para o livro.
O livro continuou existindo.
— Não começa a me olhar assim, desgraça.
Se alguém tivesse me contado aquela história antes, eu teria rido na cara da pessoa. Alfas, betas, ômegas, feromônios, cio... Parecia o tipo de maluquice que alguém inventava depois de passar tempo demais na internet.
E, no entanto, era justamente o que estava escrito nos livros daquele lugar.
Pior: tudo aquilo parecia perfeitamente normal para as pessoas que viviam ali.
Não havia qualquer indicação de que fosse uma doença, uma maldição ou alguma anomalia rara. Era simplesmente como o mundo funcionava.
O que significava que ninguém ali estava fingindo.
Ou meu cérebro tinha desenvolvido um senso de humor particularmente cruel.
Passei mais uma hora estudando. Descobri que a posição social não dependia apenas da classificação biológica: família, título, riqueza e reputação também tinham um peso enorme. Havia ômegas influentes, alfas sem grandes títulos e betas com poder suficiente para fazer nobres engolirem desaforos.
Pelo menos aquele povo não era completamente idiota.
Também descobri que o tratamento delicado dispensado aos ômegas não era apenas uma questão de educação. Havia costumes e expectativas sociais ligados à classificação, e algumas pessoas levavam tudo aquilo muito a sério.
Isso explicava muita coisa.
A maneira como Eva falava comigo. A preocupação exagerada de Maximus. Os olhares atentos de Helena. Até a forma como os empregados pareciam tomar cuidado com cada gesto meu.
Eu tinha interpretado tudo como uma mistura de excesso de dinheiro, educação aristocrática e gente que precisava urgentemente arrumar um hobby.
Agora, começava a entender.
E não gostei nem um pouco.
Fechei o livro com força.
— Beleza. Então, resumindo: acordei num corpo que não é meu, numa mansão que não conheço, num lugar chamado Avelor, e ainda por cima sou um ômega.
Fiquei em silêncio por um instante.
— Caralho, eu devia ter ficado dormindo.
Olhei para os livros espalhados ao meu redor. Se aquilo fosse um coma, era um coma muito comprometido com a construção de mundo. Se fosse um sonho, meu subconsciente precisava urgentemente de terapia. E, se alguém tivesse armado uma pegadinha, eu ia descobrir quem foi e fazer essa pessoa se arrepender de ter nascido.
Só que havia um detalhe incômodo.
Eu ainda não tinha encontrado uma única explicação para o fato de estar naquele corpo.
Nem para a minha queda.
Nem para o motivo de todo mundo insistir em me chamar de Lith.
Passei os dedos pela capa do livro e respirei fundo. O cheiro de lírio voltou a me envolver, doce e persistente.
Olhei para o próprio peito, indignado.
— E para de feder a flor, porra. Eu já entendi.
Não houve resposta, evidentemente.
Levantei, reuni os livros e os devolvi às estantes com a ajuda do funcionário. Minha cabeça estava cheia de informações novas, a maioria delas completamente absurda, e eu precisava de tempo para processar tudo.
Uma coisa, porém, estava decidida.
Se eu realmente tivesse de continuar preso naquele lugar, não seria por falta de preparo que passaria vergonha.
Eu ia descobrir como aquele mundo funcionava, aprender o mínimo necessário para sobreviver e, assim que encontrasse uma maneira de sair daquela situação, voltaria à minha vida normal.
Simples.
Fácil.
Tranquilo.
Só precisava ignorar o fato de que, aparentemente, eu era um ômega com cheiro de lírio e um amendoim no lugar do meu orgulho.