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Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Capítulo 8

Reencarnei no BL que Eu Nunca Li

Capítulo 8

Capítulo 9 · 9 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Se havia uma coisa que eu estava começando a entender sobre os bailes daquela gente, era que ninguém vinha ali apenas para dançar.

As pessoas conversavam, trocavam elogios, fingiam interesse por assuntos que provavelmente consideravam uma merda e sorriam como se cada frase tivesse sido ensaiada diante do espelho. Era um teatro de gente rica, com roupas caras, bebidas melhores do que qualquer coisa que eu costumava tomar e uma quantidade absurda de regras que ninguém parecia disposto a explicar.

Meus pais, por exemplo, conheciam gente demais.

— Lith, querido, venha conhecer o conde e a esposa.

Eva me chamou com um sorriso, fazendo sinal para um casal elegante que estava perto de uma das janelas.

Fui até eles. O conde apertou minha mão, elogiou minha aparência e perguntou sobre minha recuperação. A esposa também demonstrou preocupação com a minha queda, embora parecesse muito mais interessada em observar meu rosto do que em ouvir a resposta.

— Nosso filho também está aqui esta noite — comentou ela. — Ele tem se dedicado bastante à administração das propriedades da família.

— Que bom para ele — respondi.

A mulher piscou, surpresa por um instante, antes de sorrir novamente.

Minha mãe, ao meu lado, continuou com aquela expressão satisfeita que vinha usando a noite inteira.

— Tenho certeza de que teremos outras oportunidades de nos encontrar — disse Eva, despedindo-se do casal.

Quando voltamos para perto de Maximus, meu pai comentou:

— O filho deles parece um bom rapaz.

— Que bom.

Ele me olhou.

— Você poderia demonstrar um pouco mais de interesse.

— Pelo quê? Pela administração das propriedades? Posso tentar, mas não prometo nada.

Maximus fechou os olhos por um breve instante. Eu estava começando a achar que ele fazia aquilo para controlar uma dor de cabeça crônica.

Pouco depois, minha mãe me apresentou a outra família. Dessa vez, a conversa girou em torno de viagens, música e de uma filha que, segundo a mãe, era uma alfa extremamente talentosa. A moça me cumprimentou com um sorriso educado, e eu retribuí.

Ela era bonita, mas não fazia muito meu tipo, não gosto de mulheres maiores que eu.

Quando nos afastamos, percebi que a mãe dela continuava olhando na minha direção. Dei uma conferida discreta nas mangas, depois na gola e, por fim, passei a mão pelo cabelo.

Nada fora do lugar.

Ótimo. Devia ser inveja.

A noite seguiu nesse ritmo. Um casal me perguntava sobre minha saúde, outro comentava como eu havia crescido, e um senhor que parecia ter engolido uma melancia inteira me contou durante vários minutos sobre as vantagens de investir em terras próximas ao rio. Em algum momento, perdi o fio da conversa e comecei a pensar se os cavalos daquelas carruagens recebiam alimentação melhor do que muita gente.

Pelo menos a comida era excelente.

Peguei um pequeno canapé de uma bandeja e o experimentei. Depois outro. E mais um, porque não havia motivo para desperdiçar as coisas boas que apareciam na minha frente.

Foi quando Helena reapareceu acompanhada de uma jovem de cabelos castanhos presos num penteado elegante. O vestido azul-escuro destacava os olhos claros dela, e seu sorriso era tão natural que destoava um pouco das expressões cuidadosamente treinadas ao redor.

— Você demorou — a jovem disse a Helena.

— Tive de ajudar meu irmão a ficar pronto.

A moça olhou para mim, da roupa ao cabelo.

— Então foi você a responsável? Consigo perceber o requinte nos detalhes.

Olhei para Helena. Depois para a jovem.

Gostei dela.

A jovem riu, e Helena balançou a cabeça.

— Lith, esta é Seraphina, minha noiva, ela retornou do exterior há pouco tempo.

Noiva.

Olhei para as duas. A maneira como Seraphina se aproximou de Helena, tocando de leve sua mão, deixou bem claro que não se tratava de uma formalidade qualquer.

Ah. Então era assim.

— Prazer — falei, inclinando a cabeça. — Minha irmã nunca comentou que estava noiva.

— Eu comentei — Helena respondeu.

— Quando?

— Desde quando o compromisso foi formalizado, porém Seraphina estava fora.

— Ah. Então foi antes do meu acidente, não conta.

Seraphina riu outra vez. Helena tentou manter a expressão séria, mas não conseguiu por muito tempo.

— Ele é adorável — Seraphina disse.

— Não se precipite. Você ainda não passou uma noite inteira na mesma casa que ele — Helena respondeu.

— Estou ouvindo, sabia? — reclamei.

— Era a intenção.

As duas trocaram um olhar cúmplice, e Helena segurou a mão da noiva por um instante antes de soltá-la para cumprimentar outro convidado.

Acompanhei Seraphina com os olhos enquanto ela se afastava. Ela parecia legal. Minha irmã também parecia mais tranquila perto dela, o que era curioso, considerando que Helena passava metade do tempo me olhando como se estivesse esperando que eu ateasse fogo nas cortinas.

— Ela é bonita — comentei.

— De fato.

A resposta veio tão depressa que quase ri.

— E você está muito apaixonada.

Helena virou o rosto para mim, surpresa.

— O que fez você pensar isso?

— Você olha para ela como se tivesse acabado de encontrar um baú do tesouro.

Por um instante, minha irmã ficou sem resposta. Depois, seu sorriso mudou. Ficou mais discreto, mas também mais verdadeiro.

— Talvez eu tenha.

Bom. Pelo menos alguém naquela família parecia estar vivendo uma história decente.

Eu estava ocupado tentando descobrir se era possível morrer de tédio dentro de uma roupa tão cara.

Um homem se aproximou pouco depois. Era jovem, bem-vestido e tinha um sorriso que parecia ter sido cuidadosamente treinado para convencer pessoas a entregar dinheiro. Seu perfume era amadeirado, com uma nota adocicada que senti antes mesmo de ele parar diante de nós.

— Lorde Inoar — cumprimentou ele. — Fico feliz em vê-lo recuperado.

— Obrigado.

— Sua queda preocupou muitas pessoas.

— Imagino.

Ele riu, como se eu tivesse feito uma piada.

Eu não tinha.

O homem continuou falando, elogiando minha aparência, perguntando sobre minha saúde e comentando que eu parecia ainda mais bonito do que se lembrava. Enquanto isso, aquele cheiro foi ficando mais intenso. Não era exatamente desagradável, mas havia algo nele que me incomodava. Uma pressão no fundo do nariz, uma sensação estranha de que o sorriso diante de mim não combinava com o resto.

O sujeito queria alguma coisa.

Eu só não sabia o quê.

— Espero que possamos conversar com mais calma em outra ocasião — disse ele, inclinando-se um pouco na minha direção.

O cheiro ficou mais quente, quase sufocante.

Dei um passo para trás.

— Claro. Quem sabe.

Ele pareceu satisfeito com a resposta e se afastou.

Fiquei olhando para o espaço que tinha deixado.

— O que foi? — Helena perguntou.

— Você sentiu o cheiro daquele cara?

Ela franziu a testa.

— Está falando dos feromônios?

— Não sei. Talvez.

— Não te agrada?

— Não. Por quê?

— Porque está fazendo uma cara estranha.

— Eu tenho uma cara excelente. A expressão é que muda conforme a qualidade das pessoas ao meu redor.

Helena soltou um suspiro.

Eu, por outro lado, estava ocupado tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

Na biblioteca, eu tinha aprendido que os feromônios eram naturais e que cada pessoa possuía um cheiro próprio. Tudo muito bonito na teoria. Só que ninguém tinha me avisado que o cheiro podia parecer diferente dependendo de quem estava perto, nem que alguns deles provocariam uma reação tão imediata.

Talvez fosse coisa do meu corpo. Talvez o cheiro daquele sujeito fosse uma arma química. Talvez eu estivesse ficando maluco.

A terceira opção continuava sendo a mais provável.

Uma bandeja passou por perto, carregada de taças. Peguei uma bebida dourada, mais por curiosidade do que por sede.

— Devagar — Helena avisou ao notar a taça na minha mão.

— Eu sei beber.

— Não foi isso que eu disse.

— Então deveria dizer o que quer dizer.

Ela me lançou um olhar que provavelmente teria feito o Lith original obedecer na mesma hora.

Infelizmente para ela, eu não era o Lith original.

Levei a taça aos lábios. A bebida era doce, frutada e descia com uma facilidade perigosa. Eu não costumava recusar coisas boas, principalmente quando eram servidas em recipientes elegantes e aparentemente não custavam nada.

Enquanto bebia, observei o salão.

Um homem de cabelos claros passou perto de mim, acompanhado por outro convidado. O tecido do casaco dele tinha pequenos bordados prateados nos punhos, formando flores de cinco pétalas. Meu olhar ficou preso naquele detalhe por um segundo.

Eu conhecia aquele desenho.

Ou achava que conhecia.

A lembrança veio incompleta: uma imagem, cores escuras ao fundo, flores claras e alguma coisa escrita perto da margem. Pisquei, tentando puxá-la de volta, mas ela desapareceu.

Que inferno.

Devia ter visto aquilo em algum jogo, filme ou ilustração na internet. Eu consumia tanta porcaria no celular que não era impossível meu cérebro estar misturando tudo.

Bebi outro gole.

Perto da mesa de bebidas, dois homens conversavam. Um deles olhou para mim e disse alguma coisa ao companheiro. O outro se virou imediatamente.

Os dois começaram a caminhar na minha direção.

Olha só, só homens se aproximam, onde estão as mulheres desse baile?

O primeiro me cumprimentou com um sorriso aberto. Seu cheiro era fresco, quase cítrico, e não provocou aquela sensação desagradável do sujeito anterior. Pelo contrário, havia algo leve nele, uma curiosidade que parecia combinar com a expressão.

— Lorde Inoar, gostaria de saber se já está se sentindo melhor.

— Estou ótimo.

— Fico aliviado. Seria uma pena perder alguém tão interessante por causa de uma queda.

Conversamos por alguns minutos. Ou melhor, ele conversou, e eu contribuí com comentários brilhantes sempre que necessário. O segundo homem também participou, embora parecesse mais interessado em me observar do que em falar. De vez em quando, o cheiro dele mudava, ficando mais intenso quando eu sorria ou respondia a alguma pergunta.

Aquilo começou a me irritar.

Era como se meu próprio corpo estivesse me contando uma fofoca e se recusasse a explicar o final.

— Você está corado — comentou o primeiro homem.

— O salão está quente.

Não estava.

— Talvez seja a bebida — ele sugeriu.

Olhei para a taça.

Fazia sentido.

Tomei outro gole para confirmar a hipótese.

O gosto continuava excelente.

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