Capítulo 4: Hipnotizante.
Capítulo 5 · 5 min de leituraClassificação +18: conteúdo adulto

Kael...
A viagem até Aster foi longa.
Longa, cansativa e completamente desnecessária, ao menos era o que eu pensava. Sentado dentro da carruagem principal da comitiva real, observava pela janela os campos que se estendiam ao redor da estrada, a paisagem era bonita, mas isso pouco me interessava.
Meu pai havia insistido naquela viagem. Na verdade, insistido seria uma palavra suave, ordenado seria mais apropriado.
Segundo ele, eu precisava encontrar um parceiro adequado, alguém que fortalecesse minha posição política, e que me ajudasse a consolidar minha futura ascensão ao trono.
Um casamento vantajoso e lucrativa. Era uma decisão racional, eu compreendia perfeitamente a lógica, mas isso não significava que precisava gostar dela.
Meu pai tinha preparado uma lista extensa de reinos para visitar, e Aster era apenas o primeiro, e honestamente, eu esperava partir dali o mais rápido possível.
A carruagem desacelerou, observei pela janela quando os primeiros portões da capital surgiram, era exageradamente decorados.
Meu humor piorou imediatamente.
Ao longo da viagem, eu havia atravessado diversas cidades do reino, e a imagem que carregava delas não era agradável.
Estradas deterioradas, comércio enfraquecido, e camponeses claramente sobrecarregados por impostos.
Claramente esse não era um reino miserável, mas também não era o paraíso que seus governantes pareciam acreditar. E ainda assim, conforme nos aproximávamos da capital, a riqueza tornava-se cada vez mais extravagante, como se alguém estivesse tentando esconder os problemas do reino atrás de ouro e mármore.
Típico.
Meu pai costumava dizer que um governante sábio investia primeiro nas fundações de seu reino, e Aster parecia investir apenas na aparência.
Quando atravessamos os portões da capital, minhas suspeitas apenas aumentaram, tudo era excessivo.
Fontes, estátuas, jardins, decorações, e luxo, mas muito mesmo luxo.
Enquanto isso, eu ainda me lembrava das pessoas que havia visto alguns dias antes vivendo em condições bem menos confortáveis.
Não era difícil imaginar como aquele reino terminaria.
Reinos governados por tolos raramente duravam, mais cedo ou mais tarde, sempre desmoronavam.
A questão era apenas quando.
—-
Quando finalmente chegamos ao palácio imperial, minha opinião já estava praticamente formada. E então vi a recepção preparada para nós, era uma demonstração desnecessária de riqueza.
O tipo de coisa que impressionava visitantes inexperientes, não a mim, mas ainda assim, mantive minha expressão neutra enquanto descia da carruagem.
O imperador e a imperatriz aguardavam na entrada sorridentes, ao lado deles estavam seus filhos.
Os observei apenas o suficiente para memorizar seus rostos, nada particularmente interessante.
Formalidades foram trocadas, e os cumprimentos realizados, e então fomos conduzidos para a sala de recepções. E foi ali que algo começou a me incomodar, uma estranha sensação de estar sendo observado, mas depois veio a confirmação.
Alguém estava me encarando, sem qualquer discrição, ou tentativa de esconder.
Levantei os olhos, e encontrei imediatamente a origem daquele olhar.
Um jovem de cabelos claros, traços delicados, com roupas luxuosas.
Ele era bonito. Mas não era isso que chamou minha atenção, era sua expressão.
Porque não havia admiração nela, interesse, e muito menos atração.
Havia desdém, o mais puro e simples desdém.
Quase como se ele estivesse olhando para algo desagradável, algo que o irritava profundamente.
Aquilo me pegou desprevenido, a maioria das pessoas tentava causar uma boa impressão durante encontros diplomáticos.
Mas aquele jovem parecia fazer exatamente o contrário, por um instante considerei que talvez não gostasse da minha aparência.
Não seria a primeira vez.
Eu nunca tive paciência para roupas excessivamente luxuosas ou joias desnecessárias, comparado aos nobres de Aster, minhas vestes provavelmente pareciam simples.
A possibilidade quase me fez rir. Então o imperador voltou a falar.
- E este é nosso terceiro filho, o príncipe
Ah, então era ele. Os rumores sobre o terceiro príncipe de Aster haviam chegado até mesmo a Valdrik, era difícil não ouvi-los.
O único membro da família real, a não ter gênero secundário, se tornando mimado além da razão, e protegido por todos.
Seu nome surgia frequentemente em relatórios diplomáticos e comentários da nobreza estrangeira, e nenhum deles particularmente elogioso.
Lembro-me de ter descartado essas informações rapidamente, o comportamento de um príncipe estrangeiro raramente me interessava, mas agora observava o próprio Cassian. E, por algum motivo, não conseguia parar.
Eu deveria estar prestando atenção na conversa, não em um príncipe mimado. Ainda assim, meus olhos continuavam retornando para ele.
Talvez fosse porque ele continuasse fazendo o mesmo comigo, ou talvez porque sua expressão simplesmente não combinasse com os rumores. Claro, ele parecia arrogante, disso eu não tinha dúvidas, mas também parecia hipnotizante.
O pensamento foi absurdo, nós nunca h
avíamos nos encontrado.
Então por que eu não parava de observa-lo?!.
—-
A reunião prosseguiu como o esperado, o imperador explicou seus planos para minha estadia.
Jantares, passeios, eventos sociais, e claro a oportunidades para conhecer suas filhas, nada inesperado.
Eu já havia participado de recepções semelhantes antes.
Enquanto ele falava, continuei ouvindo educadamente, mas de tempos em tempos, meu olhar voltava para Cassian. E, inevitavelmente, eu encontrava os dele.
Sempre. Era como se ele também estivesse me observando constantemente.
A diferença era que ele parecia cada vez mais incomodado quando nossos olhares se encontravam.
Curioso, muito curioso.
Quando finalmente comecei a considerar a possibilidade de conversar com ele em algum momento da estadia, uma voz familiar interrompeu meus pensamentos.
- Alteza.
Voltei minha atenção para meu lado, era meu chanceler.
- A viagem foi longa. Talvez seja melhor descansar antes dos compromissos desta noite.
Por um momento, quase me esqueci de responder.
- Sim.
Provavelmente era uma boa ideia.
Levantei-me, despedidas formais foram trocadas, e a reunião chegou ao fim.
Enquanto seguia os criados pelos corredores do palácio em direção aos meus aposentos, percebi algo interessante.
Eu ainda estava pensando naquele príncipe. Naquele olhar, naquele evidente descontentamento.
Suspirei discretamente, era melhor deixar esses pensamentos para lá, dentro de poucos dias eu deixaria Aster para trás.
Não havia motivo para desperdiçar tempo pensando em Cassian.
Ainda assim, quando fechei a porta dos meus aposentos atrás de mim, a última imagem que passou pela minha mente não foi a do imperador, ou da imperatriz.
É muito menos das princesas que meu pai claramente esperava que eu considerasse, foi a do terceiro príncipe. E daqueles olhos que pareciam me odiar sem motivo algum.