Capítulo 3
Capítulo 4 · 8 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto
Depois de algum tempo, a propriedade dos Warwick começou a parecer pequena demais para Eleanor.
Não porque tivesse deixado de ser imensa, mas porque ela havia descoberto que existiam lugares dentro dela que ninguém parecia conhecer tão bem quanto ela e Ally. O jardim atrás da estufa, o velho caramanchão onde algumas roseiras haviam crescido sem controle, a margem do riacho escondida depois das árvores e até um pequeno depósito abandonado próximo aos estábulos passaram a fazer parte de um mapa que só os dois compreendiam.
Cada lugar tinha uma função.
O caramanchão servia para dias de chuva, embora o teto tivesse algumas goteiras.
A margem do riacho era perfeita para os dias quentes.
O depósito era onde escondiam coisas que não deveriam ter.
E o velho carvalho no limite do jardim era o lugar onde Eleanor insistia que Ally deveria ensiná-la a subir.
— Você vai cair.
— Não vou.
— Vai.
— Você disse isso ontem.
— E continuo certo.
Eleanor segurou o tronco com as duas mãos e tentou apoiar o pé em uma saliência da casca.
— Estou subindo.
— Está escorregando.
— É quase a mesma coisa.
Ally, alguns passos abaixo, estendeu os braços por precaução.
— Eleanor.
— Não precisa ficar aí.
— Preciso, sim.
Ela conseguiu alcançar um galho mais baixo e abriu um sorriso triunfante.
— Viu?
Ally ergueu os olhos.
— Você está a menos de um metro do chão.
— Mas estou acima de você.
Ele balançou a cabeça, contendo o riso.
— Isso parece ser o que realmente importa.
— Claro que é.
Eleanor tentou avançar mais um pouco, mas o pé escorregou.
Ally a segurou pela cintura antes que ela caísse.
Por um instante, os dois ficaram imóveis.
Eleanor olhou para baixo.
Depois para ele.
— Eu não ia cair.
— Claro que não.
— Eu só estava... descendo.
— De lado?
Ela estreitou os olhos.
— Não seja insolente.
Ally riu e a ajudou a voltar para o chão.
Era assim quase todos os dias.
Eleanor aparecia.
Ally reclamava.
Ela ignorava.
Depois os dois acabavam fazendo alguma coisa que nenhum deles deveria estar fazendo.
Às vezes, ela levava comida escondida da cozinha. Outras vezes, Ally aparecia com frutas que conseguira dos trabalhadores da propriedade. Certa manhã, Eleanor trouxe duas fitas de cabelo que havia encontrado em uma gaveta da mãe e declarou que uma delas seria dele.
Ally olhou para a fita azul.
— Para quê?
— Para prender o cabelo.
— Eu não vou usar isso.
— Vai.
— Não vou.
— Então vou contar para sua mãe que você deixou um porco escapar.
Ele arregalou os olhos.
— Você não faria isso.
Eleanor sorriu.
— Quer descobrir?
Ally tomou a fita da mão dela.
— Você é terrível.
— E você está usando a fita.
— Estou guardando.
— No cabelo?
Ele levou a mão à cabeça, percebendo tarde demais que havia amarrado a fita em uma pequena mecha.
Eleanor começou a rir.
Ally tentou tirá-la, mas ela segurou seu pulso.
— Não!
— Está ridículo.
— Está bonito.
— Não está.
— Está sim.
Ele olhou para ela por alguns segundos e acabou desistindo.
— Só porque você não vai parar.
— Exatamente.
Eleanor sentou-se na grama, satisfeita com a vitória.
Era fácil ser feliz ali.
Talvez porque, naquele pequeno pedaço escondido da propriedade, ninguém esperasse que ela fosse alguma coisa além de Eleanor.
Não precisava sentar com as pernas juntas.
Não precisava manter as costas retas.
Não precisava responder às perguntas da preceptora.
Não precisava sorrir quando não tinha vontade.
Podia correr, sujar o vestido, falar alto e fazer perguntas que sua mãe provavelmente consideraria inadequadas.
Com Ally, não precisava pensar antes de falar.
E ele também parecia diferente quando estavam juntos.
Mais solto.
Mais disposto a rir.
Às vezes, Eleanor esquecia que ele era filho de uma criada.
Não porque não soubesse disso, mas porque aquela informação simplesmente não parecia importante.
Para Ally, porém, era impossível esquecer.
Ele sabia exatamente o que aconteceria se alguém os encontrasse.
Os criados comentariam.
Sua mãe seria questionada.
Talvez os pais de Eleanor proibissem a filha de se aproximar dele ou coisa pior.
Era por isso que, quando ouviam passos ao longe, ele era sempre o primeiro a se preocupar.
— Esconde isso.
Eleanor olhou para o pequeno embrulho em suas mãos.
— Por quê?
— Alguém está vindo.
Ela rapidamente colocou o pacote atrás de uma pedra.
Os dois ficaram quietos.
Uma criada passou pelo caminho carregando uma cesta de roupas. Não olhou para os lados e desapareceu entre as árvores.
Eleanor soltou o ar.
— Você fica preocupado demais.
— E você, de menos.
— Se formos descobertos, eu digo que estava procurando alguma coisa.
— O quê?
Ela pensou.
— Uma flor.
— Você está segurando uma maçã.
Eleanor olhou para a fruta.
— Então estava procurando uma maçã.
Ally soltou uma risada.
— Você é péssima mentindo.
— Não sou.
— É, sim.
— Minha mãe acredita em mim.
— Sua mãe sabe que você mente.
Eleanor ficou indignada.
— Como você sabe?
— Porque você acabou de mentir para mim.
Ela abriu a boca para responder, mas não encontrou nada que pudesse usar contra ele.
Ally sorriu.
— Viu?
— Não gosto quando você está certo.
Ela jogou uma folha nele.
Ele devolveu.
Em poucos segundos, os dois estavam rindo novamente.
O segredo, porém, continuava crescendo.
Não era apenas o lugar onde se encontravam.
Eram também as coisas que começavam a guardar um do outro.
Eleanor não contava à mãe quando escapava.
Ally não contava aos outros criados quando ela aparecia.
Ela dizia que não gostava das aulas.
Ele admitia que não sabia o que queria fazer quando fosse adulto.
Ela falava sobre lugares que gostaria de conhecer.
Ele confessava que nunca havia visto uma cidade grande.
E, pouco a pouco, começaram a fazer planos que pertenciam apenas aos dois.
— Quando eu crescer, vou viajar — anunciou Eleanor certa tarde.
Estavam sentados à margem do riacho, com os pés dentro da água.
Ally pegou uma pequena pedra e a lançou na correnteza.
— Para onde?
— Para qualquer lugar.
— Isso não é um lugar.
— Então para vários lugares.
— Sua mãe vai deixar?
Eleanor fez uma careta.
— Quando eu for adulta, ela não poderá mandar em mim.
Ally ficou em silêncio por um instante.
— Talvez possa.
Ela virou o rosto.
— Por quê?
— Porque adultos sempre mandam em alguém.
Eleanor não gostou daquela resposta.
— Você fala como se já fosse velho.
— Minha mãe diz que eu preciso pensar antes de fazer as coisas.
— Minha mãe diz que preciso fazer as coisas antes mesmo de pensar.
Ally riu.
Eleanor apoiou as mãos na grama.
— Você viajaria comigo?
A pergunta saiu com tanta naturalidade que ele respondeu antes de pensar.
— Viajaria.
Ela sorriu.
— Então está decidido.
— O quê?
— Vamos viajar.
— Quando?
— Quando crescermos.
— E para onde?
Eleanor apontou para o horizonte.
— Para lá.
Ally olhou na direção indicada.
Não havia nada além de árvores, campos e uma estrada distante.
Ainda assim, naquele momento, pareceu suficiente.
— Está bem.
Eleanor estendeu a mão.
— Promessa?
Ally entrelaçou o dedo ao dela.
— Promessa.
Nenhum dos dois percebeu que estavam começando a construir, sem saber, um futuro que provavelmente nunca existiria daquela forma.
Naquele tempo, não havia importância em pensar tão longe.
Tinham o jardim.
O riacho.
As árvores.
Os esconderijos.
Tinham um ao outro.
E isso parecia suficiente.
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Os dias passaram.
A amizade dos dois tornou-se uma rotina silenciosa dentro da rotina da propriedade.
Eleanor aprendia rapidamente quais eram os horários em que sua preceptora costumava descansar e quais criadas tinham mais chances de denunciá-la. Ally, por sua vez, passou a conhecer os sinais que anunciavam sua chegada.
Três batidas na madeira do velho depósito significavam que ela estava ali.
Duas significavam que alguém a seguira.
Nenhuma significava que ele deveria esperar.
Tinham até criado uma espécie de código.
Eleanor considerava aquilo extremamente importante.
Ally fingia considerar ridículo.
No fundo, gostava.
Certa manhã, ela chegou ao depósito e encontrou-o sentado sobre uma caixa.
— Por que você está aqui?
— Você não bateu.
— Eu esqueci.
— Então deveria ter ido embora.
— Não seja bobo.
Ela entrou e fechou a porta atrás de si.
— Trouxe uma coisa.
Ally arqueou a sobrancelha.
— O quê?
Eleanor abriu o pequeno cesto que carregava.
Havia quatro maçãs, dois pedaços de pão e um pequeno pote de geleia.
Ally ficou olhando.
— Você roubou isso?
— Peguei.
— Sem pedir?
— Sim.
— Então roubou.
— Você está ficando muito moralista.
— E você se transformando em uma criminosa.
Eleanor sentou-se ao lado dele.
— Quer ou não?
Ally pegou uma maçã.
— Quero.
— Então não reclame.
Ele mordeu a fruta.
— Está boa.
Ela pegou outra.
Durante algum tempo, comeram em silêncio.
Do lado de fora, os trabalhadores passavam de um lado para o outro, completamente alheios à existência daquele pequeno mundo escondido atrás da velha porta.
Eleanor apoiou a cabeça na parede.
— Você acha que vamos ser amigos quando crescermos?
Ally olhou para ela.
A pergunta parecia simples.
Mas, pela primeira vez, ele não respondeu imediatamente.
— Não sei.
Eleanor franziu a testa.
— Por que não?
— Porque as pessoas mudam.
Ela ficou pensativa.
— Eu não vou mudar.
— Vai.
— Não vou.
— Vai, sim.
— E você?
Ally deu de ombros.
— Talvez.
Eleanor pareceu incomodada.
— Então você precisa prometer que não vai.
Ele sorriu.
— Não posso prometer isso.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois estendeu a mão e pegou outra maçã.
— Então eu vou prometer por nós dois.
Ally riu.
— Isso não funciona.
— Funciona, sim.
Ele não discutiu.
Afinal, havia muito tempo para descobrir quem os dois se tornariam.
Eram apenas uma menina que deveria estar aprendendo a ser uma dama e um menino que passava os dias cuidando de porcos.
E nenhum dos dois sabia que, para além daquele jardim, existia um mundo inteiro
preparado para lembrá-los disso.