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Xeque-Mate da Marquesa

Prólogo

Xeque-Mate da Marquesa

Prólogo

Capítulo 1 · 6 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Lady Eleanor Warwick tinha sido instruída, naquela manhã, a permanecer sentada. Considerava aquilo uma tarefa particularmente injusta, sobretudo porque não via motivo algum para passar a tarde inteira diante de um livro de genealogias apenas porque havia decidido explorar o jardim antes da aula.

— Uma dama não se comporta dessa maneira — sua mãe havia dito pela terceira vez.

Eleanor não sabia exatamente o que havia feito de tão terrível. Estava apenas com os sapatos sujos. Bem, talvez não apenas os sapatos. Havia uma pequena mancha de lama na barra do vestido, outra no joelho e, se sua mãe resolvesse olhar atrás de sua orelha esquerda, encontraria uma terceira.

Ainda assim, nada daquilo parecia justificativa suficiente para obrigá-la a decorar os nomes de homens mortos havia décadas.

— Uma dama deve conhecer sua linhagem — insistiu a duquesa de Warwick.

Eleanor observou a árvore genealógica desenhada no papel diante dela. Havia nomes, títulos, casamentos e propriedades espalhados por várias gerações, como se alguém tivesse decidido transformar uma família inteira em um emaranhado de galhos.

— Eu já conheço a minha.

Sua mãe ergueu uma sobrancelha.

— Conhece?

— Sim. Sou filha do duque.

A duquesa fechou os olhos por um instante, como se pedisse paciência aos céus.

— Não foi isso que quis dizer.

Eleanor voltou a olhar para o livro, embora já tivesse perdido completamente o interesse. Havia homens mortos, casamentos antigos, propriedades e mais homens mortos. Nada ali parecia tão importante quanto o mundo que existia do lado de fora da janela.

O sol iluminava os jardins, os pássaros cantavam entre as árvores e, ao longe, ela conseguia ouvir os cavalos nos estábulos.

Então veio uma risada.

Eleanor ergueu a cabeça imediatamente. Conhecia aquela risada.

Levantou-se.

— Sente-se.

Ela parou no meio do movimento.

— Eu estava sentada.

— Então volte a sentar.

Eleanor olhou para a janela, depois para o livro e, por fim, para a mãe.

— Preciso ir ao jardim.

— Não.

— Por quê?

— Porque você tem uma aula.

— Posso estudar no jardim.

— Não pode.

— Posso ler enquanto caminho.

— Eleanor.

— Posso—

— Não.

A menina suspirou. Pelo tom da mãe, estava claro que não pretendia ceder.

Então Eleanor fez o que qualquer dama obediente faria diante de uma situação impossível.

Sorriu.

Naquele instante, decidiu que sua mãe não precisava saber por qual porta ela sairia.

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Chegar ao jardim pela janela não era exatamente uma entrada apropriada para uma dama, mas era muito mais rápida. Eleanor correu pelo caminho de pedras, levantando a saia para não tropeçar, até alcançar o pequeno muro que separava os jardins da propriedade das terras onde os empregados trabalhavam.

— Você demorou.

Ela parou diante da voz conhecida.

O menino estava sentado sobre uma cerca de madeira, com uma maçã na mão. Os cabelos estavam desgrenhados, as botas cobertas de barro e havia uma mancha escura atravessando sua bochecha. Eleanor não sabia como ele conseguia ficar mais sujo a cada encontro, mas começava a suspeitar que aquilo fosse algum tipo de talento.

Colocou as mãos na cintura.

— Minha mãe me prendeu em uma aula.

— E você fugiu.

— Obviamente.

Ele sorriu.

— Você vai levar outra bronca.

— Já levei uma.

— Então valeu a pena.

Eleanor tentou segurar o riso, mas acabou sorrindo também. Aproximou-se e sentou-se ao lado dele na cerca.

— O que você está fazendo?

— Nada.

— Você está sempre fazendo nada.

— É uma coisa que faço muito bem.

Ela olhou para a maçã que ele segurava.

— É minha?

O menino imediatamente afastou a fruta.

— Não.

— Então por que trouxe?

— Porque você sempre rouba a minha.

— Eu não roubo.

— Pega sem pedir.

— Isso é diferente.

— Não é.

Eleanor estendeu a mão para pegar a maçã, mas ele a afastou ainda mais, erguendo-a fora do alcance dela. Ela tentou novamente, dessa vez inclinando-se sobre a cerca, e ele começou a rir.

— Pare!

— Dê aqui!

Os dois passaram a disputar a fruta até que Eleanor conseguiu arrancá-la de sua mão. Ela a segurou contra o peito com um sorriso vitorioso.

— Viu?

— Ladra.

— Filho de criada.

O sorriso dele desapareceu por um instante.

Eleanor percebeu imediatamente.

As palavras haviam saído de sua boca sem maldade, como tantas outras coisas que dizia sem pensar, mas, dessa vez, pareceram diferentes. Talvez porque nunca tivesse parado para considerar aquilo. Para ela, ele era apenas ele.

O menino que sabia subir nas árvores mais altas, que conhecia os melhores lugares para se esconder, que conseguia assobiar com os dedos e que sempre aparecia quando Eleanor estava entediada.

Ela olhou para a maçã, partiu-a ao meio com as mãos e estendeu uma das partes para ele.

— Pronto.

Ele aceitou a fruta, embora ainda parecesse um pouco contrariado.

— Você é péssima pedindo desculpas.

— Eu não pedi desculpas.

Eleanor sorriu.

Durante algum tempo, os dois ficaram comendo em silêncio, balançando as pernas sobre a cerca. O vento passava pelas árvores e carregava consigo o cheiro da terra úmida e dos animais que ficavam mais adiante. Era um cheiro que Eleanor provavelmente deveria considerar desagradável.

Ela gostava.

Foi então que o menino apontou para a estrada que se estendia além das árvores.

— Um dia vou embora daqui.

Eleanor franziu a testa.

— Para onde?

— Não sei.

— Então não pode ir.

Ele soltou uma risada.

— Posso fazer o que quiser.

— Eu também.

— Não pode.

Eleanor virou-se para ele, indignada.

— Posso, sim.

— Você é uma dama.

Ela fez uma careta.

— Não quero ser.

— Você vai ter que ser.

Eleanor não gostou daquela resposta. Olhou para o caminho à sua frente e pensou no livro que havia deixado sobre a mesa, nas aulas que ainda teria de assistir e em todas as coisas que sua mãe dizia que uma dama deveria aprender.

Depois voltou os olhos para o menino.

— E você?

Ele deu de ombros, como se a pergunta fosse muito simples.

— Eu posso ser qualquer coisa.

Eleanor ficou em silêncio por alguns segundos. Então estendeu o dedo mindinho.

— Então prometa uma coisa.

Ele olhou para a mão dela, curioso.

— O quê?

— Se você for embora, volta para me buscar.

O menino demorou um instante antes de entrelaçar o próprio dedo ao dela.

— Prometo.

Eleanor sorriu, satisfeita com o acordo.

Naquele momento, nenhum dos dois poderia imaginar que algumas promessas nasciam da inocência de uma criança, mas permaneciam vivas por tempo suficiente para serem cobradas pelo destino como uma dívida.

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