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Xeque-Mate da Marquesa

Capítulo 4

Xeque-Mate da Marquesa

Capítulo 4

Capítulo 5 · 7 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Os anos passaram sem pedir licença.

A menina que costumava fugir das aulas pela janela continuava existindo em Eleanor, mas já não era tão fácil encontrá-la. Aos poucos, seus vestidos ficaram mais compridos, os cabelos passaram a ser presos com mais frequência e as lições, antes tratadas como uma inconveniência passageira, tornaram-se parte inevitável de sua rotina.

A família começara a falar de seu futuro com uma frequência que a incomodava.

Ela já não era apenas a filha do duque.

Era uma jovem dama.

E isso significava que cada gesto começava a ser observado com mais atenção.

— Ombros para trás, Lady Eleanor.

Ela corrigiu a postura.

— O queixo um pouco mais alto.

Obedeceu.

— Não tanto.

Eleanor conteve um suspiro.

A preceptora circulou ao redor dela antes de finalmente assentir.

— Melhor.

A jovem permaneceu diante do espelho, observando o próprio reflexo. Ainda reconhecia o rosto da menina que corria pelos jardins, mas havia mudanças que não conseguia ignorar. Seus traços tinham se tornado mais delicados, o cabelo crescera e seu corpo começava a perder as formas infantis.

Era estranho perceber que as pessoas agora a olhavam de maneira diferente.

Mais estranho ainda era perceber que ela também começava a olhar para o mundo de outra forma.

— Lady Eleanor?

Ela piscou.

— Sim?

— Estava ouvindo?

— Perfeitamente.

A preceptora estreitou os olhos.

— Então qual foi a última coisa que eu disse?

Eleanor hesitou.

— Que eu deveria... manter os ombros para trás?

A mulher suspirou.

— Isso foi há cinco minutos.

Eleanor sorriu.

— Então continuo prestando atenção.

A preceptora decidiu não responder.

Quando a aula terminou, Eleanor não correu imediatamente para o jardim. Esperou até atravessar dois corredores, descer a escada dos fundos e certificar-se de que ninguém a seguia.

Só então acelerou o passo.

O caminho até a velha árvore parecia menor do que antes.

Ou talvez ela tivesse crescido demais.

Ao chegar, encontrou Ally sentado no chão, encostado no tronco. Tinha uma pequena flauta entre as mãos e os olhos fechados enquanto repetia uma melodia que Eleanor não conhecia.

Ela ficou parada por alguns segundos.

Não sabia por que havia diminuído o passo.

Talvez porque, de repente, ele também parecesse diferente.

Ally havia crescido.

Já não era o garoto magro que corria atrás dos animais pelo campo. Os ombros estavam mais largos, as mãos maiores e o rosto havia perdido parte da suavidade infantil. Ainda havia algo familiar nele, especialmente quando sorria, mas Eleanor teve a estranha sensação de estar conhecendo-o outra vez.

Ele abriu os olhos.

— Você chegou.

Ela tentou agir normalmente.

— Cheguei.

Ally guardou a flauta.

— Demorou.

— Tive aula.

— Isso nunca impediu você antes.

— As coisas mudaram.

Ele a observou por um instante.

— Mudaram?

Eleanor sentou-se no tronco caído ao lado dele.

— Minha mãe agora diz que eu preciso aprender a me comportar como uma jovem.

— E você vai obedecer?

Ela olhou para ele.

— Não completamente.

Ally sorriu.

— Ainda bem.

Eleanor percebeu que estava olhando para ele por tempo demais e desviou os olhos.

Havia algo estranho naquela conversa.

Nada havia realmente mudado entre os dois. Ainda podiam conversar durante horas, rir das mesmas coisas e escapar para os mesmos lugares.

Mesmo assim, já não parecia exatamente igual.

Talvez fosse apenas porque tinham crescido.

Talvez fosse porque agora começavam a perceber coisas que, quando crianças, simplesmente não existiam.

— Você aprendeu a tocar? — perguntou Eleanor, apontando para a flauta.

— Um pouco.

— Toque alguma coisa.

— Não.

— Por quê?

— Porque você vai rir.

— Eu nunca rio de você.

Ally levantou uma sobrancelha.

— Isso é mentira.

— Não é.

— Você riu quando eu caí no riacho.

— Porque você caiu sentado.

— Ainda assim.

Eleanor sorriu.

— Toque.

Ele acabou cedendo.

A melodia era simples, mas havia algo melancólico nela. Eleanor ficou em silêncio até que a última nota desaparecesse entre as árvores.

— É bonita.

Ally abaixou a flauta.

— Minha mãe me ensinou algumas coisas.

— Ela toca?

— Tocava, quando era mais jovem.

Eleanor sorriu.

— Quero aprender.

— Você?

— Por que parece tão surpreso?

— Você mal consegue ficar cinco minutos sentada.

— Consigo ficar sentada quando quero.

— Você nunca quer.

Ela deu-lhe um leve empurrão no ombro.

Ally riu.

Eleanor riu também, mas o momento logo se aquietou.

Ela voltou a olhar para ele.

Havia algo no rosto de Ally que não conseguia definir.

Ou talvez o problema fosse outro.

Talvez estivesse começando a perceber que ele era um rapaz.

A constatação pareceu estranha.

Durante anos, Ally havia sido apenas Ally. Seu companheiro de fugas, seu cúmplice, a pessoa que conhecia seus esconderijos e guardava seus segredos.

Agora, de repente, ela notava coisas que nunca havia notado.

O modo como ele prendia os cabelos quando trabalhava.

A voz, que havia ficado mais grave.

A maneira como seus olhos demoravam um pouco mais sobre ela antes de se desviarem.

Eleanor ficou desconfortável com os próprios pensamentos.

— O que foi? — perguntou Ally.

— Nada.

— Está me olhando estranho.

— Não estou.

— Está, sim.

Ela levantou-se depressa.

— Vamos ao lago.

Ally ficou de pé.

— Por que você está fugindo?

Eleanor virou-se para ele.

— Eu não estou fugindo.

— Você sempre foge quando não quer responder.

— E você sempre faz perguntas demais.

Ele sorriu.

— Então estamos iguais.

Caminharam lado a lado até o lago.

Durante algum tempo, nenhum dos dois falou.

A amizade continuava ali, mas havia agora uma espécie de cuidado novo nos silêncios. Eleanor não sabia explicar por que, às vezes, sentia vontade de ficar mais perto dele e, ao mesmo tempo, tinha vergonha quando percebia que estava fazendo exatamente isso.

Ally parecia ter seus próprios motivos para permanecer calado.

Quando chegaram à margem, Eleanor sentou-se na grama.

— Você já pensou no que vai fazer quando crescer?

Ele demorou a responder.

— Todos os dias.

— E?

— Ainda não sei.

— Você nunca sabe.

— É porque não tenho tantas opções quanto você.

Ela franziu a testa.

— Eu também não tenho tantas opções.

Ally olhou para ela.

— Tem mais do que imagina.

Eleanor sabia que ele estava falando de sua posição.

Da família.

Do futuro que seus pais provavelmente escolheriam para ela.

Nos últimos meses, começara a ouvir conversas que antes não lhe diziam respeito. Nomes de famílias, propriedades, títulos e casamentos. Sua mãe falava sobre quais jovens cavalheiros haviam sido apresentados naquela temporada. Seu pai começara a mencionar homens que, segundo ele, possuíam boas famílias e excelentes perspectivas.

Eleanor não gostava quando essas conversas surgiam.

Não porque tivesse algum cavalheiro específico em mente.

Mas porque não gostava da ideia de que alguém pudesse simplesmente decidir seu futuro por ela.

— Não quero me casar cedo — disse.

Ally ficou imóvel.

— Por quê?

— Porque não quero.

Ele olhou para a água.

— Um dia você terá que se casar.

— Eu sei.

— E então vai embora daqui.

Eleanor virou-se para ele.

— Para onde?

— Para a casa do seu marido.

Ela fez uma careta.

— Parece horrível quando você fala assim.

Ally sorriu de leve, mas não parecia realmente divertido.

— Só estou dizendo o que vai acontecer.

— Você não sabe.

— Sei o suficiente.

O silêncio voltou.

Eleanor observou o perfil dele e sentiu uma inquietação que não compreendia.

— E você?

— Eu o quê?

— Se eu me casar, o que você fará?

Ally não respondeu imediatamente.

Passou a mão pela grama, arrancando uma pequena folha entre os dedos.

— Continuarei trabalhando.

— Isso não responde.

— É a resposta que tenho.

Eleanor não gostou.

— Você pode querer alguma coisa melhor.

— Talvez.

— Então queira.

Ele soltou uma risada baixa.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não precisa ser fácil.

Ally finalmente a encarou.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

A distância entre eles era pequena.

Menor do que costumava ser.

E, ainda assim, parecia existir alguma coisa invisível impedindo que qualquer um se aproximasse mais.

Eleanor foi a primeira a desviar os olhos.

— Vamos voltar.

Ally assentiu.

Levantaram-se e começaram a caminhar de volta para a propriedade.

Não falaram sobre casamento novamente.

Mas, naquela tarde, pela primeira vez, os dois perceberam que o futuro não seria apenas uma continuação da infância.

Havia coisas que mudariam.

Pessoas que chegariam.

Escolhas que talvez não pertencessem somente a eles.

Eleanor ainda não sabia o que sentia quando pensava em perder Ally.

Ally, por sua vez, começava a entender que talvez o maior medo de sua vida não fosse continuar sendo o menino dos porcos.

Era descobrir que, um dia, Eleanor poderia deixar de ser a menina que sempre voltava para encontrá-lo.

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