Capítulo 2
Capítulo 3 · 6 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Ally estava acostumado a não ser notado.
Na propriedade dos Warwick, isso não era necessariamente uma coisa ruim. Ser filho de uma criada significava aprender cedo que havia lugares onde não deveria entrar, pessoas diante das quais deveria baixar os olhos e conversas das quais era melhor manter distância. Ninguém precisava lhe explicar essas regras; ele aprendera observando a mãe, ouvindo os criados mais velhos e percebendo a maneira como os nobres mudavam de expressão quando ele passava.
Nos estábulos e no chiqueiro, porém, as coisas eram mais simples.
Os animais não se importavam com quem era filho de quem.
Naquela manhã, Ally carregava um balde de água quando um dos porcos resolveu empurrar a pequena porteira com o focinho. Ele largou o balde no chão antes que o animal conseguisse escapar.
— Nem pense nisso.
O porco continuou empurrando.
— Estou falando sério.
Como resposta, o animal soltou um grunhido e tentou outra vez.
Ally segurou a porteira com o ombro e conseguiu prendê-la no lugar. Respirou fundo, olhando para o bicho como se esperasse que ele compreendesse a gravidade da situação.
O porco apenas voltou para perto dos outros.
Ally pegou o balde novamente.
Era assim quase todos os dias.
Trabalho.
Água.
Palha.
Animais.
Depois, qualquer outra tarefa que aparecesse.
Ele não reclamava. Pelo menos não em voz alta.
Sua mãe dizia que o trabalho honesto nunca deveria ser motivo de vergonha, e Ally acreditava nela. Ainda assim, havia momentos em que desejava que as pessoas parassem de olhar para ele como se já soubessem tudo o que ele seria apenas por causa do lugar onde nascera.
Talvez por isso gostasse tanto de ficar sozinho.
Ou, pelo menos, gostasse antes de conhecer Eleanor.
Depois dela, o silêncio havia começado a parecer diferente.
Na noite anterior, enquanto sua mãe costurava perto da janela do pequeno quarto que dividiam, Ally havia tentado contar sobre a menina.
Não conseguiu.
Como explicaria aquilo?
Que a filha do duque havia aparecido perto do chiqueiro?
Que ela não parecia se importar com a lama?
Que havia rido com ele?
Que prometera voltar?
Parecia absurdo quando colocado em palavras.
Sua mãe ergueu os olhos do tecido.
— Está quieto hoje.
Ally deu de ombros.
— Estou cansado.
Ela o observou por mais alguns segundos.
— Algum problema?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Sua mãe voltou a costurar, mas Ally percebeu que ela não estava convencida.
Ela sempre percebia.
— Se fez alguma coisa errada, pode me contar.
— Eu não fiz nada.
— Isso não responde à pergunta.
Ally sorriu de leve.
— Não fiz nada errado.
Dessa vez, ela pareceu aceitar.
Pouco depois, o quarto ficou silencioso, exceto pelo som da agulha atravessando o tecido. Ally deitou-se, mas demorou a dormir.
Pensou na promessa que Eleanor havia feito.
Amanhã.
Ele não sabia por que aquela palavra parecia tão importante.
Talvez porque ninguém costumasse prometer que voltaria para vê-lo.
No dia seguinte, Eleanor apareceu.
Depois também.
E no outro.
A princípio, Ally acreditou que aquilo fosse apenas uma nova brincadeira para ela. Talvez logo se cansasse de fugir das aulas e encontrasse outra coisa mais interessante para fazer.
Não aconteceu.
Ela continuou aparecendo.
Às vezes chegava escondida atrás do estábulo. Outras, surgia pela margem do jardim com os cabelos bagunçados e a expressão satisfeita de quem acabara de escapar de alguma obrigação.
Ally passou a reconhecê-la antes mesmo de vê-la.
E começou a esperar.
Nunca admitiria isso.
Principalmente para ela.
Quando Eleanor aparecia, os trabalhos pareciam passar mais depressa. Quando não aparecia, ele se pegava olhando para o caminho mais vezes do que deveria.
Naquela tarde, enquanto carregava um saco de palha, ouviu uma das criadas comentar sobre a menina.
— A pequena lady está impossível ultimamente.
Ally fingiu não escutar.
— Vive fugindo das aulas.
— A mãe está furiosa.
— É uma vergonha para a família.
Ele continuou andando.
Não gostava quando falavam dela daquele jeito.
Não sabia exatamente por quê.
Talvez porque, para ele, Eleanor não fosse a menina que fugia das aulas ou envergonhava a família.
Era apenas Eleanor.
A menina que sentava na cerca sem se importar em sujar o vestido.
A menina que roubava suas maçãs.
A menina que dizia que podia fazer qualquer coisa.
Ele ainda não entendia por que ela gostava de ficar ao seu lado.
Mas começava a entender por que gostava que ela estivesse ali.
No fim daquela tarde, quando o trabalho terminou, Ally lavou as mãos no riacho e ficou algum tempo sentado à margem.
O céu estava começando a mudar de cor.
Ele pegou uma pequena pedra e a lançou na água.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, ouviu passos atrás de si.
Virou-se.
Eleanor estava ali.
— Você demorou — disse ela.
Ally olhou para ela, surpreso.
— Eu?
— Sim.
— Você que veio depois.
Ele balançou a cabeça, tentando esconder o sorriso.
— Hum.
Eleanor sentou-se ao lado dele.
Ficaram algum tempo em silêncio.
Não era um silêncio desconfortável. Aos poucos, começavam a descobrir que não precisavam preencher cada momento com conversa. Às vezes bastava estar ali.
Eleanor pegou uma pedrinha e jogou no riacho.
— Minha mãe disse que eu preciso me comportar como uma dama.
Ally olhou para ela.
— Você não quer?
— Não desse jeito.
— E como quer ser?
Ela pensou.
— Livre.
Ele ficou em silêncio.
A palavra parecia grande demais para uma menina tão pequena.
— E você? — ela perguntou. — O que quer ser?
Ally olhou para a água.
Não sabia.
Nunca tinha pensado que pudesse escolher.
Seu futuro parecia simples demais para exigir uma decisão: trabalhar, ajudar a mãe, talvez conseguir um emprego melhor quando fosse mais velho.
Mas, naquele momento, pela primeira vez, tentou imaginar outra coisa.
— Não sei.
Eleanor pareceu satisfeita com a resposta.
— Então podemos descobrir juntos.
Ally virou o rosto para ela.
— Juntos?
— Sim.
Ela disse aquilo com tanta naturalidade que ele não encontrou motivo para questionar.
Apenas assentiu.
O sol desaparecia lentamente atrás das árvores quando Eleanor se levantou.
— Preciso ir.
— Já?
— Se minha mãe descobrir onde estou, amanhã não vou conseguir sair.
Ally também se levantou.
— Então amanhã você não vem?
Eleanor abriu um sorriso.
— Claro que venho.
Ela começou a caminhar, mas parou alguns passos depois.
— Ally?
— O quê?
— Não conte para ninguém.
Ele cruzou os braços.
— Eu sei guardar segredos.
Ela sorriu.
Então desapareceu entre as árvores.
Ally ficou olhando até não conseguir mais vê-la.
Depois voltou para casa.
Naquela noite, sua mãe encontrou o filho sentado diante da janela, distraído.
— Está esperando alguém?
Ally imediatamente se virou.
— Não.
Ela sorriu.
— Ainda não aprendeu a mentir.
Ele abaixou os olhos, tentando esconder o próprio sorriso.
Talvez não soubesse mentir.
Mas sabia guardar um segredo.
E, por enquanto, Eleanor era o melhor segredo que já tivera.