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Xeque-Mate da Marquesa

Capítulo 1

Xeque-Mate da Marquesa

Capítulo 1

Capítulo 2 · 7 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Depois daquele dia, Eleanor descobriu que as manhãs pareciam muito mais longas quando não havia um menino esperando por ela do outro lado do jardim. Durante dois dias, tentou se comportar. No primeiro, permaneceu sentada durante toda a aula de etiqueta, embora tivesse passado a maior parte do tempo observando a chuva escorrer pelo vidro da janela. No segundo, conseguiu bordar três flores em um pedaço de tecido sem espetar o próprio dedo mais de uma vez. Sua mãe chegou a elogiá-la no jantar, o que deveria ter sido motivo suficiente para continuar. Não foi. Na terceira manhã, quando a preceptora virou as costas para buscar outra meada de linha, Eleanor enfiou o último ponto onde conseguiu, pousou a agulha e levantou-se. — Lady Eleanor, sente-se. Ela já estava perto da porta. — Preciso beber água. A preceptora apontou para o copo sobre a mesa. — A água está ali. Eleanor olhou para o copo, depois para a mulher. — Essa não serve. — Água não muda de sabor só porque está em um copo diferente. — Minha garganta discorda. Antes que pudesse ouvir outra repreensão, Eleanor abriu a porta e saiu correndo pelo corredor. A preceptora chamou seu nome duas vezes, mas a menina já havia dobrado a esquina. Conhecia aquela casa melhor do que qualquer adulto imaginava. Sabia quais corredores ficavam vazios durante a manhã, qual das escadas rangia sob os pés e qual porta da despensa permanecia destrancada porque a cozinheira sempre se esquecia de girar a chave. A janela do corredor dos fundos era a mais fácil. Eleanor levantou a saia, apoiou um pé no parapeito e passou para o outro lado com a prática de quem já havia feito aquilo muitas vezes. O jardim estava úmido por causa da chuva da noite anterior, e o cheiro da terra molhada chegou até ela antes mesmo de seus pés tocarem a grama. Ela sorriu. Dali em diante, ninguém poderia obrigá-la a decorar os nomes dos ancestrais dos Warwick. Pelo menos não até encontrá-la. Eleanor atravessou o jardim depressa, desviando dos canteiros mais bem cuidados e seguindo em direção à parte da propriedade onde os criados trabalhavam. Havia um caminho mais curto por entre as árvores, mas ela gostava daquele que passava perto do pequeno lago porque, quando o tempo estava bom, conseguia ver os patos antes de chegar à cerca. Naquele dia, entretanto, não havia ninguém ali. Ela olhou para os lados. — Ally? Nenhuma resposta. Avançou mais alguns passos. — Ally! Um grunhido veio do outro lado da cerca. Eleanor arregalou os olhos. — Você está aí? — Não. Ela reconheceu a voz imediatamente. — Está, sim. — Não estou. — Eu consigo ouvir você. — Então talvez esteja ouvindo outra pessoa. Eleanor riu e passou pelo espaço entre duas tábuas da cerca, estreito o suficiente para prender a manga do vestido, mas largo o bastante para permitir que ela se espremesse por ele. Ally estava agachado perto do chiqueiro, segurando um balde vazio. Assim que a viu, ficou de pé. — Você não deveria estar aqui. — Você também não deveria estar no meu jardim. — Eu trabalho aqui. — Então é uma desculpa melhor que a minha. Ele tentou esconder o sorriso. — Sua mãe vai descobrir. — Minha mãe sempre descobre. — E mesmo assim você continua fugindo. Eleanor deu de ombros.

Ally soltou uma risada curta e desviou o olhar. Ainda parecia um pouco desconcertado quando ela aparecia, como se não tivesse se acostumado com a ideia de uma menina como Eleanor preferir o chiqueiro aos salões da propriedade. Ela, por outro lado, já começava a considerar aquele lugar seu. Não que gostasse particularmente do cheiro. Mas gostava de estar ali. Gostava de não precisar se sentar direito. Gostava de poder sujar as mãos sem ouvir uma criada correndo atrás dela com um pano. Gostava, sobretudo, de conversar com alguém que não corrigia a maneira como ela segurava uma xícara ou a posição dos pés quando caminhava. — O que você está fazendo? — perguntou. — Alimentando os porcos. Eleanor olhou para os animais. — Eles parecem famintos. — Eles sempre estão famintos. — Como você sabe qual deles já comeu? Ally apontou para os menores. — Aqueles ficam para trás. Tenho que prestar atenção para não deixarem os maiores comerem tudo. Eleanor se aproximou. — Então você precisa tomar conta deles? — Preciso. — É difícil? Ele pensou por um instante. — Às vezes. — Mais difícil do que bordar? Ally franziu a testa. — Bordar? Eleanor abriu a boca, indignada. — Você não sabe? — Não. — É horrível. Ele riu. — Então por que você faz? Eleanor pensou na resposta. Sua mãe diria que uma dama precisava saber bordar. Sua preceptora diria que era uma atividade delicada e apropriada. Talvez até sua avó dissesse que uma mulher deveria ser capaz de enfeitar suas próprias roupas. Mas nada disso parecia uma resposta que pudesse dar a Ally. — Porque mandam. Ele assentiu como se entendesse perfeitamente. Eleanor ficou olhando para ele por alguns segundos. — Você também faz coisas porque mandam? Ally segurou o balde com as duas mãos. — A maioria das coisas. Ela não gostou da resposta. Talvez porque fosse a primeira vez que percebia que não era a única pessoa naquela propriedade obrigada a fazer coisas que não escolheria. Sentou-se sobre a cerca e balançou as pernas. — Quando eu crescer, não vou passar o dia inteiro bordando. — O que vai fazer? — Não sei. — Então como sabe que não vai bordar? — Porque posso decidir. Ally olhou para ela com uma expressão divertida. — Pode? Eleanor estreitou os olhos. — Posso. Ele não respondeu. Apenas voltou a cuidar dos animais. Eleanor ficou ali, observando-o. Não sabia por que gostava tanto daquela conversa. Talvez porque Ally nunca parecesse impressionado com o que ela dizia. Não se apressava em concordar apenas porque ela era filha do duque. Se achava uma coisa absurda, dizia. Se ela fazia alguma coisa engraçada, ria. E quando Eleanor falava sobre fugir para algum lugar distante, ele não dizia imediatamente que aquilo era impossível. Era diferente de todos os adultos que conhecia. Depois de algum tempo, ela perguntou: — Você sabe subir em árvores? Ally levantou a cabeça. — Sei. — Qualquer árvore? — Quase. — A maior do jardim? Ele apontou para ela. — Aquela? — Sim. — Sei subir. Eleanor sorriu. — Então amanhã você vai me ensinar. — Amanhã? — Sim. — Você não deveria estar estudando? Ela fez uma careta. Ally riu. — Você é uma menina muito estranha, Lady Eleanor. Ela ergueu o queixo, satisfeita. Foi naquele instante que ouviram uma voz ao longe. — Lady Eleanor! O sorriso desapareceu do rosto da menina. Ally olhou para o caminho. — Acho que encontraram você. A voz tornou a chamá-la, agora mais próxima. Eleanor saltou da cerca e correu para o espaço entre as tábuas por onde havia passado. Antes de desaparecer, voltou-se para ele. — Amanhã. Ally balançou a cabeça. — Amanhã. Ela correu de volta para a mansão, segurando a saia com as duas mãos e tentando limpar a lama das pernas antes que alguém a visse. Não adiantou. Quando entrou pela porta dos fundos, encontrou a governanta esperando por ela com os braços cruzados. Eleanor parou. A mulher olhou primeiro para os pés descalços, depois para o vestido manchado e, por fim, para os cabelos desgrenhados. — Sua mãe está procurando por você. Eleanor respirou fundo. — E a preceptora também. — Imagino. — E o que pretende fazer agora? Eleanor olhou para a escada que levava aos aposentos da família. Depois para o corredor. Por fim, abriu um sorriso inocente. — Tomar banho? A governanta suspirou. — Primeiro vai pedir desculpas à sua mãe. Eleanor fez uma careta, mas começou a subir as escadas. Enquanto caminhava, porém, já pensava na manhã seguinte. Afinal, ainda precisava aprender a subir naquela árvore.

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